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China: por que falamos de uma Igreja clandestina?

Sean SPRAGUE/CIRIC

Aleteia Vaticano - publicado em 23/10/12

Na China, a porcentagem de crentes sobre o conjunto da população é uma das mais baixas do mundo. Para os católicos, o único movimento oficial reconhecido pelo governo é a Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC).

Na China, a Igreja Católica teoricamente é reconhecida pela lei, mas o governo comunista não aceita que os bispos sejam nomeados pelo Papa; só reconhece a Associação Patriótica, cujos bispos são escolhidos pelo próprio governo.

A Constituição chinesa de 1978 reconhece várias religiões, entre elas o catolicismo. Mas o exercício da liberdade religiosa é muito limitado.

Desde que os comunistas chegaram ao poder até a revolução cultural, as religiões foram severamente reprimidas na China. Depois da morte de Mao Tsé-Tung, as autoridades reconheceram várias religiões: o catolicismo, o protestantismo, o islã, o taoismo e o budismo.

No país inteiro, esta liberdade religiosa é controlada pela ordem pública e pela obediência às leis vigentes, que variam segundo cada região.

De qualquer maneira, a liberdade religiosa não permite a liberdade de expressão em todos os âmbitos, nos quais o governo e o Partido Comunista consideram que ostentam, sozinhos, a autoridade. As religiões podem ser úteis para a ordem moral e pela sua ação filantrópica, mas não têm voz ativa na vida social, econômica e política.

Como todos os regimes autoritários, o Partido Comunista da China quer decidir, antes do Papa, quem deve ser ordenado bispo ou não. Isso é contrário à prática milenar da Igreja Católica.

No Credo se diz que a Igreja é “apostólica”, ou seja, que está fundada sobre os apóstolos, ao redor de Pedro. Os bispos são os sucessores dos apóstolos e são considerados “católicos” quando estão em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma, ou seja, o Papa.

O sinal desta comunhão é que os novos bispos são nomeados pelo Pontífice; no mínimo, se forem designados por outra instância, seus nomes devem ser propostos ao Papa para que este os reconheça como bispos católicos.

O Papa não pode aceitar que os bispos sejam nomeados pelo governo de um Estado que se professa ateu – concretamente, pelo Partido Comunista da China.

O problema não é novo. A Igreja sabe muito bem disso, com as “democracias populares” e as tentativas de criação de igrejas nacionais, em ruptura com Roma e, portanto, mais facilmente manipuláveis.

Os católicos chineses também estão divididos entre uma Igreja “patriótica” e uma Igreja “clandestina”, perfeitamente conhecida pela polícia.

É impossível ter um número exato de católicos chineses. Certamente, são uma ínfima parte da população. Mas quando esta população se eleva a quase um bilhão e meio de pessoas, uma pequena minoria acaba sendo um mundo.

Diante da ingerência do Partido nos assuntos religiosos, os católicos chineses se dividem. É preciso privilegiar a fidelidade a Roma a qualquer custo? É preciso adaptar-se ao que o governo pede, professando-se membro da Igreja Patriótica?

Estas duas atitudes se concretizam em duas formas de Igreja: a “patriótica” e a “clandestina”. Os membros da segunda não são menos patriotas que os da primeira. Com relação à clandestinidade, é uma farsa, em um país totalitário no qual a polícia sabe tudo de todo mundo.

Esta situação foi vivida na França durante a Revolução. Os sacerdotes poderiam jurar fidelidade à Constituição civil do clero, em alguns pontos contrária à natureza da Igreja? Da mesma forma, foram constituídos dois cleros: “refratário” e “juramentado”. O primeiro foi perseguido e teve mártires.

A carta que Bento XVI escreveu aos católicos da China em 2007 foi mal recebida pelas autoridades do país, que proibiram sua publicação.

O Papa João Paulo II sempre quis visitar a China: esperança frustrada. Seu sucessor também tem este desejo (e que cristão não tem?): que o terceiro milênio seja marcado pela evangelização do Extremo Oriente. Ele acredita que existem oportunidades abertas hoje. Mas uma das condições é a unidade da Igreja Católica na China.

Com este objetivo, Bento XVI escreveu uma longa carta, destinada a todos os católicos da China, em 2007. Seguindo a doutrina do Concílio Vaticano II, mostra nela que a Igreja Católica não reivindica nenhum poder político e quer trabalhar lealmente pelo bem comum. Explica em que condições os católicos podem cooperar com os organismos do Estado.

Para a nomeação dos bispos, afirma ser ilegítima a consulta ao governo. Diz como poderia se regularizar a situação dos bispos ordenados sem o consentimento de Roma. E oferece orientações para a vida cristã e a projeção do Evangelho na China de hoje.

Ainda que o texto seja respeitoso no fundo e na forma, o governo chinês o considerou como uma ingerência intolerável de um poder estrangeiro nos assuntos do país. Mas o texto já havia circulado na internet.

O conflito renasce constantemente por ocasião das ordenações episcopais.

Roma sempre tentou que as comunidades cristãs estivessem providas de pastores e que a unidade fosse reconstruída.

Na França, ao término da Revolução, na Concordata assinada com Napoleão Bonaparte, o Papa aceitou pedir a renúncia de todos os bispos do lugar, tanto “refratários” como “juramentados”. Praticamente todos renunciaram e novos bispos puderam ser nomeados.

Também na França, atualmente, por razões históricas, os bispos de Estrasburgo e Metz são nomeados conjuntamente pelo Vaticano e pelo governo francês. Em outras palavras, Roma sabe ser flexível, quando se mantém o essencial: que o caráter “nacional” não predomine sobre o caráter universal que comporta a palavra “católico”.

Nos dez últimos anos, parecia haver condicionamentos: reconhecimento, por parte de Roma, da maioria dos bispos nomeados pelo governo, se o pedissem; nomeações novas, com o consentimento do governo.

Infelizmente, alguns casos mais recentes impedem de acreditar que o jogo está ganho: nomeações unilaterais por parte do governo; tentativas de comprometer bispos “clandestinos” na ordenação de bispos “patriotas”; posta em quarentena de um bispo que, após sua ordenação, renunciou às suas funções nos organismos do Estado.

A nomeação recente de um chinês no serviço do Vaticano, para cuidar destas questões, talvez permita renovar os contatos mais confiantes. Porque, no Império do Meio, a linguagem da Igreja é, sem dúvida, o chinês.

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