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Turquia: "O protesto é pacífico. Não são leigos contra islâmicos"

MARCO LONGARI

Simone Sereni - publicado em 10/06/13

Entenda melhor as manifestações de Istambul, nesta entrevista com o Pe. Claudio Monge, superior dos dominicanos na Turquia

"Acabei de dar uma volta na praça Taksim. Estava cheia: pessoas pacíficas, em pequenos grupos, falando e cantando, apesar das prisões, dos feridos e dos mortos destes dias", contou o Pe. Claudio Monge, teólogo italiano e superior da comunidade dominicana de Istambul, que observa os protestosemIstambul (Turquia) desde o seu início.


Os fatos: os tratores do governo estavam a ponto de derrubar 600 árvores do pulmão verde no centro da capital turca, o parque Geki, para construir mais um shopping; cerca de 100 manifestantes ocuparam a praça pacificamente; a polícia interveio com violência, mangueiras e bombas de gás lacrimogêneo, matando e queimando as barracas. Mas só conseguiu acender uma reação em cadeia que envolveu todo o país em poucos dias.

Padre, o senhor está acompanhando a cobertura da mídia na Turquia e também no exterior?


Aqui na Turquia, a mídia estatal continua ocultando o que está ocorrendo. O foco da mídia agora é a viagem do presidente Erdogan a Marrocos, Tunísia e Argélia. Por outro lado, participei de uma transmissão ao vivo de uma rádio italiana e me vi dentro de um alvoroço repleto de simplificações, sobretudo sobre a relação entre a Turquia e a União Europeia, e do que é a democracia.

Qual poderia ser a chave de leitura para o que está acontecendo?


Não podemos simplificar o que é complexo. Por exemplo, eu não falaria de "primavera" no caso da Turquia. Os elementos comuns com os países árabes são poucos. A Turquia, bem ou mal, vem de 90 anos de democracia e há uma cultura política difundida; e o presidente a quem se critica foi eleito em eleições democráticas. Eu li que alguns falam de um novo '68, mas eu vejo algo mais do que um simples slogan do tipo "proibido proibir".

Quando o senhor vai às ruas e cruza a praça Taksim, quem está nas manifestações?


Há um movimento transversal: não é feito apenas de adolescentes e jovens. Eu vi pessoas da minha idade, entre 50 e 55 anos, marchando com os jovens. Vi classes sociais bem diferentes; há um forte sentimento de nação. Isso me parece uma das expressões de democracia mais maduras de todo o Mediterrâneo.


É preciso levar em consideração que, durante os primeiros enfrentamentos, as lojas da praça Taksim não fecharam as portas, mas levaram os feridos para dentro delas, ajudaram os manifestantes machucados ou atordoados pelo gás lacrimogêneo.

Alguns consideram que o movimento é a reação leiga a um constante processo de islamização e moralização dos costumes por parte do governo.


Conheço muçulmanos que estão há dias no parque Gezi. Há muçulmanos que não se reconhecem nesta suposta "islamização" de Erdogan. Também aqui, "complexidade" é a palavra-chave.


Acho que poucos no Ocidente sabem que, em 1º de maio, precisamente na praça Taksim, havia um movimento chamado "Islâmicos contra o capitalismo", no qual muçulmanos crentes e praticantes se apropriaram os slogans mais clássicos da esquerda guevarista. Havia cartazes como "Alá, pão e justiça".


É a afirmação de certo Alcorão social que se opõe a uma espécie de "calvinismo islâmico", o de Erdogan, segundo o qual, se você ganha dinheiro, é porque Deus o abençoa. Em nome do próprio Islã, dizem coisas opostas. A pseudo-islamização é discriminatória entre os próprios muçulmanos, pois só reconhece a parte sunita.

O que provocou a repressão da pequena manifestação do parque Gezi?


Duas visões da sociedade turca que se enfrentam. O parque Gezi, de 200 metros quadrados, não é o Central Park! Mas é um lugar no qual as pessoas se encontram para ler e discutir: é o parque do encontro. Mas querem construir um shopping lá. Estão desnaturalizando Istambul.


É verdade que Istambul é uma metrópole de 17 milhões de habitantes, mas está composta por bairros que são pequenos povoados, nos quais as pessoas se falam, tomam chá na rua: a relação é fundamental para este povo.

E os cristãos, como estão em toda esta situação?


Como cristãos, continuamos sendo, social e politicamente, irrelevantes, e ficamos observando esta situação. Somos cerca de 200 mil, dentre 78 milhões de habitantes, e estamos divididos entre nós. Só entre os católicos, há 4 ritos diferentes.


Porém, somos uma realidade, apesar disso, em evolução, devido sobretudo à imigração, que está mudando a pele do cristianismo turco. Chegam muitos africanos subsaarianos, a novidade dos últimos 10 anos; há uma migração de filipinos há duas décadas; e pessoas do Leste Europeu também.


Antes dos fatos dos últimos dias, estavam discutindo uma reforma constitucional, que seria a primeira obtida democraticamente na Turquia. Nosso futuro por ela!

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