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Atualidade

A ciência pode provar a existência de Deus?

Aleteia Vaticano - publicado em 08/02/13

Se Deus realmente existe, a ciência seria capaz de provar isso?

Não. A pergunta sobre a existência de Deus é, por sua própria natureza, impossível de ser respondida pela ciência.

Em muitos idiomas atuais, o significado comum do termo “ciência” é muito mais limitado que no passado.

A palavra latina “scientia” foi utilizada para traduzir a palavra do grego antigo “episteme” – que, por sua vez, era entendida como “conhecimento”. Certamente, “scientia” é a raiz da palavra “ciência” em muitos idiomas atuais e, nos idiomas em que não é raiz, sua palavra correspondente é utilizada para traduzir “scientia”. Durante séculos, foi habitual chamar de “ciência” qualquer disciplina que buscasse o conhecimento. Para Tomás de Aquino, no século XIII, por exemplo, a palavra “scientia” se aplicava à teologia e às áreas que pertenciam ao âmbito da filosofia, como a metafísica.

Foi provavelmente no século XIX que a palavra “ciência” começou a adquirir um significado mais amplo, utilizado até hoje. Atualmente, tendemos a considerar somente as ciências naturais (biologia, química, física etc.) quando utilizamos este termo, e às vezes estamos também dispostos a considerar como ciências disciplinas como a psicologia e a sociologia. A teologia e a filosofia não são consideradas ciências na nossa época. Neste caso, a questão é como relacionar a pergunta sobre a existência de Deus com as ciências naturais e, portanto (ainda que não estejamos totalmente de acordo), seguindo o costume atual, utilizaremos o termo “ciência” para nos referirmos exclusivamente a elas.

A ciência, na medida em que tem como objeto de estudo as realidades do universo material, é incapaz de interrogar-se sobre um Deus imaterial.

Deus, como é concebido pelas três tradições teístas – cristianismo, judaísmo e islamismo – e por filósofos como Aristóteles, é imaterial. Esta forma de entender Deus é a que tipicamente está em jogo nos debates entre crentes e ateus.

A ciência, como se aceita universalmente hoje, preocupa-se estritamente pelas realidades materiais observáveis, tenhamos ou não os instrumentos necessários para perceber tais realidades com nossos sentidos. Isso é verdade para a biologia (que estuda os organismos vivos), a química (que estuda os elementos materiais e suas composições), a física (que estuda as estruturas mais básicas da matéria) e as demais ciências. Inclusive o Oxford English Dictionary define a ciência (em seu sentido atual estrito) como “ramo do conhecimento relacionado aos fenômenos do universo material e suas leis”.

Mas dado que a ciência indaga o universo material, está claro que este não é o campo ou o conjunto de campos adequado para interrogar sobre a existência de um Deus imaterial. Em outras palavras, a ciência não poderia estar buscando uma solução definitiva para semelhante pergunta. Esta afirmação não deveria ser uma surpresa. Pensando em um exemplo parecido: não deveríamos usar a biologia para resolver uma equação matemática. Os próprios biólogos talvez sejam capazes de resolver equações matemáticas, mas não o fariam utilizando os recursos proporcionados pela biologia, e sim os recursos matemáticos. Igualmente, um cientista poderia chegar a determinar a existência de um Deus imaterial, mas não a partir dos pressupostos da ciência. Voltaremos a este ponto mais adiante.

O eminente filósofo da ciência N. R. Hanson argumentou certa vez que a existência de Deus poderia ser estabelecida como fato se uma figura semelhante a Zeus aparecesse de repente no céu, para que todos o vissem e anunciassem a sua existência. Hanson afirma que, “se semelhante acontecimento ocorresse, eu certamente estaria convencido de que Deus existe. Este tema se resolveria de uma vez por todas”. Mas esse Deus não seria a divindade imaterial sobre a qual se centra um debate sério sobre a existência de Deus. Este não seria o Deus no qual acreditam cristãos, judeus e muçulmanos.

Alguns cristãos poderiam objetar que, com a Encarnação, o Deus imaterial se tornou material. Estritamente falando, isso não é verdade. Jesus é Deus não na medida em que é material, mas na medida em que é imaterial. A materialidade é própria da natureza humana de Jesus. Devemos recordar que, ainda que a Pessoa do Filho de Deus una as duas naturezas – divina e humana – e que ambas se encontrem “sem divisão” nele, também estão “sem confundir-se”, segundo a fórmula do Concílio de Calcedônia (451).

Talvez grande parte das incompreensões sobre a questão da competência da ciência seria evitada se se reconhecesse que o conhecimento que a ciência é capaz de proporcionar não é o mesmo conhecimento ao qual a mente humana é capaz de chegar, ou seja, o conhecimento do qual o homem é capaz. Cada disciplina tem um objeto de estudo próprio para pesquisar e desenvolve métodos apropriados para isso. Cada disciplina, portanto, limita-se a si mesma: não ao que o homem é capaz de saber, mas a um tema concreto, que é um dentre os muitos que o homem pode conhecer. A economia estuda a produção, distribuição e consumo da riqueza; mas a mente humana pode conhecer mais do que entra neste campo de estudo. Podemos saber como prever com êxito eclipses solares, por exemplo – apesar de isso ir muito além do que a economia investiga. Sem uma educação adequada, uma pessoa razoável poderia confundir a economia com o conjunto do que o homem pode chegar a saber.

