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Clausura cartuxa: uma vocação que estarrece e choca o mundo

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Abandonando uma sociedade em que cada um procura aparecer, os cartuxos se esforçam por desaparecer

Não é possível, sem a ajuda de uma graça especial, procurar definir o espírito de uma das grandes Ordens da Igreja, cujos interesses são os interesses de Deus. Nenhum homem está à altura de falar sobre eles – e a tarefa se torna ainda mais difícil quando essa Ordem é contemplativa, fiel há nove séculos à sua clausura rigorosa. A sua vida secreta, para se revelar, precisa de uma resposta interior. Para falar da vocação cartuxa, seria preciso, acima de tudo, tê-la seguido até à perfeição: e é com vergonha de ter feito tão pouco que escrevemos estas linhas.

Por mais que se pretenda exprimir a intenção que anima a vida dos cartuxos e das suas religiosas, devemos fazê-lo nos termos mais simples. As nossas almas são esposas de Jesus Cristo se respondemos ao seu chamado: o nosso ideal é fazê-lo e viver unicamente em união com Ele. Esforçamo-nos por atingir este fim pela vida sacramental e litúrgica, pela oração, pela obediência, pela mortificação e pelo esquecimento de nós próprios, na solidão e segundo os costumes da Ordem cartuxa. Sabemos e sentimos, na medida em que Deus o quer, que Ele está desejoso de completar sem demora esta união dos espíritos e dos corações, desde que afastemos os obstáculos. Estes obstáculos reduzem-se a um: o apego a nós próprios, de que só o amor divino pode libertar-nos.

Esta definição é certamente elementar: muitos estranharão encontrar nela tão pouca doutrina e tão poucas características específicas. Contudo, esta simplicidade é necessária: é a primeira característica da espiritualidade cartuxa, e lamentamos ter de explicar estas palavras, pois não acrescentaremos nada à sua substância e receamos até enfraquecê-las com o comentário.

Os monges e as religiosas cartuxas, ocupados em servir a Deus nos seus eremitérios, nunca formaram uma escola nem se agruparam à volta do nome de um mestre: não têm nenhum autor célebre cuja obra fixe as linhas do seu desenvolvimento espiritual e lhe dê a forma que há de ser depois imitada. Mas não é só pela sobriedade das formulações teóricas que parece ter ficado reservado um lugar para um impulso silencioso do espírito; a virgindade é uma característica essencial da espiritualidade cartuxa: tudo, nesta Ordem, protege a vida espontânea da alma e a reserva para Deus.

É este o sentido da solidão, a que nós observamos, e que tanto impressiona os estranhos. Abandonamo-nos a Deus e é unicamente d’Ele que nos esforçamos por viver. Esta solidão, no seu aspecto social, é de resto suavizada pela regra: mantemos entre nós relações de família; estamos unidos uns aos outros por uma profunda amizade, como irmãos e irmãs da mesma ordem. No entanto, estas relações e esta amizade só têm sentido na medida em que nos podem ajudar na fidelidade à solidão, medindo-a pelas nossas forças e pondo-a à prova para que ela não perca o seu caráter sobrenatural. Estar só, em certo sentido, é morrer para o homem: é por isso que, muitas vezes, depois de o terem tentado, alguns o consideram um empreendimento desumano. Contudo, a alma foi feita para Deus, e qualquer outro objeto fecha o coração e o espírito dentro de limites que o asfixiam. Privá-la da solidão, como o mundo parece atualmente determinado a fazer, é fazer-lhe uma violência que, com mais propriedade, se pode chamar desumana. A solidão com Deus é um ideal a que todas as almas devem tender: o claustro apenas o atinge num movimento mais decidido e mais direto. Na verdade, não há outra companhia além de Deus: o coração que não a descobriu passará ainda por muitas provas e só no caso de se conservar leal é que atingirá essa evidência, não com tristeza resignada, mas com profundo júbilo.

A vida cartuxa também se define pela sua atividade interior: esta Ordem é, dentro da Igreja, a que mais totalmente se dedica à contemplação. Esta palavra parece ter uma singular virtude, que fascina uns e inquieta outros. Criticou-se já o seu emprego, de resto antiquíssimo: não é verdade que há homens incapazes de “ver”, de “contemplar” interiormente seja o que for, por mais zelosos e religiosos que possam ser? Devemos responder, em nossa opinião, que esta palavra foi escolhida providencialmente para designar a atitude de uma alma-esposa, ainda que ela esteja longe de estar inundada de luz. Os espíritos que amam a verdade divina a contemplam, e esse ato deve ser o único que a alma bem-aventurada fará no céu. Mas esse aprendizado, aqui na terra, se faz no meio do sofrimento e das trevas da fé: é por isso mesmo que ela é sacrifício, purificação eficaz e testemunho insigne de caridade. Pode-se contemplar nas tribulações e na aridez, no trabalho e nos cuidados com o próximo, e até mesmo nas tentações e nas distrações involuntárias; a única coisa que importa é que a alma se mantenha voltada para o Senhor invisível e opere de acordo com esse olhar. A experiência do amor deve levá-la a entender o valor que ela dá à contemplação do seu objeto, tanto nas trevas como na luz, e o puro pressentimento da visão que anima a sua fidelidade: na verdade, é-se contemplativo na medida em que se ama.

