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Por que Deus é só Pai e não também Mãe?

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Mirko Testa - publicado em 08/02/13

Se, na Bíblia, a figura de Deus está repleta de características tanto masculinas como femininas, por que não podemos nos dirigir a Ele como “Mãe”?

Não podemos transformar o “Pai nosso” em “Mãe nossa”

Jesus ensinou a orar a Deus como “Pai nosso” e, por isso, a Igreja, por tradição, sempre utilizou o apelativo “Pai”. A Bíblia também usa a imagem da mãe, mas somente para realçar a solicitude amorosa de Deus.

A Igreja sempre se refere a Deus utilizando o título de “Pai”, assim como Jesus ensinou.

A concepção de Deus como Pai já estava delineada no Antigo Testamento. Mas foi Jesus quem confirmou e evidenciou tal concepção, manifestando-se como “Filho” e oferecendo-se como o único caminho para chegar ao Pai. Mais ainda: Jesus se dirigiu de maneira afetuosa a Deus, utilizando a palavra aramaica “Abbà”, que poderia ser traduzida como “papai” ou “papaizinho”. Também foi Jesus quem confiou aos seus discípulos a oração do Pai Nosso, que nos chegou tanto por meio do Evangelho de Lucas (11, 2-4) como do de Mateus (6, 9-13), ainda que a tradição litúrgica da Igreja sempre tenha usado a versão deste último.

No Catecismo da Igreja Católica (n. 239), lemos que, "ao designar Deus com o nome de 'Pai', a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os seus filhos".

No entanto, também é verdade que a Bíblia muitas vezes representa Deus com imagens femininas, como um símbolo de seu amor espontâneo, instintivo e absoluto.

O cardeal Gianfranco Ravasi, em uma entrevista concedida ao jornal Avvenire em dezembro de 2005, afirmou que “pelo menos 60 adjetivos de Deus na Bíblia estão no feminino” e que “existe claramente uma maternidade de Deus; em mais de 260 ocasiões, fala-se das 'entranhas maternas' do Senhor”.

Encontramos dois exemplos no livro de Isaías: “Acaso uma mulher esquece o seu neném, ou o amor ao filho de suas entranhas? Mesmo que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei!” (49, 15); e também: “Qual mãe que acaricia os filhos assim vou dar-vos meu carinho” (66, 13).

Joseph Ratzinger, no livro-entrevista com Peter Seewald, intitulado “Deus e o mundo: ser cristão no novo milênio”, explicou que, no termo hebraico rahamin, “que originalmente significa 'seio materno', mas que depois se torna o termo que explica a compaixão de Deus pelo homem, pela misericórdia de Deus”, revela-se o mistério do amor materno de Deus.

“O ventre materno – continuou Ratzinger – é a expressão mais concreta da íntima relação entre duas existências e das atenções dadas à criatura fraca e dependente que, em corpo e alma, é totalmente protegida no ventre da mãe. A linguagem figurada do corpo nos oferece, assim, uma compreensão dos sentimentos de Deus pelo homem, mas profunda do que permitiria qualquer linguagem conceitual.”

Isso não deve, porém, diminuir o "rosto paterno” de Deus, embora deva ser lembrado que a palavra "Pai" é uma metáfora para expressar o tipo de amor divino.

Bento XVI, em seu primeiro livro sobre “Jesus de Nazaré” (2007), escreve que, “apesar das grandes metáforas do amor materno, 'mãe' não é um título de Deus, não é uma forma com a qual dirigir-se a Deus”. O Papa esclarece, em seguida, de fato, que “Deus só é Pai” e que “continua sendo normativa para nós a linguagem da oração de toda a Bíblia”, na qual a imagem do pai era e é adequada para expressar a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do seu ato criador”.

No livro “Questões de fé” (2010), Ravasi comenta que, “portanto, é legítimo falar de uma dimensão 'materna' de Deus, mas recordando que se trata sempre de um antropomorfismo, de um símbolo, como o paterno, para expressar o inefável mistério divino e para representar a realidade do Desconhecido. A Bíblia, sendo a palavra de Deus encarnada, privilegia o rosto paterno de Deus também pelos condicionamentos culturais do horizonte no qual se manifestou. É lícito, por isso, redimensionar certas leituras exageradamente literais da 'masculinidade' de Deus, sem negar, no entanto, os valores que esta expressa”.

A propósito disso, Ratzinger, em sua obra “Deus e o mundo”, explicou que, enquanto “as religiões difundidas na região de Israel conheciam casais de divindades, uma divindade masculina e uma divindade feminina, (…) o monoteísmo, ao contrário, excluiu os casais de divindades e assimilou como esposa do Senhor a humanidade escolhida, ou melhor, o povo de Israel. Na história da escolha, realiza-se o mistério do amor que Deus nutre pelo seu povo, semelhante ao de um homem por sua esposa. A partir desse ponto de vista, a imagem feminina é, de alguma maneira, projetada sobre Israel e sobre a Igreja e, finalmente, personalizada em particular em Maria. Em segundo lugar, onde se recorre a metáforas maternas do divino, estas transformam o conceito da criação até que a ideia de criação seja substituída pela de emanação, de parto, e dela brotam modelos quase necessariamente panteístas. Ao contrário, o Deus representado na imagem paterna cria, por meio da Palavra, e precisamente daqui surge a diferença específica entre criação e criatura”.

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