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Casamento gay: resistência francesa explicada aos colegas estrangeiros

Philippe Oswald - publicado em 22/05/13

Carta aberta aos editores da Aleteia sobre as "Manifestações para todos" e o movimento dos "Veilleurs" na França

Caros Inma, Alexandre, Mirko, Harold e Tony (1):


Vocês estão acompanhando, há alguns meses – especialmente na edição francesa da Aleteia –, as peripécias da lei chamada "Casamento para todos", que infelizmente acabou de ser promulgada pelo presidente da República na França.


Vejo que estão surpresos pela dimensão das manifestações nacionais e regionais que acompanharam os debates, mantendo-se quase diariamente nos diversos lugares da França, com as "Manifs pour tous" (manifestações para todos) e os movimentos dos "Veilleurs", e culminarão no próximo domingo, 26 de maio, com uma nova "Manifestação para todos" nacional em Paris.


Apesar das tentativas pouco gloriosas do ministro francês do Interior de minimizar estas manifestações, publicando números totalmente diferentes do que se vê nas fotos e vídeos, trata-se das manifestações nas ruas mais importantes da França, que já permitiram salvar a liberdade escolar contra um governo socialista, em 1984, por exemplo.


Naquele então, o outro presidente François (Mitterrand) considerou que um protesto dessa magnitude tornava impossível a promulgação de uma lei que deveria matar a escola livre.


O atual presidente François (Hollande), que bate todos os recordes de impopularidade de um chefe de Estado sob a Vª República, não tem esta sabedoria. Ao contrário, ele se apressou em promulgar a lei que abre o casamento às pessoas do mesmo sexo no dia seguinte da sua aprovação pelo Conselho constitucional.


Então, vocês podem me perguntar: como a sorte já está lançada e o casamento homossexual, erroneamente chamado de "casamento para todos", foi adotado sem recurso, para que continuar o combate? Que saída pode encontrar o movimento de protesto, quando a imensa maioria dos manifestantes e seus porta-vozes querem permanecer no marco da legalidade e da não-violência?


Para dizer a verdade, ninguém pode predizer o futuro! O que é certo, no entanto, é que assistimos, na França, a uma insurreição de consciências sem precedentes!


Esta é uma rejeição massiva, profunda, motivada, não negociável, de uma lei injusta e totalitária, que pretende abolir a diferença sexual no casamento e implica em que uma criança possa ter como "pais" dois homens ou duas mulheres e, se for adotada, pode estar privada do direito de ter uma referência paterna e materna. Nenhuma lei tem o poder de negar a diferença de sexos, a alteridade homem/mulher e a complementariedade pai/mãe. Nenhuma pode privar uma criança do direito de ter um pai e uma mãe.


É também um "não" categórico à PMA (procriação medicamente assistida) e à GPA (gestação por outro – barriga de aluguel), que serão consequências fatais da adoção da lei, em nome da igualdade, abrindo o caminho a todo tipo de manipulações comerciais do corpo humano.


É ainda a rejeição da ideologia subjacente de "gênero" (já no programa das nossas escolas), que pretende impor a crença de que as identidades sexuais feminina e masculina são construções sociais, necessariamente de outra época, e não questões naturais e imutáveis pertencentes aos fundamentos do direito natural.


É, finalmente, a rejeição a uma lei que, longe de constituir uma melhoria para as pessoas homossexuais, será geradora de homofobia, ao fazer que passem como responsáveis pelo "direito ao filho", que cria órfãos e de pai ou de mãe.


Em resumo, como diz a mesma senhora Taubira, ministra da Justiça cujo nome está vinculado a esta nova lei – e permanecerá para sempre vinculado a ela – é a "mudança de civilização" que ela pretende instaurar e que numerosos franceses, de todas as idades, crenças e condições rejeitam absolutamente. Nenhuma maioria parlamentar pode atribuir-se o direito de mudar a civilização!


