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Conclave: a pressão recai sobre os cardeais

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Na própria Igreja, nos governos, na mídia… todos têm algo a dizer para os cardeais

A cátedra de Pedro está vazia. Joseph Ratzinger deixou-a com uma ruptura e entrega o governo da Igreja para um sucessor desconhecido por ele e pelos cardeais a caminho de elegê-lo.

 

Não se recorda, no século passado, um conclave tão mergulhado no escuro e vulnerável a pressões internas e externas.

 

Mas hoje é o "quarto poder", a mídia, que não está dando trégua aos cardeais convocados para o conclave.

 

Um deles já caiu, o escocês Keith Michael Patrick O'Brien. Em um de seus últimos atos como Papa, Bento XVI expediu sua renúncia como arcebispo de Edimburgo, e ele próprio anunciou que não vai a Roma para a eleição do novo pontífice.

 

Outro é o arcebispo emérito de Los Angeles, cardeal Roger Mahony, censurado pelo seu sucessor, o cardeal José Horacio Gómez.

 

Um terceiro é o arcebispo emérito de Bruxelas, cardeal Godfried Danneels.

 

Para todos os três, as acusações apontam "sujeiras" contra as quais o Papa Ratzinger lutou sua árdua batalha.

 

Mahony e Danneels têm resistido à expulsão, mas dentro do Colégio de Cardeais sua autoridade ficou praticamente nula.

 

No entanto, apenas alguns anos atrás, os três estavam na crista da onda. Entre os nove votos que o cardeal Carlo Maria Martini – o emblemático candidato da corrente de cardeais que se opuseram à eleição de Ratzinger – recebeu no primeiro escrutínio do conclave de 2005, três foram precisamente de O'Brien, Mahony e Danneels.

 

Hoje quase nada dessa corrente permanece dentro do Colégio de Cardeais.

 

Além das pressões externas, as pressões de dentro da Igreja também estão atuando no pré-conclave.

 

O relatório secreto que os cardeais Julián Herranz, Jozef Tomko e Salvatore De Giorgi entregaram a Bento XVI, e somente a ele; e ele, por sua vez, colocará à disposição exclusiva de seu sucessor, um relatório do qual nenhuma linha vazou, mas é conhecido por pintar um retrato preocupante do mau funcionamento da Cúria Romana, está pesando sobre o conclave como uma bomba relógio.

 

A escolha do novo papa será influenciada por isso, porque o eleito será chamado a realizar em um curto espaço de tempo a reforma de "governança" que Bento XVI deixou incompleta, sob a pena de mergulhar a Igreja em uma desordem institucional e obscurecer sua missão última e verdadeira: reavivar a fé cristã onde tem estado enfraquecida e levá-la aonde  ainda não chegou.

 

Durante os conclaves anteriores, os cardeais também sentiram pressões semelhantes.

 

Nos dois de 1978, aquele que elegeu como papa primeiro Albino Luciani e depois Karol Wojtyla, os cardeais receberam um dossiê elaborado por um grupo de investigação estratégica de Bolonha – formado por Giuseppe Dossetti, Giuseppe Alberigo e Melloni Alberto – incluindo um capítulo detalhado sobre o que o recém-eleito deveria fazer nos primeiros cem dias: abolir as nunciaturas, eleger os bispos nas suas respectivas regiões eclesiásticas, conferir poderes deliberativos ao Sínodo dos Bispos, instituir na cúpula da Igreja um órgão colegiado "que, sob a presidência pessoal e efetiva do papa, faria semanalmente relatórios sobre os problemas que a Igreja enfrenta como um todo, tomando as decisões necessárias".

 

O dossiê ainda pedia ao novo papa que se "libertasse do medo da revolução sexual" e inovasse de forma decisiva nesse campo da moral cristã, mas João Paulo II não fez nada disso.

 

Em 2005, o grupo de Bolonha voltou à cena, vendo a possibilidade de eleição do cardeal Martini. O dossiê for reimpresso em livro, mas também Bento XVI, o eleito, ignorou-o completamente.

 

Os cardeais eleitores vão pedir muito menos de seu sucessor em matéria de governança. Será suficiente se nos primeiros cem dias ele começar uma drástica reforma na Cúria. Desta vez, será difícil para o novo papa deixar isso de lado.

 

(Originalmente publicado por Chiesa em 1 de março de 2013)

 
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