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Religião

Os Evangelhos são historicamente fidedignos?

©Sean SPRAGUE/CIRIC

Aleteia Vaticano - publicado em 21/02/13

Três dias após sua morte, Jesus ressuscitou: todos os escritos cristãos dão testemunho disso. Mas eu posso acreditar nisso? Posso acreditar no que está escrito nos Evangelhos?

Sim, e isso é muito importante!

As religiões normalmente se baseiam em mitos imemoriais ou nas palavras de um homem inspirado: pouco importam as circunstâncias nas quais estas palavras foram pronunciadas.

Muitas doutrinas religiosas e ritos se perdem na noite dos tempos. E isso é assim com religiões “tradicionais” e mitologias, como as mitologias egípcia, babilônica e grega, enfrentadas pelos israelitas constantemente.

Nas religiões ou sabedorias orientais, bem como no Islã, homens inspirados deram mensagens sobre o divino, sobre o mundo, sobre a humanidade. Estes “profetas” falaram em um determinado momento da história, mas estas circunstâncias não têm importância com relação à verdade do seu discurso. Saber se determinado trecho do Alcorão foi escrito em Medina ou na Meca tem uma importância totalmente secundária para um muçulmano.

Para judeus e cristãos, a fé se baseia em fatos: Deus se manifestou por meio de atos e, em Jesus Cristo, fez-se pessoalmente presente na história.

O texto mais sagrado para Israel, o Decálogo (“Os 10 mandamentos”) começa com estas palavras: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou do país do Egito, da casa da servidão”. Deus se revela ao seu povo ao longo de uma história, com suas fases felizes e suas fases de desgraça.

Trata as relações entre Deus e o seu povo como as de uma família, com seus dias bons e ruins, com longos períodos e crises. Israel vive na esperança: um dia, o Messias virá e instaurará definitivamente o direito e a justiça.

Para os cristãos, Deus veio pessoalmente à nossa história. Jesus, nascido sob Herodes o Grande e crucificado sob Pôncio Pilatos, não veio somente para pronunciar as palavras definitivas sobre Deus. Ele é o próprio Deus que “rasga os céus”, como disse o profeta Isaías. Ele reuniu o céu e a terra em sua pessoa. Ele triunfou sobre o mal, aceitando sofrer por amor. Sua vitória começa a manifestar-se pela sua ressurreição.

Conclusão: para a pessoa que se pergunta sobre o cristianismo, não se trata de saber se os Evangelhos são um mito bonito, mas de saber se existem razões para acreditar que isso aconteceu mesmo.

A Sagrada Escritura descreve esta história e dá sentido a ela.

Os cristãos, ao contrário dos judeus, não são uma religião do Livro. Como muitas outras religiões, veneramos nossas Escrituras e acreditamos que são inspiradas por Deus. Mas estão em segundo lugar em relação às iniciativas divinas.

A história sagrada começa quando Deus chama aquele a quem dará o nome de Abraão: não havia escrivão para redigir o processo verbal da entrevista, nem jornalista para publicar uma reportagem. Mas a memória foi conservada. E transmitida de geração em geração. Um dia, consideraram oportuno registrar tudo isso em um texto, uma escritura.

O Espírito de Deus está presente neste processo de transmissão, de escritura e, por conseguinte, de releitura, já que os acontecimentos do passado falam sempre de maneira nova em uma história que não terminou. Assim, os profetas, na época do Exílio na Babilônia (século VI antes de Cristo) recordarão o Êxodo, a libertação do Egito, seis séculos antes.

A Sagrada Escritura não é somente uma relação de fatos. Dá o sentido deles. É uma meditação, uma oração, uma aplicação em termos de comportamentos coletivos, de moral. Mas a base são os fatos.

No Novo Testamento acontece a mesma coisa. Os Evangelhos ocupam o primeiro lugar porque dão testemunho dos acontecimentos vividos por Jesus e pelos seus discípulos. Pelas suas palavras, Jesus oferece o sentido destes acontecimentos e os demais escritos do Novo Testamento (Atos dos Apóstolos, cartas, Apocalipse) iluminarão tudo aquilo de que são portadores. Mas a base é o que o “Senhor Jesus viveu no meio de nós, a começar pelo batismo de João até o dia em que foi elevado do meio de nós” (Atos 1, 21-22).

O material histórico dos Evangelhos é sólido. Testemunha disso é um conhecimento, sem dúvida o melhor, da Terra Santa no século I e dos seus costumes.

Há mais de dois mil anos, os quatro livros chamados de “Evangelhos” são estudados, mais do que qualquer outo texto da literatura mundial. Nenhum dos personagens da Antiguidade se beneficia de quatro testemunhas diferentes. Quatro versões, que a Igreja sempre conservou, diferentes uma da outra. Três dos Evangelhos se parecem mais, porém com características próprias de cada um. O quarto Evangelho, de São João, contrasta com os outros três, mas é incompreensível sem eles. É complementar a eles. É preciso encontrar uma resposta à pergunta: de ondem vêm estes testemunhos, escritos sem dúvida por judeus, mas tão chocantes para os judeus? Não pode ser uma espécie de farsa literária, uma pura ficção montada por algumas almas acaloradas, em mal de escândalo.

Em torno deles, existem comunidades, com seus responsáveis, que não deixarão de dizer o que quer que fosse. Existem pessoas que rejeitam a fé e que gostariam de desmascarar uma possível fraude.

