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A teoria do “Big Bang” contradiz a Bíblia?

Aleteia Brasil - publicado em 30/08/12

Segundo o livro do Gênesis, o universo foi criado por Deus. A grande maioria dos cientistas, no entanto, está convencida de que o universo nasceu de uma gigantesca explosão inicial, o chamado “Big Bang”. Portanto, a fé se opõe à ciência?

O relato bíblico não é uma descrição científica ou uma narração de fatos ligados à criação divina. A teoria de um universo criado e em expansão foi formulada pela primeira vez por um sacerdote católico, como demonstração do fato de que a ciência e a fé são complementares, ainda que autônomas.

A teoria de um universo criado e em expansão foi elaborada entre 1927 e 1931 por Georges Lemaître (1894-1966), sacerdote e astrofísico belga.


Quem, no século XXI, ainda lembra que Georges Lemaître, sacerdote e astrofísico belga, foi o inventor da famosa teoria do Big Bang? Hoje, ele já é desconhecido e esquecido, a não ser na Bélgica. No entanto, foi ele quem elaborou um modelo relativista do universo em expansão (1927), formulando a primeira teoria cosmológica segundo a qual o universo primitivo e denso entrou em expansão imediatamente depois de uma explosão.


Em 1922, redige uma memória que se apresenta como uma síntese pessoal da relatividade estreita e geral, intitulada “A física de Einstein”. Estudando, de fato, as equações do pai da teoria da relatividade, observou que o Universo que surgia não podia ser estático, mas dinâmico; do contrário, toda a massa teria acabado por colapsar sobre is mesma. Em 1927, durante o período da sua cátedra em Lovaina, publica seu artigo mais importante, que impressionou muito Albert Einstein, ainda que nos primeiros anos rejeitará a teoria do Pe. Lemaître.


O sacerdote jesuíta chegou a sustentar que, na origem, o universo deveria estar concentrado em um “átomo primordial”, extremamente quente e terrivelmente condensado, que imediatamente explodiu e começou a expandir-se, criando galáxias e depois estrelas. A teoria de Lemaître foi logo chamada, ironicamente, de teoria do “Big Bang”, em 1950, pelo astrônomo britânico Fred Hoyle, que estava a favor do modelo estacionário, segundo o qual o Universo é sempre idêntico a si mesmo. Atualmente, a comunidade científica concorda em considerar que o Big Bang aconteceu há aproximadamente 13.700 milhões de anos.


Albert Einstein ficou tão fascinado por esta exposição, que se atreveu inclusive a dizer que “quem não for capaz, diante da imensidão e o esplendor do universo, de experimentar no mais profundo da sua alma um sentimento de admiração por um Ser Superior, autor de tudo isso, não é digno de ser chamado de ser humano”.


A partir do momento em que o Pe. Lemaître divulgou suas teorias, em 1927, alguns astrofísicos, guiados por Fred Hoyle, começaram a criticar esta teoria e a acusar o sacerdote católico de “concordismo”, isto é, de pretender misturar a aproximação científica com o fim de sustentar os ensinamentos da Bíblia.

Em 1965, a descoberta da radiação fóssil confirmou a gigantesca explosão inicial do Big Bang. A partir daquele momento e após um longo debate, que durou até 1980, a maior parte dos cientistas começou a adotar a teoria de Lemaître.


Em sua teoria, o Pe. Georges Lemaître havia imaginado que a gigantesca explosão inicial do Big Bang devia ter deixado um resíduo de energia, como uma espécie de radiação fóssil. O mundo científico prestou pouca atenção a esta ideia, voltando, no entanto, a concentrar-se na controvérsia em curso.


Mais tarde, no entanto, um americano de origem russa, George Gamow, desenvolveu a teoria do Pe. Lemaître e calculou a que deveria ser a radiação fóssil correspondente. Seu cálculo se baseava na radiação térmica emitida por um corpo negro, na temperatura de 5 Kelvin (na gama das micro-ondas).


Com grande surpresa geral, em 1965, Arno Penzias e Robert Wilson, pesquisadores da Bell Telephone Company e encarregados de manipular os primeiros radiotelescópios, descobriram por acaso a radiação fóssil. Esta radiação fóssil tem a temperatura de 2,7 Kelvin e provém de todas as partes do universo.