Infelizmente, esta rejeição argumentada, longa e pacientemente explicada, encontrou-se com o muro do desprezo e da arrogância de um governo e de uma maioria parlamentar seguros de encarnar o "progresso" e de estar "no sentido da História". Nós conhecemos, há muito tempo, este tipo de postura na França, por parte de um poder que sonha com ser digno herdeiro dos "grandes ancestrais" da Revolução Francesa. Sabemos a que tirania pode conduzir: também aprendemos a combatê-la.


Eis aqui mais de dois séculos da sociedade francesa secreta dos "anticorpos" para resistir aos vírus mortais que tentaram incutir-lhe as ideologias assim que chegam ao poder. Antes, havia, por exemplo, os "jacobinos", que não eram senão uma minoria de cidadãos, os mais extremistas e menos escrupulosos. Hoje, existe o lobby gay, ultraminoritário e longe de representar o conjunto das pessoas homossexuais, mas muito presente nas instâncias do poder político e midiático.


Estes "anticorpos" saudáveis, novamente emitidos pela sociedade francesa, provêm sobretudo das famílias, células básicas da sociedade, apoiados por "corpos intermediários", como a União Nacional de Associações Familiares, a Academia de Medicina e inclusive a Academia das Ciências Morais e Políticas, que expressaram, cada uma em seu âmbito de competência, sua oposição à Lei Taubira. As religiões desempenham também uma função fundamental nesta reflexão crítica, sobretudo a Igreja Católica, "especialista em humanidade", que ilumina as consciências, deixando aos cristãos a escolha da ação política a tomar, sempre e quando não afetar os princípios do agir cristão.


A novidade, para a Igreja na França, é que muitos bispos ousaram expressar-se em praça pública (vários deles inclusive participando das manifestações) e que reencontraram uma escuta e um eco sem precedentes nos jovens católicos das "gerações João Paulo II, Bento XVI e Papa Francisco". A eficácia das mensagens de todos estes cristãos, apoiados pelas redes sociais (outro novo fenômeno), é uma das questões que mais surpreenderam o governo…


O parecer destes especialistas – teólogos, filósofos, juristas, psicólogos, sociólogos – apoia e reforça a impressão profunda de uma proporção crescente da população francesa para que a sucessão das gerações se baseie no reconhecimento da natureza humana. Não se trata de inventar ou reinventar, como se o ser humano fosse "a medida de tudo", mas de receber a cultura como um dom para proteger e fazer germinar, respeitando a natureza, da qual é como uma flor.


Esta é, muito além da luta contra o casamento gay, uma verdadeira conscientização da importância crucial da ecologia humana para a nossa sociedade.


Este novo ataque solapado e enganoso contra a natureza humana, perpetrado, além disso, pelas autoridades públicas, terá criado um verdadeiro impulso na opinião. Tudo acontece como se tivessem descoberto a importância da alteridade sexual, do casamento, da filiação e da família, berço do amor e da vida, da educação e da solidariedade, e fonte de todas as riquezas humanas e econômicas da sociedade.


Certamente, os que se opõem à Lei Taubira mantêm a esperança de que a mobilização do domingo, 26 de maio, seja de tal magnitude, que esta lei, votada e promulgada, finalmente seja retirada ou não se aplique.


Mas inclusive se esta esperança for defraudada, o movimento em marcha não se deterá: o protesto contra esta lei imoral, a defesa das crianças, o apoio aos prefeitos que serão condenados como objetores de consciência, o protesto contra a doutrinação dos alunos na teoria de "gênero" continuarão e se organização em toda a França, já que continuarão surgindo outras leis "libertárias" (e, portanto, liberticidas) sobre a família, a bioética etc.


Por outro lado, é provável que este movimento de oposição construtiva se internacionalize; o flagelo que os franceses enfrentam hoje prolifera em outros países do mundo, na Europa e em outros lugares.


Vocês, queridos colegas, transmitam nossa mensagem nos seus idiomas: para defender e promover a civilização e a ecologia humana, homens e mulheres de todos os países, unamo-nos!


Fraternalmente,

Philippe 


— —

(1) Responsáveis pelas edições da Aleteia em língua espanhola, portuguesa, italiana, inglesa e árabe, respectivamente.

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