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Dostoiévski: o profeta da outra vida

Jorge Luis Zarazúa - publicado em 02/05/13

Na época de Marx e Nietzsche, o gênio russo anunciou a vitória de Deus na alma humana

O Pe. Henri De Lubac nos apresenta, em "O drama do humanismo ateu", uma radiografia do ateísmo, dos humanismos que suscitou e o drama que constitui para o espírito humano, com a intenção de nos acompanhar em uma conscientização sobre a situação espiritual do mundo em que vivemos.


Ao longo da obra, ele nos apresenta as características do ateísmo contemporâneo, particularmente do humanismo positivista (Comte), do humanismo marxista e do humanismo nietzschiano, as três formas mais difundidas e influentes do humanismo ao longo dos séculos XIX e XX, mas com repercussões palpáveis em nosso século XXI.


De Lubac afirma que o ateísmo contemporâneo é, na verdade, um antiteísmo, um profundo anticristianismo, cujo fundamento comum é a negação de Deus e cujo benefício principal seria o aniquilamento da pessoa humana.


Na terceira parte desta obra, De Lubac nos apresenta uma figura excepcional: Dostoiévski, considerado como um gênio inquieto, um psicólogo que lança luz sobre a nossa natureza e faz uma sondagem intensa das regiões mais profundas do coração humano; ele também é visto como um profeta que anuncia o triunfo de Deus no coração humano e antecipa novas formas de pensamento e vida interior.


De fato, esta terceira parte se titula "Dostoiévski profeta". Afirma De Lubac: "Marx ainda não havia morrido e Nietzsche ainda não havia escrito o mais brilhante dos seus livros, quando outro homem, gênio inquieto também, porém mais profeta, anunciava, com fulgores estranhos, a vitória de Deus na alma humana, sua eterna ressurreição".


Dostoiévski é um romancista, mas descobre que o homem não pode organizar a terra sem Deus; quando tenta, não faz outra coisa a não ser organizá-la contra o homem, como se viu especialmente ao longo do século XX, mas que ele antecipou de maneira surpreendente.

A comparação com Nietzsche


A comparação com Nietzsche parece obrigatória; Lou Salomé o descreveu não somente como o profeta da morte de Deus, o inimigo de Deus, mas também como o profeta da humanidade sem próximo. Ambos são atores privilegiados deste drama que acontece na consciência humana, a favor ou contra Deus.


De Lubac nos conta que Nietzsche conheceu a obra de Dostoiévski em 1887 e o impacto tão profundo que representou para ele este encontro, pela afinidade e a alegria que experimentou ao lê-lo pela primeira vez; no entanto, o entusiasmo original foi esfriando com o tempo e se transformou em repulsão violenta.


De Lubac os descreve como "humanos inimigos". São irmãos porque Dostoiévski entrou primeiro no universo solitário no qual Nietzsche se introduzirá mais tarde.


Dostoiévski pressentiu a mais terrível das crises, que Nietzsche se encarrega não somente de anunciar, mas da qual é o grande artífice: a "morte de Deus". Dostoiévski antecipa e prevê o ateísmo e o super homem nietzschiano. No entanto, Dostoiévski supera a tentação à qual Nietzsche sucumbe. Convém lembrar que Dostoiévski mergulha na grandeza do universo nietzschiano, antecipa-o, experimenta sua vertigem, mas descobre seu veneno e não se deixa deslumbrar pelos seus fulgores.


Dostoiévski e Nietzsche fizeram uma análise impiedosa da nossa época. Criticaram o racionalismo e o humanismo ocidental; denunciaram a ideia de progresso, tão querida ao homem ocidental; experimentaram um mal-estar muito parecido diante do reino científico e seus sonhos idílicos; menosprezaram igualmente a civilização superficial no nosso tempo e revelaram seu verniz, tornando-o evidente, prevendo sua iminente catástrofe.


Ambos experimentaram a angústia de Deus, mas a resolveram de forma muito diferente. Nietzsche apostou no ateísmo. Dostoiévski experimentou a força do ateísmo, especialmente pelo problema da existência de Deus e o problema do mal, para os quais considera que não há resposta no campo da razão; mas resistiu à sua vertigem.


Diante do problema do mal, Dostoiévski acredita firmemente que Cristo não veio explicar o sofrimento nem resolver o problema do mal: Jesus carregou o mal nos ombros para nos livrar dele.


