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O que é a Nova Evangelização?

Francisco Catão - publicado em 01/02/13

Como surgiu a ideia de uma "nova evangelização"? Tem ela algo de mais profundo do ponto de vista da teologia e da pastoral da Igreja? Como se poderá concretizar em relação às demais atividades da Igreja? Não corre o risco de se tornar mais um slogan?

“Nova Evangelização” (NE) designa “um projeto pastoral” preciso e original, nascido do Concílio do Vaticano II, em continuidade com a Constituição sobre a Igreja, a Lumen Gentium, sobre a Revelação, a Dei Verbum e sobre a Igreja no mundo moderno, a Gaudium et Spes. Essas três Constituições formam um tripé. A NE reconhece a prioridade da Palavra de Deus, o Verbo, ouvida na fé, de que a Igreja é a expressão histórica, como dom para o mundo, que é chamada a evangelizar.

Essa visão contrasta com as interpretações do Vaticano II que dão prioridade à Igreja em si mesma, ou ao mundo moderno, com os novos desafios que levanta ao Evangelho.

Vinte anos depois de terminado o Concílio, o beato João Paulo II intuiu profeticamente a necessidade de reformular a evangelização, a partir da Palavra, no Espírito. Dando continuidade a essa percepção, o Papa Bento XVI, desde que eleito, tem se esforçado por esclarecê-la e colocá-la em prática.

As origens históricas da Nova Evangelização

Apenas eleito papa, com o nome de João XXIII, o Cardeal Ângelo Roncalli anunciou a intenção de convocar um Concílio Ecumênico para a renovação, o aggiornamento, na Igreja. Inaugurou o Vaticano II, há cinquenta anos, com um discurso em que interpreta positivamente a história, manifestação da ação de Deus, e afirma a perenidade da fé, apesar da relatividade de suas expressões nos mais variados tempos e culturas.

Era uma grande novidade, pois a Igreja, que desde a Idade Média se havia caracterizado por um movimento de progressiva centralização conservadora e uniformidade dogmática, litúrgica e moral, passava a se mostrar sensível às mudanças históricas e culturais.

Assim foi com o cristianismo, nos primeiros tempos, que se deixou influenciar pelo helenismo, ultrapassando a  tradição judaica. João XXIII comparou, por isso, o Concílio a um novo Pentecostes: o Espírito abria para a Igreja num novo caminho de liberdade, que é, por natureza, fonte de renovação e de diversidade.

No encerramento do Vaticano II, em 8 de dezembro de 1965, se havia conquistado o princípio de que era necessário e possível mudar e diversificar as formas religiosas em que se encarnava a vida de comunhão com Deus, oferecida a todos os humanos, na Igreja.

Todos os homens, de todas as épocas e culturas, sem deixar de ser o que são, têm acesso à salvação oferecida por Cristo a toda a humanidade. Mas a universalidade da salvação implica uma grande diversidade nas maneiras de vivê-la, diversidade até então muito temida pela Igreja!

No entanto, aberta a porta à diversidade, assistiu-se, no imediato pós-concílio, a um fervilhar de teologias e de planos de pastoral, nas mais diversas direções. Foi então preciso que, desde a morte de João XXIII, em 1963, seu sucessor, o Cardeal João Batista Montini, com o nome de Paulo VI, defendesse e exigisse a fidelidade de todos à Igreja, para garantir a unidade e evitar a prevalência da diversidade pelo apelo ao laço eclesial da unidade.

Em fins dos anos setenta, sentia-se fortemente a necessidade de encontrar novos rumos, que unificassem em profundidade a ação de toda a Igreja. Tendo o Cardeal Albino Luciani, eleito papa com o nome de João Paulo I, sobrevivido apenas alguns dias, foi eleito para sucedê-lo o Cardeal Karol Wojtyla, com o nome de João Paulo II. Inaugura-se, em 1978, um dos mais longos pontificados da história, 27 anos.

Não se põe em dúvida a fidelidade do novo papa ao Vaticano II, mas foi também evidente sua desconfiança em relação às novidades teológicas e pastorais surgidas no pós-concílio, e sua inclinação a se deixar guiar pela tradição milenar da Igreja, o que levou alguns autores mais afeitos às novidades a denunciar, na Igreja, uma alegada “volta à antiga disciplina”.