Foi Odon Godart quem comunicou ao Pe. Lemaître, alguns dias antes da sua morte, a notícia da descoberta da radiação fóssil, que ele teria elegantemente rebatizado de “o fulgor desaparecido desde que os mundos foram criados”.


Lemaître havia sido levado ao hospital duas semanas antes, com leucemia. O autor da teoria do Big Bang disse simplesmente: “Agora estou contente, pelo menos temos a prova disso!”. Esta prova valeu um Prêmio Nobel a Robert Wilson e Arno Penzias.


Além disso, em 1929, o astrofísico americano Edwin Powell Hubble havia descoberto que o cosmos não é estático e eternamente igual, mas, ao contrário, as galáxias se afastam umas das outras em uma velocidade crescente.


Mas a oposição à teoria do Big Bang continuou entre 1950 e 1980, sobretudo porque havia sido descoberta e sustentada por um sacerdote. A tempestade se aplacou somente a partir de 1980 e, atualmente, a maior parte dos cientistas reconhece esta teoria como válida.

A Bíblia não é um tratado científico, mas, apesar disso, a narrativa que ela oferece sobre a origem do universo não está em contradição com as mais recentes descobertas científicas.


Em 1958, falando da teoria do Big Bang, o Pe. Lemaître explicou que o papel da ciência e o da Bíblia na explicação da origem do universo são diferentes: “Pessoalmente, considero que a hipótese fica totalmente fora de toda questão metafísica ou religiosa. Esta permite ao materialista também negar qualquer ser transcendente. Para o crente, esta (…) está de acordo também com os versículos de Isaías, quando falam do 'Deus escondido', escondido também no começo da criação”.


É preciso dizer que a teoria do Big Bang foi acolhida imediatamente com grande entusiasmo dentro da Igreja, tanto que, no discurso pronunciado em 22 de novembro de 1951 diante da Pontifícia Academia das Ciências, o Papa Pio XII declarou: “Parece verdadeiramente que a ciência atual, remontando a milhões de séculos, conseguiu tornar-se testemunha desse primordial Fiat lux pelo qual do nada surgiu, com a matéria, um mar de luz e de radiações, enquanto as partículas dos elementos químicos se dividiram e milhões de galáxias se reuniram”.


É verdade também, no entanto, que Lemaître procurou distinguir, desde o começo, o método científico do teológico e evitar que o conceito científico ligado ao início físico e natural do universo se confundisse com o conceito teológico de “criação”.


Por outro lado, já a reconstrução do passado biológico da terra segundo Charles R. Darwin (1809-1882) e os estudos do alemão Hermann Gunkel (1862-1932), entre os séculos XIX e XX, convenceram muitos teólogos de que a verdade do relato bíblico não deveria sempre ser buscada na simples transposição dos fatos narrados sobre o campo da realidade histórica.


Decisivo, para a compreensão dos textos bíblicos, foi também a aplicação de um princípio enunciado, entre outros, por Baruch Spinoza (1632-1677), no incompleto “Tratado Teológico-Político”, com base no qual todo exame sobre as Sagradas Escrituras deveria ser realizado em relação com os contextos históricos nos quais estas haviam surgido.


Em particular, a identificação de diversos gêneros literários dentro da Bíblia constituiu um passo adiante muito importante, que contribuiu para melhorar o diálogo com o mundo leigo dos cientistas. Da criação divina se fala nos primeiros dois capítulos do Gênesis, livro que, para os judeus, é o primeiro da Torá, a coleção desses livros da Lei de Moisés que os cristãos chamam de Pentateuco.


Os profetas Jeremias e Amós o citam e, por exemplo, em Jr 10, 6-16, lê-se que YHWH é o Rei (v. 6) que controla todos os processos na ordem do mundo e que “formou tudo” (v. 16); e em Am 4, 13, se refere a Deus como “aquele que faz os montes e cria os ventos” e que “faz a aurora e as trevas”.


A conclusão dos especialistas sobre a composição do primeiro capítulo do Gênesis é que se trata de um texto elaborado no período em que Israel viveu a trágica experiência do exílio na Babilônia (587 a.C.) por obra do chamado autor (ou grupo) sacerdotal, com toda probabilidade pertencente ao círculo dos sacerdotes judeus deportados à Babilônia por Nabucodonosor.