No entanto, frequentemente acreditamos que a mente humana pode penetrar muito além do que estudam as disciplinas que constituem a ciência moderna. Mas esta crença é simplesmente falsa. Não há nada na ciência, praticada adequadamente, que nos leve a esta conclusão. Pensar o contrário é cientificismo, não verdadeira ciência. Ter consciência dos limites da ciência – ou de qualquer outro campo – não significa menosprezá-la, mas simplesmente saber o que é característico da ciência e o que não é.

A pergunta sobre a existência de Deus só pode ser feita de maneira adequada pela filosofia e pela fé.

A filosofia, como amor à sabedoria, procura compreender a totalidade da realidade por meio do mais fundamental. De todas as disciplinas idealizadas pela mente humana, é na filosofia que o homem chega mais longe. Apesar de todas as suas falhas, poderíamos dizer que o filósofo alemão contemporâneo Martin Heidegger é exemplar, neste sentido. Qualquer pessoa que tiver lido Heidegger não pode deixar de se surpreender diante do seu incessante esforço por chegar ao que é mais importante, inclusive se não estivermos de acordo com o que ele afirma descobrir.

Com relação à discussão atual, seria preciso observar que a filosofia não determina de antemão se o que é mais fundamental é material ou imaterial. Portanto, existe uma abertura que vai muito além do que é propriamente estudado pela ciência. Dado que o Deus do teísmo tradicional é compreendido como imaterial e a realidade mais fundamental de todas, parece que a filosofia é especialmente adequada para decidir na questão sobre a sua existência. Se outra disciplina afirmasse ser também adequada para tratar desta questão, precisaria demonstrar que, como a filosofia, está principalmente envolvida na compreensão do conjunto da realidade por meio do mais fundamental – seja o que for – e que, em princípio, está aberta a encontrar isso muito além do universo material. Portanto, outras disciplinas, inclusive as científicas, podem proporcionar evidências sobre a existência de Deus. Mas é à filosofia que compete considerar o significado último desta evidência.

A fé, em seu sentido teológico, é um caso especial. O que entendemos por fé em seu sentido teológico é uma crença na existência de Deus e em outras verdades sobre Ele, incluindo seu amor por nós, que se tornou possível por meio de uma autorrevelação de Deus à humanidade. É possível uma autorrevelação semelhante? Ela ocorreu realmente? O que é concebível não pode ser contra o princípio de não contradição, na medida em que este constitui a lei primordial do ser, da própria realidade.

À primeira vista, não há nada inconcebível com relação a uma divindade que se revela ao homem. Se esta revelação ocorreu de fato é algo que só pode ser determinado levando em consideração as evidências a favor disso, oferecidas pelas diversas religiões. A teologia católica, contudo, devido a que sustenta razoavelmente que o ato de fé requer a graça sobrenatural e o livre consentimento, ensina que a evidência da revelação pode, quando muito, mostrar-nos que a revelação é provável. Esta evidência não pode, em absoluto, obrigar nossa aceitação da revelação.

Voltando ao que podemos saber sobre o Deus do teísmo tradicional mediante a razão, por meio da filosofia, é preciso observar que muitos filósofos que pensam que este conhecimento é possível também reconhecem a dificuldade de chegar a ele com um alto grau de certeza. Um conhecimento geral e imperfeito de Deus é acessível a todos aqueles cuja razão funciona corretamente. Mas um conhecimento mais firmemente estabelecido é fortemente exigido. Como disse Tomás de Aquino em uma famosa frase, a verdade sobre Deus da qual a razão é capaz constitui a conquista de poucos, só pode ser obtida depois de muito tempo e com a mistura de muitos erros. São Tomás diz que, nesta situação, a revelação pode ajudar o homem a conhecer aquelas verdades sobre Deus que ele naturalmente é capaz de alcançar.

A Igreja ensina que é possível saber que Deus existe.

Muitos filósofos sustentaram que é possível saber que Deus existe e ofereceram argumentos para provar isso. A Igreja também ensina que é possível que a razão humana chegue a saber que Deus existe. Uma das afirmações mais conhecidas deste ensinamento está em Dei Filius, a constituição dogmática da fé católica promulgada pelo Concílio Vaticano I (1869-1870). A Igreja atesta e ensina, segundo declararam os padres conciliares, que “Deus, princípio e fim e todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas: sempre, desde a criação do mundo, sua natureza invisível foi claramente perceptível nas coisas criadas”. A última frase é uma referência às palavras de São Paulo aos Romanos (1, 20), texto que, para a tradição católica, é um clássico da doutrina da possibilidade do conhecimento natural de Deus.

A verdade sobre o possível conhecimento natural de Deus foi novamente proposto, entre outros, por Pio XII, em sua encíclica Humani Generis (1950), na qual, de acordo com o Vaticano II, ensina que é errôneo duvidar de que a razão humana, sem a ajuda da revelação e graça divinas, possa demonstrar a existência de um Deus pessoal com argumentos deduzidos das coisas criadas (cf. n. 18ss). Podemos encontrar este ensinamento, igualmente, no Vaticano II (1962-1965), em sua constituição dogmática Dei Verbum (6) e no primeiro capítulo do Catecismo da Igreja Católica (1992).

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