Todavia ninguém contesta o carisma do vigoroso papa de 58 anos. Sua atuação é decididamente voltada para o futuro. Tem a convicção de que se deve empenhar a fundo na realização do projeto do Vaticano II em continuidade com a Tradição e enfrenta positivamente os problemas, não só da Igreja, mas de todo o mundo contemporâneo.

Nessa perspectiva, propõe uma retomada da Igreja a partir de suas origens sobrenaturais, uma “nova evangelização”. Menciona o termo, a primeira vez, na sua visita inicial à sua terra natal, em 1979 e o universaliza, por assim dizer, no discurso pronunciado na assembleia do CELAM, em Porto-Príncipe, em 1983.

Não que tenha uma ideia exata do que significa essa “nova evangelização”. Não se tratava de uma teoria, uma visão clara do que fazer. Era uma direção a ser seguida pela Igreja. Intuição de pastor, que precisava determinar um rumo, para dar novo impulso à missão evangelizadora.

Evangelização, dizia o Papa, nova, por “um novo ardor, novos métodos e novas experiências”. Era uma espécie de palavra profética, legada como um desafio a ser explorado tanto em seus fundamentos teóricos como em suas aplicações pastorais.

A “natureza” da Nova Evangelização

Um dos primeiros, e talvez o principal fruto da 13ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2012, sobre A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã, é a análise do conceito de nova evangelização.

Desde os Lineamenta e através de todo o Instrumentum Laboris, nota-se a preocupação, senão de definir no sentido estrito, pelo menos de caracterizar o que entender por Nova Evangelização. Ora, a resposta se encontra nos primeiros seis parágrafos da Mensagem ao povo de Deus, do dia 26 de outubro e nas nove Proposições, da 4ª à 12ª, que compõem o primeiro parágrafo do documento publicado oficiosamente em inglês, intitulado Natureza da Nova Evangelização.

“Os Padres Sinodais reconhecem o ensinamento do Vaticano II como instrumento vital para a transmissão da fé, no contexto da Nova Evangelização”, conclui o primeiro parágrafo das proposições (Proposição 12). Declaração que vai muito mais longe do que aparenta à primeira vista. Implica o reconhecimento, por parte da assembleia sinodal, de que a NE está em continuidade com a renovação operada pelo Vaticano II.

Por trás desse reconhecimento, está a interpretação de que o impulso renovador do Vaticano II tem sua origem não na Igreja nem no mundo, mas no acolhimento da Palavra, no ato de crer.

Foi a resposta que já se havia dado no Catecismo da Igreja Católica, determinado pela Assembleia Extraordinária do Sínodo de 1985. O Catecismo, para ser fiel ao Vaticano II, optou pela apresentação das verdades da fé não em si mesmas, em função unicamente de seu conteúdo, como se fizera em 1566, no Catecismo Tridentino, mas pela sua apresentação na dupla perspectiva do desígnio de Deus e do ato livre de crer.

Por essa razão criou-se, em cada parte, uma primeira sessão, que coloca em perspectiva a transmissão das verdades da fé nas quatro partes clássicas do Catecismo: o Creio-Cremos, o ato de crer, na primeira parte, o mistério da economia sacramental na segunda, a vida no Espírito, para a prática dos mandamentos, e o sentido da oração na vida cristã, para a última parte.

Como o Catecismo, há vinte anos, a NE está em perfeita continuidade com o Vaticano II. O primeiro parágrafo das Proposições parte das origens trinitárias da Igreja, que é participação na vida da Trindade, “fonte da Nova Evangelização” (Proposição 4), tal como o proclamou o Concílio, ao reconhecer a Igreja como “sacramento da unidade de Deus e de toda a humanidade” (LG, 1), ou seja, “o povo unido pela unidade mesma do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LGI, 4), como já o dissera Cipriano de Cartago (†258).

Duas consequências maiores decorrem desse primeiro princípio: “o primado da graça de Deus” e a universalidade da salvação. Longe de ser uma atividade de propagação da religião católica, de proselitismo, a NE é chamada a estar presente em todas as culturas (Proposição, 5) como “proclamação do Evangelho (Proposição, 6), correspondendo ao “caráter missionário permanente e universal” da Igreja (Proposição, 7).

Consiste, portanto, em “testemunhar o Evangelho no mundo secularizado em que vivemos” (Proposição, 8), a partir do “primeiro anúncio proeminente e explícito da salvação” (Proposição, 9), que é “obrigação de todo cristão e, ao mesmo tempo, direito inalienável de cada pessoa de conhecer Jesus Cristo e o Evangelho” (Proposição, 10), o que está inseparavelmente ligado com “a familiaridade com a Escritura, a Palavra de Deus” (Proposição, 11).

