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As duas únicas opções de um jovem: morrer de vodca ou morrer de tédio

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Será mesmo?

Alguns meses atrás, um universitário brasileiro de 23 anos ingeriu 25 doses de vodca em uma festa na cidade de Bauru, SP. O evento tinha sido organizado por repúblicas de alunos da Unesp e oferecia bebida à vontade mediante um preço fixo. Não havia enfermaria nem ambulância para eventuais emergências. O rapaz passou mal, foi socorrido e morreu no hospital. Ele tinha participado de uma competição e perdido: o campeão tomou 30 doses (e também foi internado, em estado grave). Dois organizadores da festa responderão em liberdade por homicídio com dolo eventual, por terem assumido o risco de matar. No Facebook do jovem que morreu, uma frase significativa:

“Prefiro morrer de vodca a morrer de tédio”.

A frase é do poeta russo Vladimir Maiakovski (que não morreu de vodca, mas cometeu suicídio – no fundo, morreu de tédio).

Acontece que um jovem de 23 anos de idade provavelmente tem mais opções na vida do que a vodca e o tédio.

No entanto, a cada 36 horas, um jovem brasileiro morre de intoxicação alcoólica aguda ou de outra complicação decorrente do abuso de álcool, de acordo com o Datasus, do Ministério da Saúde. O número total de mortes ligadas ao exagero alcoólico, no entanto, é muito maior, já que, além dessas mortes diretas, é preciso computar também aquelas que decorrem de doenças causadas pelo consumo crônico e pelos acidentes e casos de violência provocados pelo álcool.

Segundo pesquisa de 2014 feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os brasileiros estão bebendo mais cedo e em maior volume. A idade média em que se começa a beber no país é 15 anos. O “binge”, que consiste em beber mais de 5 doses (homens) ou mais de 4 doses (mulheres) num período de até duas horas, é praticado por 43% dos adolescentes brasileiros de até 17 anos, por 55% entre 17 e 21 anos e por 61% de 21 a 25 anos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que a média mundial de consumo de álcool por indivíduo acima de 15 anos é de 6,2 litros/ano (dados de 2010). O Brasil está acima dessa média, com 8,7 litros de álcool por ano.

Há uma relação entre o abuso de bebidas e problemas físicos e psíquicos. “O álcool em excesso paralisa o sistema nervoso. Se a pessoa entrar em coma alcoólico e não tiver o devido cuidado, pode sofrer a parada cardiorrespiratória. O álcool causa doenças no fígado, perda cognitiva e pode desencadear mais rápido e mais severamente a depressão e o transtorno de ansiedade”, explica Clarice Madruga, pesquisadora do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas, da Unifesp.

Clarice opina, ainda, que “esse abuso é mais comum entre jovens porque, nessa faixa etária, é realmente mais difícil controlar os impulsos. Por isso, não se pode culpar a vítima ou os pais. É preciso que o poder público intervenha na venda de bebida”.

Os próprios universitários confirmam que o acesso fácil à bebida colabora para o consumo exagerado. Clarice Madruga considera que “a situação não vai mudar enquanto o governo não sobretaxar a indústria e proibir situações como o patrocínio de empresas cervejeiras a festas universitárias”.

Voltemos agora ao começo do texto: um jovem de 23 anos de idade provavelmente tem mais opções na vida do que a vodca e o tédio.

Reconhecendo-se isto, será mesmo cabível afirmar que a “única solução” é uma intervenção proibitiva do governo? A mesma intervenção proibitiva que, de acordo com os próprios universitários, não serve para combater o consumo de drogas?

Será possível que a responsabilidade é sempre do “contexto” e nunca da consciência, da maturidade e da vontade de cada pessoa?

Será verdade que um “jovem dessa faixa etária” não tem capacidade de controlar os impulsos no tocante ao álcool, mas teria no tocante às drogas caso elas fossem liberadas?

Será mesmo que um jovem de 23 anos de idade só tem na vida a opção entre a vodca e o tédio?

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