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Religião violenta e assassina?

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Marcelo López Cambronero - publicado em 20/05/13

É preciso aceitar que a vida de cada um é intrinsecamente religiosa para poder progredir na construção de uma verdadeira democracia

Existem pessoas convencidas de que a religião, seja ela qual for, é intrinsecamente violenta. Então, a única forma de gerenciar uma sociedade multicultural seria sufocar e subjugar as pertenças religiosas, impondo um suposto Estado neutro com relação à noção de vida boa.

Mas não é possível chegar a uma convivência pacífica entre concepções diferentes do bem, do homem e de Deus? Como gerenciar uma sociedade pacífica, multicultural e plurirreligiosa?

A resposta: sem ter medo do diálogo, da liberdade e da democracia. Uma verdadeira democracia. E o principal inimigo dessa democracia é a ideologia, em todas as suas formas, especialmente aquela que manda, ou seja, o capitalismo e seu instrumento mais poderoso: o Estado liberal.

O Estado deve estar separado da Igreja? Sim, efetivamente. O problema é que, na realidade, a chamada "secularização do poder do Estado" se tornou uma clericalização dele, das suas elites e das suas estruturas.

Os Estados modernos são simulações enganosas do Corpo de Cristo; são eles mesmos religiões falsas, ideológicas, que impõem um discurso que tenta abranger cada vez mais aspectos da vida pessoal e comunitária, cada vez mais detalhes dentro de uma concepção global da existência. O que estou dizendo é que são cada  vez mais totalitários.

Não precisamos de nenhuma religião falsa para nos governar, nem tampouco nenhuma verdadeira que deseje se impor às consciências por meio do seu poder; e certamente não precisamos de nenhum árbitro, juiz e verdugo para nos dizer o que devemos pensar a partir de nenhum tipo de monopólio educativo nem religioso. Quando falamos de "monopólio educativo", estamos nos referindo à educação laicista como sistema único. Quando falamos de "monopólio religioso", falamos do laicismo.

Isso só é possível se refletirmos novamente, com toda clareza, sobre o real conceito de democracia.

Uma sociedade democrática não está formada por indivíduos isolados. Ainda que cada indivíduo tenha de assumir seu destino em primeira pessoa e se torne o principal interlocutor de determinados processos (por exemplo, as eleições), a sociedade está formada por comunidades que têm concepções do bem, do homem, da vida etc., diferentes e às vezes em conflito.

Meu colega Guillermo Peris, uma dessas pessoas que sempre caminham deixando pegadas, me disse, certa vez, que um homem religioso e um ateu não se diferenciam unicamente em sua concepção de Deus, e sim – e mais ainda na medida em que forem mais conscientes do que pensam – em sua concepção de quase tudo.

Na comunidade se gera a razão, nela se educa na virtude e no bem, e ela é a origem da vida do povo. É a partir dela, a partir da decisão livre dos seus membros, que se deve construir uma democracia que, se há de ser representativa, somente o será se os representantes forem verdadeiramente eleitos pelos cidadãos e se os representarem, e não à elite clerical dos partidos.

Além disso, é preciso compreender que a democracia não nasce para eliminar o conflito, já que este é inerente à vida humana, mas para que possa ser resolvido de maneira pacífica.

Dando este ponto como inegociável (a não violência), cada comunidade precisa estabelecer as regras do jogo (Constituições), em absoluto abstratas, ou seja, que representem a identidade do povo e que, ao mesmo tempo, permitam e promovam o desenvolvimento de outras concepções do bem, sempre que não forem diretamente incompatíveis com os critérios fundamentais das normas de convivência.

A Constituição obedece a um sujeito político concreto, histórico, e não a uma abstração política ideal e, finalmente, falaciosa.


Neste sentido, a democracia requer a abertura de um horizonte de discussão amplo, arriscado, vivo. Porém, tal discussão só será genuína se cada uma das partes considerar que a verdade existe e que o ser humano, finito, não pode abrangê-la, esgotá-la, com suas próprias forças.

O outro é uma possibilidade de verdade, já que a realidade tem como uma das suas propriedades (insisto: que corresponde à realidade e não à nossa subjetividade) o vir a nós em multidão de perspectivas, umas melhores que outras, umas que nos esclarecem mais, que nos mostram mais – ou menos –, mas que todas elas nos oferecem um encontro com a realidade se formos capazes de abrir-nos e não permanecer escondidos atrás das nossas ideologias, nossos critérios particulares, limitados e finitos.

Precisamente um dos efeitos imediatos de uma verdadeira religiosidade é tal abertura sincera do horizonte da vida e da verdade, assim como o despertar de uma sincera capacidade de admiração e questionamento.

Enquanto não aceitarmos que a vida, a de cada um, é intrinsecamente religiosa, com toda a densidade que isso comporta, não poderemos progredir na construção de uma verdadeira democracia.

Como dizia Montesquieu, "o crente e o ateu falam de uma mesma e única coisa: um daquilo que ama e o outro daquilo que teme".

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