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Adorando o Estado: como o liberalismo se tornou a nossa religião

George J. Marlin - publicado em 04/06/13

Benjamin Wiker explica a história do secularismo, mostrando a influência das ideias de Maquiavel, Hobbes, Spinoza e Rousseau

O principal objetivo dos secularistas nos tempos modernos tem sido o de "livrar" todos nós da influência (do peso, segundo dizem) do cristianismo. A maneira como eles começaram a destruir essa influência sobre o curso dos assuntos humanos é habilmente descrita no novo livro do Dr. Benjamin Wiker, "Worshipping the State: how liberalism became our state religion" ("Adorando o Estado: como o liberalismo tornou-se nossa religião estatal").


Wiker, que lecionou na Universidade Franciscana e na Faculdade Tomás de Aquino, afirma que a raison d'être dos filósofos seculares tem sido reduzir o cristianismo na cultura ocidental e subordinar a Igreja ao Estado, ou estabelecer uma religião civil rival, que tornaria a Igreja irrelevante – ou impotente.


Segundo conta Wiker, foi Maquiavel (1469-1527) quem "inventou a absoluta separação entre Igreja e Estado, que é a marca do liberalismo". Sua esperança era de negar à Igreja qualquer poder moral e subordiná-la ao soberano secular.


Maquiavel insistiu em que, para um príncipe sobreviver, ele deve "aprender a ser capaz de não ser bom"; por isso, deve estar livre das restrições morais que a Igreja impõe, mesmo a um chefe de Estado.


Maquiavel indica, no entanto, que o príncipe cruel deve aparentar ser piedoso e, se necessário, usar a Igreja para controlar as massas ignorantes. Vinte e três anos após a sua morte, as noções de Maquiavel sobre a relação entre Estado e Igreja foram utilizadas na Paz de Augsburgo (1555). Os monarcas europeus concordaram em um compromisso conhecido cuius regio, eius religio, "cujo reino, sua religião".


O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), autor de "Leviatã", construiu suas ideias a partir da filosofia política de Maquiavel, para minar a influência "sediciosa" da religião. Para Wiker, Hobbes "chegou à conclusão de que o problema político era a existência de qualquer noção de religião independente do poder político. O próprio cristianismo teve de ser reformado de forma maquiavélica para que apoiasse o Estado, ao invés de desafiá-lo continuamente".


Hobbes, o primeiro proponente do Estado totalitário, rejeitou a doutrina da Igreja sobre o pecado, insistindo: "Não houve pecado, e não há certo e errado, enquanto o soberano não declarar que é assim". Os direitos naturais não vêm de Deus, mas do Estado. Se for haver Igreja, esta será controlada pelo Estado.


Wiker afirma persuasivamente que os liberais modernos adotaram a noção de Hobbes sobre o relativismo moral, e sobre uma fundação materialista inteiramente secular para a política. A diferença? Em vez de o rei soberano determinar o que é certo ou errado, o indivíduo soberano poderia definir seus próprios valores.


O seguinte filósofo a defender o Estado secular foi Spinoza (1632-1677). Os líderes da fé judaica excomungaram Spinoza, principalmente porque ele era um panteísta, que "fez um deus deste mundo e, portanto, prejudicou completamente toda a compreensão judaico-cristã da realidade que brota do Criador".


Na visão de Spinoza, o Estado secular é "a maior manifestação do divino". Uma Igreja patrocinada pelo Estado estaria disponível apenas para promover a agenda do Estado para os "plebeus", o mudo povo comum.


Tal Igreja seria livre de dogmas e sua crença central seria reduzida a "amar o próximo" – em outras palavras, ser agradável. O conceito de amor de Spinoza, escreve Wiker, "significava que cada um deveria cuidar das suas coisas e não incomodar os outros, apenas tratando-os bem – em uma palavra, tolerância. Spinoza consagrou a tolerância doutrinária como a virtude suprema na igreja liberal secular".


Enquanto Maquiavel, Hobbes e Spinoza incentivaram o soberano a usar a Igreja para alcançar os objetivos seculares, foi Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) quem achava "que o cristianismo é totalmente incompatível com a nova ordem secular, e deve ser substituído por uma religião inteiramente nova, completamente definida pelo projeto político secular".


Para Rousseau, não existe um "Corpo de Cristo", mas apenas um "corpo político". Ele incentivava uma religião civil pagã, que exigiria a completa devoção de seus cidadãos.


A base da sua religião igualitária radical é a tolerância. A sexualidade é liberada das restrições da Igreja, o casamento não é sancionado por Deus, mas é definido pelo Estado em um contrato civil. De acordo com Rousseau, "os que se atrevem a dizer que não há salvação fora da Igreja deveriam ser expulsos do Estado, a menos que o Estado seja a Igreja, e o príncipe seja o pontífice".


Wiker conclui que esses quatro filósofos lançaram as bases para a revolução secular liberal nos Estados Unidos. Sua influência conjunta reduziu a moralidade ao hedonismo. Direitos foram redefinidos como desejos. O mal seria o resultado de um ambiente ruim, não de escolhas erradas.


O autor do livro justamente afirma que "o liberalismo secular tem crenças morais definitivas, bem diferentes da moralidade cristã, que os liberais estão tentando impor pela força governamental: contracepção, aborto, infanticídio, libertinagem sexual, divórcio, redefinição contínua de casamento, a eutanásia, e assim por diante".


A tentativa do governo Obama de obrigar a Igreja a fornecer cobertura de seguro para a contracepção e o aborto é apenas o mais recente exemplo do Estado tentando impor seus pontos de vista em nome da "tolerância".


Wiker prova que, de fato, ideias têm consequências. No Estado secular, a liberdade não significa escolher o que é certo ou justo; ela agora significa realizar o que nos faz sentir-nos bem. O ato de escolha é tudo que importa. A escolha em si mesma se torna o valor final. Sem verdades absolutas para medir as ações, a vontade se torna obstinada. O que seria uma ação irracional segundo o ensinamento judaico-cristão já foi elevado à categoria de princípio necessário.

(Artigo originalmente publicado em "The Catholic Thing" e reproduzido com autorização)

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