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Redação da Aleteia

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As peregrinações estão voltando?

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As peregrinações parecem estar vivendo um ressurgimento na atualidade. As pessoas estão descobrindo o valor de peregrinar?

A peregrinação – viagem a um lugar santo – foi sempre uma parte importante do cristianismo, ainda que sua prática tenha se tornado menos popular após a Reforma. Recentes mudanças, no entanto, devolveram aos fiéis a prática tradicional de buscar Deus por meio de peregrinações a destinos como Terra Santa ou Roma, bem como aos santuários marianos locais, nacionais e internacionais mais populares.

A prática da peregrinação – viagem a um lugar santo, em que a pessoa busca encontrar-se com Deus – tem uma longa e contínua tradição na Igreja e remonta às origens do cristianismo.

George Weigel, no livro “Cartas a um jovem católico”, afirma que “o catolicismo é algo muito tangível: tem relação com ver, ouvir, tocar, saborear e cheirar, assim como tem a ver com textos, argumentos e ideias”. Não surpreende, portanto, que a prática de seguir os passos da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, visitando os túmulos dos mártires e os santuários dos santos, começasse com os primeiros cristãos.

Catholic Encyclopedia define o ato de peregrinar como “uma noção instintiva do coração humano”, que surge espontaneamente em todas as culturas e religiões, incluindo o cristianismo. “A história da sua aparição na terra em forma humana, quando Ele habitou entre nós, seria atesourada pelos seus seguidores, e cada cidade e lugar mencionado se tornaram motivo de agradecimento para eles.”

O principal destino, para os peregrinos cristãos, sempre foi a Terra Santa, lugar em que Cristo viveu e levou a cabo seu ministério, mas a perseguição dos cristãos dos primeiros séculos tornou essa viagem difícil e perigosa. Depois que Constantino o Grande legalizou o cristianismo, no século IV, sua mãe, Santa Helena (+ 330), fez uma famosa peregrinação à Terra Santa e construiu igrejas nos lugares da Natividade, sepultamento e Ascensão. Esta série de acontecimentos teve uma grande influência nas grandes peregrinações à região.

Depois da Terra Santa, o lugar mais comum de peregrinação durante a Idade Média foi Roma, o centro da Igreja Católica e lar dos papas. Os primeiros peregrinos chegavam a Roma para visitar os túmulos de Pedro e Paulo – ou ad limina Apostolorum (no lugar dos Apóstolos). A preeminência de Roma como lugar de peregrinação aumentou ainda mais em 1300, com o primeiro de muitos anos jubilares. Além disso, Santa Helena levou relíquias da verdadeira cruz, da Terra Santa a Roma, tornando esta última uma atraente alternativa a Jerusalém.

A mais emblemática das peregrinações medievais, contudo, foi a rota que levava ao túmulo de São Tiago, no finis terrae (limite da terra). O destino era Santiago de Compostela, na Galícia (noroeste da Espanha), onde o apóstolo pregou o Evangelho antes do seu martírio em Jerusalém (Atos 12, 1-2). Acredita-se, contudo, que, depois da sua morte, seu corpo foi levado de volta à Espanha e enterrado (alguns dizem que seu corpo foi transportado por anjos; outros, que os apóstolos o levaram).

Paolo Caucci von Saucken, fundador da Confraternidade de Santiago de Compostela (Confraternita San Jacopo di Compostella), observa, no documentário “The Way of St. James” (2011, Ignatius) que os restos mortais do apóstolo foram descobertos no século IX por um eremita que viu “estrelas caindo do céu em flashes de luz”. O nome “Compostela” se refere a esse “campo de estrelas” (do latim "campus stellae") ou à Via Láctea, que era usada pelos peregrinos medievais como ponto de referência para guiá-los rumo ao Oeste, ao túmulo de São Tiago.

Além dos importantes elementos religiosos das peregrinações para o medievo, aCatholic Encyclopedia recorda que a prática teve um importante papel social e político para unir a cristandade. Os peregrinos abriram caminhos, criaram mapas e diários que recordavam suas rotas, deram vida às cidades por onde passavam e inclusive entregavam correspondências, promovendo a comunicação internacional.

Após um período de decadência das peregrinações, depois da Reforma, a Igreja assistiu a um ressurgimento dessa prática – em grande parte, a santuários marianos – desde o século XIX.