Que este esforço pode ser coroado já nesta vida por uma perfeita união com o Esposo, acreditamos firmemente, pois, na verdade, nada se interpõe entre Deus e a alma. Mas essa união é, por sua natureza, secreta: ela implica o respeito do silêncio em que o Espírito a prepara e mantém.

O segredo é, de resto, uma das características de toda a vida cartuxa: monges e freiras encontram nele o fresco refúgio em que germinam as flores eternas. Como passamos na igreja uma parte das horas noturnas, esforçamo-nos por santificar por meio da oração o coração da noite; assim, a nossa existência, longe dos olhares do mundo, imita a vida oculta do Senhor, a que Ele viveu no seio de Maria e durante os trinta anos que prepararam a salvação do mundo. Abandonando uma sociedade em que cada um, como é natural, procura aparecer, os cartuxos e as religiosas cartuxas esforçam-se por desaparecer, esperando que a verdade aceite esta prova. Um dos patronos da nossa Ordem, cujo nome vem incluído na nossa fórmula de profissão, é João, o Precursor, o profeta solitário que procura apagar-se para que brilhe aos olhos de todos a luz do Verbo.

O papel da mulher, em particular o da virgem, como já foi observado mais de uma vez, compreende de século para século uma viva afirmação de pudor: ela sente a si própria como um véu que protege essas reservas sagradas que se devem conservar puras, para que nunca sequem na terra as fontes da vida e da beleza; isto é verdadeiro num sentido muito especial para as virgens enclausuradas e consagradas, que se cobrem com um véu à imitação de Maria, para guardar e alimentar dentro de si a vida divina. É por isso que as nossas monjas não parecem ter-se ligado à nossa Ordem por mero acaso, mas sim por uma disposição providencial, para que o espírito desta mesma Ordem fosse claramente manifestado nas suas características essenciais e para que a nossa resposta à mesma vocação fosse para nós um mútuo encorajamento, uma confirmação recíproca da graça comum pela qual nos sentimos gratos para sempre.

Não se poderá esconder, num esboço do ideal cartuxo, a presença constante da cruz: abandonar o mundo é doloroso para o coração; a solidão, por mais preciosa que seja por si, é um sacrifício quotidiano para a nossa natureza pecadora; a obediência, a pobreza, por mais sabiamente proporcionadas que estejam com as forças humanas, não podem ser aceitas e vividas sem uma agonia da vontade própria. Se o entusiasmo do amor não acende na alma uma fagulha de heroísmo, não se aceitarão por muito tempo estes deveres de padre cartuxo ou de irmão converso, nem os de esposa ou de mãe espiritual. Eles pressupõem que foi ouvido o chamamento de Cristo: “Se alguém me ama, tome a sua cruz e siga-me”. Não há verdadeira vida interior sem uma paciência infinita, e, se a vida do convento não é uma vida interior, é um cativeiro singularmente infeliz. A graça não há de faltar a quem quiser ouvir esse chamamento, mas, se não houver uma fidelidade quotidiana, toda a graça será estéril e perdida.

As dádivas mais puras do Espírito, os dons da fé, da intuição e da união, que são alegria, têm, contudo, necessidade da solidão, do silêncio e da cruz: a sua realidade se desvanece numa vida demasiado cômoda, assim como numa expressão demasiado fácil. A reclusão austera e os sofrimentos que comporta são bem-vindos para o contemplativo: quando lhe faltam, a alma tem a consciência de que perde um amparo precioso e que lhe seria prejudicial ver-se privada dela durante muito tempo.

Não insistiremos mais sobre este aspecto da nossa vida: a vida cartuxa é uma escola de paciência. Exercida em união com Cristo, na submissão à regra e na fidelidade à solidão, a paciência purifica a alma, vai gastando lentamente o amor-próprio e nos obriga a entregarmo-nos a Deus. O nosso Ministro Geral, D. Inocêncio Le Masson († 1703), diz que a cartuxa é ainda uma escola de caridade (no estilo do seu século, “uma academia de caridade”): este ponto é, de fato, o centro da nossa comunidade religiosa, o seu princípio e o seu fim. Os sacrifícios de que acabamos de falar, o abandono e a renúncia, têm como única razão de ser a caridade que manifestam, como vem declarado nos nossos Estatutos.