Dostoiévski vê com clareza que a pergunta do ateu é: "Do que o homem é capaz? Do que um homem é capaz?". Pois bem, Nietzsche pensa que o homem teria podido ser outra coisa, teria podido ser mais, mas permanece nesta etapa tão indigna; por isso, Nietzsche anuncia o super homem, o homem que se torna deus, completamente livre do espectro divino.


Dostoiévski, pelo contrário, empreende um caminho em cujo final está Deus feito homem, o mistério da Encarnação. Nesta rota, Dostoiévski experimentou o abatimento do sofrimento universal, o fascínio do mal e a vertigem do ateísmo. Chegou a considerar este último como o antepenúltimo degrau que leva à fé, à qual, no entanto, nem todos chegam. De fato, chega a expressar que foi por meio da dúvida que ele chegou à fé, ao louvor do Deus vivo, o que ele chama do seu "Hossanna", assim, com maiúscula.


Pela atitude que adotam frente a Jesus, as diferenças entre ambos são muito marcadas. O Deus que triunfa na alma de Dostoiévski é o Deus de Jesus. O Deus negado por Nietzsche é também o mesmo Deus. Ambos se sentiram atraídos fortemente pela figura de Jesus, mas suas reações foram opostas: um, a favor de Cristo; outro, contra Ele.


De Lubac nos apresenta a opinião de André Gide, que descobre em Nietzsche o sentimento de inveja, querendo competir com o Evangelho. De fato, uma das suas maiores obras, "Assim falava Zaratustra", é uma réplica dos evangelhos, inclusive uma paródia. Há em Nietzsche uma rivalidade com Jesus, querendo apresentar-se como uma antítese formal de Jesus.


Dostoiévski, deportado na Sibéria, volta a encontrar Cristo. Lê, relê, medita sobre o Evangelho e se empapa dele, não só na Escritura, mas também nas obras dos Padres da Igreja. Dostoiévski é alguém que experimenta a força do pecado, que conhece a agonia da dúvida, mas, neste combate, prefere ficar com Cristo. Para ele, não há nada mais belo, mais profundo, mais sintomático, mais lógico, mais corajoso nem mais perfeito que Cristo. Assim, em um mundo no qual o mal se torna cada vez mais forte, Dostoiévski acede a uma quarta dimensão: o reino do Espírito, no qual é possível ver a luz de Cristo.


Dostoiévski descobre, com muita lucidez, o que acontece se rejeitamos Cristo: "O que colocaremos no seu lugar? Nós mesmos?". Para ele, é extremamente importante a divindade de Jesus, consciente de que, se o considerarmos só como homem, ele não será o Salvador e a fonte da vida.

O colapso do ateísmo e a experiência da eternidade


Dostoievski descreve em suas obras, de maneira muito plástica, os diversos tipos de ateísmo, que vão do mais vulgar até o ateísmo místico, mas De Lubac se centra em três tipos de ateísmo: a) o ideal espiritual do indivíduo que se eleva acima de toda lei (o ideal do "homem-deus"); b) o ideal social do revolucionário que quer garantir, sem Deus, a felicidade de todos os homens (o ideal da "Torre de Babel"); e c) o ideal racional do filósofo que rejeita todo mistério (o ideal do "palácio de cristal").

O ateísmo falha em suas diversas formas, desagrega o ser e gera servidão, termina no suicídio coletivo e individual. No entanto, o sentimento religioso sobrevive, invencível diante de qualquer dialética.


Dostoiévski tenta abrir o mistério das coisas divinas, que não existem para o ateu. Aos que não enxergam nada além de palavras na afirmação da fé, Dostoiévski falará em nome da experiência. À experiência da terra, oporá a experiência da eternidade.


Dirá – como puder – o que viu do ponto de vista da morte, isto é, do ponto de vista da eternidade, lido à luz da sua fé em Cristo e da meditação do Evangelho. Assim, ele nos comunica a esperança de ver-nos um dia livres destes limites.


Não nos esqueçamos de que Dostoiévski é o profeta da outra vida, o profeta da eternidade, que acredita na imortalidade e espera a ressurreição.


"Ressuscitaremos, voltaremos a nos ver, voltaremos a contar alegremente tudo o que aconteceu."

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