O ato de peregrinar diminuiu na era moderna por várias razões, incluindo “a mudança do ambiente cultural, as vicissitudes originadas pelo movimento protestante e a influência o Iluminismo” (Diretório de Piedade Popular e Liturgia).
 
A viagem “espiritual” ou “interior” substituiu as viagens físicas a terras distantes, seguindo os passos de Cristo ou visitando os túmulos dos Apóstolos, santos e mártires. Por exemplo, a devoção da Via Sacra, especialmente durante a Quaresma, surgiu como uma peregrinação espiritual em miniatura aos lugares que a pessoa visitaria na Terra Santa.

Desde o final do século XIX, contudo, a Igreja assistiu a um ressurgimento da prática tradicional da peregrinação. Um exemplo disso é o renovado interesse pela peregrinação a Santiago de Compostela, que foi declarado, em 1993, Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. A Confraternidade de Santiago (Reino Unido) afirma que os peregrinos que cumpriam os antigos requisitos para receber a “compostela” passaram, de 2.491, em 1986, a 272.135, em 2010.

As peregrinações à Terra Santa também estão em voga, de acordo com os números publicados pela AsiaNews em 2010. Segundo a crônica, cerca de 1,6 milhão de peregrinos visitou a região durante a primeira metade de 2010.

Mas as metas cristãs tradicionais de peregrinação não são os únicos destinos para o peregrino moderno. Segundo um estudo de 2011 da Alliance for Religions and Conservation, os lugares mais visitados são os santuários marianos: Nossa Senhora de Guadalupe, no México (20 milhões), Nossa Senhora de Lourdes, na França (8 milhões), Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil (6,6 milhões) e Nossa Senhora de Fátima, em Portugal (4,5 milhões).

Outro destino popular é San Giovanni Rotondo, no sul da Itália, onde repousam os restos de São Pio de Pietrelcina. Em 1999, o Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes informou que o santuário recebe quase 7 milhões de visitas por ano.
 
As peregrinações tendem a experimentar um importante aumento de popularidade durante as épocas de grandes mudanças ou incertezas, pois as pessoas procuram formas novas e diferentes de encontrar respostas.

O Pe. Atuire explicou à Aleteia que ele interpreta este novo fenômeno da seguinte maneira: “Se considerarmos a Idade Média e as peregrinações medievais, observaremos que as pessoas peregrinavam mais quando a sociedade atravessava períodos de incerteza”.

O grande surgimento das peregrinações a Roma, explicou, aconteceu durante o pontificado de Bonifácio VIII, e foi sobretudo porque era uma época de passagem do período medieval ao Renascimento.

“Se você observar a história, verá que, quando caminhamos rumo a uma mudança de época, as pessoas começam a buscar pontos de referência mais espirituais para encontrar uma nova dimensão, que lhes permita interpretar o que está acontecendo. Acho que isso é o que acontece neste momento.”

“Trata-se de uma busca mais profunda e as pessoas percebem que muitas coisas não estão no seu lugar na forma de vida que levamos na sociedade. Pensemos somente na crise econômica: um aumento da riqueza não significa necessariamente um incremento da felicidade. Então as pessoas começam a buscar.”

“Uma maneira de buscar é fazer uma peregrinação, e isso é o que estamos vivendo hoje.”
 
A viagem física do peregrino reflete a dinâmica interior de uma viagem espiritual rumo a Deus, bem como sua condição terrena de peregrino em caminho rumo às moradas celestiais.
 
A palavra “peregrino” deriva do latim peregrinus, que significa “estrangeiro” ou “estranho”. O Catecismo da Igreja Católica afirma que as peregrinações evocam a nossa viagem terrena rumo ao céu (cf. 2691).

O Pe. Atuire explicou à Aleteia que existem dois tipos de peregrinos: os que têm fé e buscam aprofundar nela, e os que não têm fé e buscam respostas.

Com relação aos primeiros, afirmou que estes “peregrinam para viver uma experiência mais profunda, confirmar sua vivência de fé, e para aprofundar no verdadeiro significado da fé”. Seus destinos incluem lugares como a Terra Santa, santuários marianos ou lugares onde ocorreram milagres, pois tais lugares “permitem que as pessoas tenham uma experiência de fé mais profunda”.