A única coisa que se faz nos nossos conventos é amar a Cristo com todas as nossas forças: sabemos que a abundância deste divino amor nos será dada se formos fiéis e se derramará sobre todas as almas que dele necessitarem. Não há um único cartuxo que não se considere, neste sentido, missionário; não há nenhuma virgem cartuxa que não tenha o sentimento da sua maternidade espiritual e não possa dizer com Cristo: “O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, me enviou a sarar os contritos de coração, a anunciar aos cativos a redenção e aos cegos a vista, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar o ano favorável do Senhor e o dia da retribuição” (Lc 4, 18-19).

O ofício divino e o canto coral são a expressão do amor que a própria Igreja, Esposa de Cristo, nos põe na boca, encarregando-nos oficialmente das suas declarações, dos seus juramentos e dos seus louvores. A caridade que deve ser a vida do claustro se manifesta, por outro lado, entre os membros do mesmo mosteiro tanto por um esforço contínuo de delicadeza e de compreensão quanto pela comunhão dos corações saciados na mesma fonte. Este ideal nem sempre é atingido na sua perfeição: no entanto, é realizado de modo mais constante do que o mundo julga, e a fraternidade monástica, sóbria de expressão, alimentada de silêncio, é um amparo precioso para a alma na sua peregrinação interior.

Parece-nos, muitas vezes, que as pessoas do século, entre as quais se fala de amor e de amizade, poderiam tirar proveito da experiência das nossas comunidades: na verdade, nenhuma afeição pode perdurar se não for garantida por uma vontade quotidiana e pela prática da renúncia, que lhe permite encarar de boa vontade todas as dificuldades; nenhum amor poderá viver se não estiver pronto a sacrificar até as suas próprias alegrias. Quem não reconhece estas verdades não sabe amar como se ama na cartuxa – e não acreditamos que saiba amar em qualquer outro lugar.

Inocêncio Le Masson, que faz da cartuxa “uma academia de caridade”, vê também nela o que parecerá talvez ainda mais estranho: “uma academia de liberdade”. Basta, no entanto, ter a experiência de um noviciado cartuxo para saber que a primeira impressão é a que está reduzida no salmo 123: “O laço foi quebrado e nós ficamos livres”. O espaço interior, na verdade, é infinitamente mais vasto que aquele que nos rodeia: o que mantém o homem cativo é o amor ansioso pelos bens transitórios, a ambição estreita, a preocupação paralisante com o que os homens podem dizer ou pensar de nós; numa palavra, o amor-próprio em todos os seus aspectos. A resolução sincera de acabarmos com as suas exigências, de passarmos a tratar-nos com sábio desprezo, com justa ironia, é comparável ao levantar de um peso sob o qual mal podia bater o coração. Os votos não fazem mais do que romper as amarras. O caminho da liberdade não é o dos êxitos exteriores: pelo contrário, desce até ao mais secreto da alma, até ao fundo divino em que o espírito está atento à verdade que nos liberta (Jo 8, 32). Esta liberdade se desenvolve; é como uma descoberta sempre nova, à medida que cresce a intimidade com Deus, à medida que ela reconhece a sua presença imediata e lhe permite viver nela.

Deus é mais amável do que se pensa e mais fácil de conhecer do que se julga. Amá-lo e conhecê-lo são duas graças intimamente ligadas: não se faz nenhum progresso no amor que não torne mais firme a certeza em que se baseia o equilíbrio e o voo do espírito. Amar e contemplar na solidão cartuxa leva a alma a esquecer-se cada vez mais de si própria, até que a transparência do espelho interior permita que Deus se reproduza e repouse nela completamente. Terá sido então cumprido o grande mandamento: “Dai a Deus o que é de Deus”; isto é tudo. As perguntas e as respostas se baseiam num cântico único de louvor, a união é consumada em silêncio para além das nossas medidas; a esposa pertence ao esposo: a liberdade foi conquistada.

Possa o Espírito ser ouvido melhor! Que os corações generosos sigam Jesus sem medo do deserto! E que os que ousaram fazer este esboço do ideal cartuxo, ajudados pelas orações dos seus leitores, possam vivê-lo mais fielmente, para a sua própria salvação e de todas as almas. “Venite et bibite, amici: inebriamini, carissimi!” – “Vinde, amigos, e bebei na fonte, embriagai-vos, caríssimos!” (Ct 5, 1).

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Extraído de “Intimidade com Deus”, por um cartuxo anônimo, via blog A Grande Guerra

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