Durante séculos, a tendência que se autodenominava “científica” questionava cada vez mais a historicidade dos Evangelhos. Alguns chegavam a negar a existência de Jesus e este refrão se repetia às vezes nos debates. Não se poderia dizer nada de Jesus antes da Páscoa. Tudo teria sido reinventado depois da Páscoa.

À pergunta “de onde vêm os Evangelhos?”, responde-se com um enigma, um absurdo: os judeus, pretendendo permanecer fiéis à religião dos seus pais, teriam inventado uma fábula que, nos pontos essenciais, mostra-se contraditória com a fé judaica ortodoxa. Ao contrário, estes farsantes ou sonhadores, fazendo apologia do seu Mestre, Jesus, como Filho de Deus, não teriam hesitado em mostrá-lo recebendo o batismo de penitência administrado por João, ignorando a data do último dia e ansioso na hora da sua morte.

Finalmente, a solução mais racional é concluir que originalmente há muitos fatos que os Evangelhos mostraram. No momento em que ocorreram, eles não entenderam muita coisa. Mas tais fatos permaneceram gravados em sua memória e, à luz da Páscoa, encontraram o seu esclarecimento.

Por outro lado, o marco cultural, religioso e social no qual se inscrevem os Evangelhos é cada vez mais coerente com o que vamos conhecendo do judaísmo e da Terra Santa sobre o que aconteceu no ano 1 da era cristã.

Com relação aos principais lugares do Evangelho, são mais conhecidos que há um século: Nazaré, Belém, Cafarnaum, Jerusalém e, sobretudo, o Santo Sepulcro.

Entre os acontecimentos e a última redação dos Evangelhos, é possível reconstruir as etapas intermediárias. As literaturas judaica e pagã não são totalmente silenciosas.

A maioria dos especialistas concorda em datar a Paixão de Cristo no ano 33; Jesus teria provavelmente cerca de 40 anos: os judeus no Evangelho, dizem que “tinha menos de 50 anos”. Para o ano do nascimento de Jesus, não são os Evangelhos que estão equivocados, mas os astrônomos, quando estabeleceram o nosso calendário atual. Os primeiros escritos cristãos, a primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses, data de menos de vinte anos mais tarde: não é uma duração que permite criar uma lenda, e na Antiguidade ainda menos que hoje.

Durante este tempo, o Evangelho é proclamado: Jesus é Cristo e ressuscitou. À medida que o Evangelho é anunciado no mundo judaico, as referências são contínuas. Dirigindo-se aos pagãos, é preciso explicar o que aconteceu durante o ministério de Jesus, o que Ele disse, o que fez, por que e como morreu, como apareceu após a sua ressurreição.

Como foi referido pelo Antigo Testamento, chega um momento em que parece oportuno registrar as tradições orais por escrito. Como no Antigo Testamento, o trabalho de colocar tudo por escrito não é feito rapidamente. Entre os especialistas, não há consenso atualmente sobre a maneira como as diversas tradições que desembocaram nos quatro Evangelhos repercutiram umas nas outras. Para a nossa pergunta, este é um bom sinal: está claro que não existe um modelo dominante que os outros três teriam recopilado mais ou menos fielmente. A relativa independência das testemunhas é, na verdade, uma garantia de autenticidade.

Também há reticências entre os especialistas sobre a data final de redação de cada um dos Evangelhos: a tendência atual é aproximá-los dos próprios acontecimentos. Mas o importante é o processo contínuo de pregação que partiu de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, até a redação final. Os apóstolos tinham consciência, não de explicar uma bela história inspiradora, mas de testemunhar os fatos dos quais haviam sido testemunhas e dos quais seriam testemunhas até o martírio.

Para questionar a historicidade dos Evangelhos, argumenta-se frequentemente o silêncio das fontes profanas. Constatamos, em primeiro lugar, que nenhum documento, nem judaico nem pagão, colocou em dúvida a existência de Jesus. Por outro lado, o silêncio é relativo.

Após a queda de Jerusalém e a ruptura entre judeus e cristãos, o judaísmo oficial preferiu cobrir com um véu o caso de Jesus, que havia sido condenado graças à cumplicidade entre os dignatários judeus e o poder romano. No entanto, as pistas, mais ou menos polêmicas, permaneceram. Com relação aos romanos, não tinham motivo algum para interessar-se por Jesus, um marginal insignificante em seu imenso império. Mas, por volta do ano 50, em Roma, surgiu a questão dos cristãos que veneravam um tal “Chrestos”. Quem ativou o movimento? Não poderia ser Paulo, que havia começado a pregar apenas alguns anos antes, no Oriente, e que nunca havia ido a Roma até então.

A fidedignidade histórica dos Evangelhos nunca será suficiente para ter fé em Jesus Cristo.

Os quatro Evangelhos apresentam um caso que merece destaque na literatura mundial. Em função das escolas, as dimensões do seu “núcleo” histórico são mais ou menos grandes. Mas é ridículo negar a existência deste núcleo. No entanto, a fé continua sendo um ato livre, ao qual nenhuma dedução pode conduzir necessariamente.

Vejamos dois exemplos. Que Jesus tenha tido pretensões divinas é mais razoável de admitir que de excluir. Mas tais pretensões eram legítimas? O historiador mais católico, como historiador, não responderá no seu lugar. Três dias após sua morte, Jesus ressuscitou: todos os escritos cristãos dão testemunho disso. Mas eu posso acreditar nisso? Creio realmente? É uma questão de consciência. A resposta pode me levar muito mais longe do que eu esperava.

Autor:

Dom Jacques Perrier, bispo emérito de Tarbes e Lourdes (França).

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