Paralelamente, na sua Mensagem ao mundo, os Padres sinodais partem do encontro pessoal com Jesus, vivido pela samaritana (Mensagem, 1), para o qual convidam “todos os homens e mulheres do nosso tempo” (Mensagem, 2), pois esse encontro é a experiência fundamental da vida cristã em Igreja (Mensagem, 3), a ser alimentada pela leitura frequente das Escrituras (Mensagem, 4).

Somos assim levados a nos converter, a nos deixar evangelizar (Mensagem, 5), consolidando nossa adesão a Deus, por Jesus Cristo e nos tornando capazes de transmiti-la em todas as circunstâncias e ocasiões de nossa vida (Mensagem, 6).

Fundamentos e prática da Nova Evangelização

Tanto a Mensagem quanto as Proposições se estendem em seguida a uma série de considerações de ordem prática e pastoral a serem levadas em conta na aplicação concreta do projeto neoevangelizador. O trabalho de sistematização é deixado ao Santo Padre, que deverá retomar os elementos propostos pela assembleia na esperada Exortação Apostólica.

Alguns eixos fundamentais, porém, podem ser confirmados desde já, a partir de toda a literatura sobre a NE, a começar pelo que tem escrito e falado Bento XVI, em particular na proclamação do Ano da Fé; no ciclo de catequeses sobre a fé, que inaugurou este ano; na sua quarta encíclica sobre a fé, anunciada para a Páscoa de 2013 e nas muitas ocasiões que têm suscitado o aprofundamento da reflexão sobre o tema.

Não há dúvida de que na base da NE está o encontro pessoal com Cristo, como experiência fundamental, a marcar todo o quadro de nossa vida cotidiana. Somos todos chamados a viver sempre e em todas as circunstâncias, como amigos de Jesus e a fazer dessa amizade pessoal o clima de nossa existência.

Não sendo o cristianismo nem apenas uma filosofia de vida, nem, muito menos, uma pura moral, mas uma amizade pessoal com Jesus e com cada uma das Pessoas da Trindade, a fé é, antes de tudo, o laço pessoal de adesão a Deus e à sua Palavra, no Espírito.

O ato de crer, em virtude de ser dom pessoal de Deus e ato de liberdade, tem prioridade sobre o conteúdo da fé, constituído pelas expressões referentes à vivência da relação pessoal que as sustenta.

Nos termos do Catecismo (nº 150), “a fé é antes de tudo adesão pessoal a Deus e, inseparavelmente, mas em segundo lugar, livre acolhimento da totalidade da verdade revelada por Deus”.

Ao promulgar o Ano da Fé, Bento XVI nos convida “a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o ato pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus” (Porta fidei, 10).

É preciso, portanto, distingui-los, mas para uni-los. “Existe, de fato, uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite adentrar esta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca faz-se a profissão de fé» (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus, ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma” (Ib.)

O fundamento da NE é, então, o ato de crer, que é dom de Deus, despertado pelo encontro pessoal com Jesus, que os discípulos são chamados a preparar – como Felipe e André encaminharam os gregos de que fala João, que queriam ver Jesus (12, 22). A função do primeiro anúncio é de facilitar esse encontro, por isso, a sua importância central na NE.

Na verdade, o “primeiro anúncio” não se limita ao querigma inicial, que deixaria de ser ativo quando começa a catequese. Toda a formação cristã deve ser constantemente animada pelo despertar do ato de crer, sem o qual o conteúdo da fé não se sustenta, devido à unidade profunda que existe na fé entre o ato de crer e o conteúdo das verdades reveladas.

A NE não é, portanto, uma tarefa específica, nem um momento determinado da transmissão da fé, mas a alma que mantém viva a catequese, o espírito em que a Palavra é efetivamente acolhida, o clima em que a Palavra de Deus deve ser sempre, na Igreja, proclamada e ensinada.

O plano pastoral de Bento XVI, a que denominamos “Nova Evangelização”, em continuidade com o Vaticano II, sempre retomado pela Igreja nesses últimos cinquenta anos, é o que o Espírito diz à Igreja, para que permaneça sua esposa fiel, num mundo que tende a se esquecer de Deus.

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