Com relação ao segundo grupo, “são pessoas que buscam respostas a situações que surgem ou simplesmente têm um sentido geral de busca. Vão a esse tipo de peregrinação convencidas de que nesses lugares ou durante a viagem, de alguma maneira, se abrirá um horizonte novo e haverá algum tipo de aprofundamento da situação particular pela qual estão passando”.

Segundo o documento do Vaticano sobre as peregrinações, escrito para o ano 2000, cada peregrinação segue certa “dinâmica”, que é “um paradigma de toda a vida de fé”. O primeiro passo é uma partida, que “revela a decisão dos peregrinos de ir até um destino e alcançar os objetivos espirituais da sua vocação batismal”.

O segundo passo é a própria viagem, o caminho, que “os leva à solidariedade com seus irmãos e irmãs e à necessária preparação para o encontro com o Senhor”.

Depois disso acontece a visita ao santuário, que convida o peregrino a “ouvir a Palavra de Deus e à celebração sacramental”. O último passo é a volta, que “lhes recorda a sua missão no mundo, como testemunhas da salvação e construtores da paz”.

“É importante que estes passos da peregrinação, vividos em grupo ou individualmente, estejam marcados por atos de culto, que revelariam sua autêntica dimensão, com o uso de textos recomendados nos livros litúrgicos com este propósito”, afirma o documento.

Falando no III congresso a Ásia sobre Peregrinações e Santuários, Dom Agostino Marchetto, ex-secretário do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, descreveu a peregrinação como uma “viagem” na qual “existe um desejo de mudança, que pode levar gradualmente a tomar as próprias decisões na vida a partir de uma perspectiva de fé”.

“Neste itinerário religioso – prosseguiu –, é necessário sair de si mesmo e da rotina dos próprios hábitos, para caminhar rumo ao horizonte indicado pelo Senhor.”

“Nesta vida, muitas vezes caracterizada por profundas inquietudes, quando a esperança parece vacilar e dar espaço à angústia e ao desespero, as peregrinações e os santuários podem ter um papel importante em inspirar sentimentos de esperança e espera confiantes – disse o arcebispo. Assim, a pessoa aprende a paciência, isto é, o poder de permanecer firme, apesar das adversidades que possa experimentar, e esperar, inclusive durante um longo tempo.”
 
Um bom momento para peregrinar é a Quaresma, na qual se acompanha Jesus rumo à sua Paixão, Morte e Ressurreição. Mas as peregrinações podem ser feitas durante o ano todo, a uma ampla variedade de santuários.
 
A Quaresma é descrita muitas vezes como uma “viagem espiritual” ou uma “peregrinação interior”, na qual o fiel empreende um processo de conversão e renovação. Durante este período de preparação para a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, a Igreja sugere várias práticas, como o jejum, a oração e a esmola. No entanto, a Igreja incentiva também uma peregrinação física para acompanhar a espiritual (CIC, 1438).

O Pe. Atuire disse à Aleteia que a Igreja “sempre incentivou as pessoas a peregrinarem durante o período de Quaresma. É como reviver o que o povo de Israel passou quando deixou o Egito e se dirigiu à Terra Prometida, guiado por Deus”.

“A Quaresma também é um tempo de purificação e penitência – acrescentou. O conceito de peregrinação, especialmente na época medieval, estava, de fato, relacionado à penitência. A dificuldade de caminhar centenas de quilômetros para ir a Santiago de Compostela, Jerusalém ou Roma era realmente um tempo de purificação e, dado que a Quaresma é uma época de peregrinação e purificação, levar a cabo uma peregrinação durante esse período era realmente ideal.”

Os destinos de peregrinação mais populares sempre foram a Terra Santa e Roma, mas estas peregrinações podem ser custosas e acabam sendo únicas na vida.

No entanto, existem muitos lugares considerados destinos de peregrinação. A Enciclopédia Católica reúne uma lista dos 200 lugares mais populares do mundo inteiro para este propósito.

Para os que não podem viajar fisicamente, São Gregório de Nissa oferece o princípio fundamental para uma avaliação correta da peregrinação. Apesar de ter visitado devotamente a Terra Santa, afirma que “o verdadeiro caminho que deve ser empreendido é aquele que leva o fiel da realidade física à espiritual, da vida no corpo à vida no Senhor, e não a viagem da Capadócia à Palestina”.

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