Portanto, não somente a sistematização das partes, mas o próprio desenvolvimento dos conceitos teológicos – entre eles, a ideia da criação – são fruto de elaborações ou reordenações sucessivas.


Sobre esta questão interveio Leão XIII, com a Providentissimus Deus, de 1893, recordando que os católicos não estão obrigados a acreditar que a atividade criadora de Deus tenha ocorrido no arco temporal de 6 dias de 24 horas cada um, dado que os autores divinamente inspirados das Sagradas Escrituras, quando tratam ou simplesmente se aproximam de argumentos próprios da ciência experimental, nem sempre usam escrupulosamente a propriedade da linguagem científica.


De fato, observava Leão XIII em sua carta encíclica, “é preciso considerar, em primeiro lugar, que os escritores sagrados, ou melhor, o Espírito Santo, que falava por meio deles, não quiseram ensinar estas coisas aos homens (a íntima natureza ou constituição das coisas que se veem), já que em nada lhes serviriam para a sua salvação; e assim, mais que tentar, em sentido próprio, a exploração da natureza, descrevem e tratam às vezes das mesmas coisas, ou em sentido figurado, ou segundo a maneira de falar naquela época, que ainda hoje vigora para muitas coisas na vida cotidiana, até entre os homens mais cultos”.


Em 1909, o magistério da Igreja voltou autorizadamente sobre o tema em questão com o documento “Resposta da Pontifícia Comissão Bíblica sobre o caráter histórico dos primeiros três capítulos do Gênesis”, querido pelo Papa São Pio X, no qual se afirma explicitamente que os 6 dias do Gênesis podem ser interpretados como um lapso qualquer de tempo.


Em 1965, no número 11 da constituição dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum, o Concílio Vaticano II esclareceu, mais uma vez, que tudo o que os autores inspirados afirmam deve ser considerado como afirmado pelo Espírito Santo; por conseguinte, “os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras”. Portanto, são verdades reveladas para a nossa salvação, e são tais sob este perfil, e não necessariamente sempre o perfil literal.


O próprio livro do Gênesis exclui uma interpretação extremamente literal do relato bíblico, quando, no capítulo 2, propõe um segundo resumo relativo aos primeiros tempos da criação, que, de alguma maneira, inverte a ordem das coisas criadas: dessa vez, o homem aparece como primeira obra da criação, depois do céu e da terra, e sem dúvida antes de todo tipo de vegetação. A propósito disso, Santo Agostinho (De Doctrina Christiana, III, 18, 26) explicou que os dois relatos da criação, como qualquer outro versículo da Sagrada Escritura, são ambos verdadeiros e que o ensinamento contido neles, muito além da incongruência do sentido literal, não pode consistir em querer desvelar-nos o ritmo espaço-temporal preciso do sopro criador de Deus.


Também e sobretudo na questão da origem da vida, portanto, a ciência e a fé não estão, de fato, em conflito, mas podem fecundar-se mutuamente, por meio da mediação da filosofia, permanecendo, no entanto, suas respectivas autonomias e os diversos âmbitos de pesquisa, como explicava João Paulo II em uma carta enviada em 1987 ao então diretor da Specola vaticana, Pe. George V. Coyne, SJ.


Nela, o Papa faz votos de que os teólogos aprofundem cada vez mais no diálogo com a ciência contemporânea e nas teorias comumente aceitas: “Tal conhecimento os defenderia da tentação de fazer, com fins apologéticos, um uso pouco crítico e apressado das novas teorias cosmológicas como a do Big Bang”.


Portanto, a concepção de um universo em constante expansão reflete a imagem de um Deus que se torna próximo do homem e caminha ao seu lado durante a história, porque, como escreveu Bento XVI em sua “Carta aos seminaristas”, de 18 de outubro de 2010, “Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do ‘big-bang’. Deus mostrou-Se em Jesus Cristo”.

Conclusão

O modelo cosmológico segundo o qual a criação do universo teria tido origem com o Big Bang não contradiz a visão da fé e os ensinamentos da Igreja. Disso é prova o fato de que foi precisamente um sacerdote católico, Pe. Georges Lemaître, o primeiro a propor esta teoria da expansão universal a partir de um estado primordial quente e denso. A teoria do Big Bang é, contudo, um teoria física e não uma doutrina.

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