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Como o Papa Francisco influenciará a liturgia da Igreja Católica?

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Com seu exemplo e suas palavras, o Papa Francisco pode ajudar a assimilar a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II

Jaume González Padrós, diretor do Instituto Superior de Liturgia de Barcelona, conversou com a Aleteia sobre a importância da liturgia e a grande influência que o Papa Francisco pode ter no incentivo da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Confira:
 
Explicando breve e simplesmente: o que é a liturgia?
 
A sagrada liturgia nos aproxima das obras redentoras que o Pai realizou por meio do Filho encarnado, Jesus Cristo, na força sempre presente do Espírito Santo.
 
Assim, depois de Pentecostes, os discípulos de Cristo podem acolher a redenção por meio do contato com a santa humanidade do Filho, ficando repletos da graça da salvação.
 
Não importa o lugar, o tempo, a cultura ou os méritos pessoais. As ações litúrgicas, pela obra do Espírito Santo, nos recordam e fazem presente a redenção de Cristo, por meio das suas palavras e ações e, de forma eminente, pela sua morte e ressurreição.
 
Graças à sagrada liturgia, podemos glorificar perfeitamente Deus em nossas vidas e receber o dom mais precioso, pelo qual fomos criados: a divinização. É por isso que o Vaticano II nos recorda que a liturgia é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo.
 
Qual é a função da liturgia na nova evangelização?
 
No último dia 22 de maio, o Instituto de Liturgia de Barcelona organizou uma jornada de estudo para refletir sobre o papel da liturgia na evangelização.
 
Chegamos a uma compreensão mais profunda de que ela é o cume e a fonte da obra evangelizadora, bem como de toda vida cristã, já que toda ação apostólica se orienta a levar os homens à comunhão trinitária por meio dos sacramentos na santa Igreja.
 
Ao mesmo tempo, neste mistério de comunhão, a liturgia aparece como a fonte indispensável e necessária de todas as graças, de toda a força eclesial para viver uma vida de fé e caridade segundo o Evangelho do Senhor.
 
Nesta sintonia, dois aspectos ficaram especialmente claros: por um lado, celebrar em fidelidade aos livros litúrgicos vigentes, em serena e humilde eclesialidade, é uma grande fonte de evangelização; por outro, nas celebrações de exéquias, há um grande potencial evangelizador, já que nelas se proclama o núcleo mais decisivo da fé, não só com palavras, mas também com os gestos rituais que incidem na mente e no coração do ser humano.
 
Em que ponto se encontra a reforma litúrgica, 50 anos depois da constituição conciliar Sacrosanctum Concilium?

O Beato João Paulo II já disse que a reforma litúrgica foi finalizada. Os livros litúrgicos foram publicados e já não estamos na mesma situação de 50 anos atrás.
 
Novas gerações de sacerdotes e fiéis leigos surgiram na Igreja e eles já não conheceram a liturgia anterior ao Vaticano II.
 
Não podemos continuar falando de "reforma". Agora, a prioridade é aprofundar em todo o que foi estabelecido, viver cada ação litúrgica como um momento privilegiado de espiritualidade especificamente cristã.
 
Infelizmente, nestas cinco décadas, nem sempre houve fidelidade à vontade conciliar: houve invenções fantasiosas no que é mais sagrado, nostalgias tradicionalistas excludentes etc.
 
Tudo isso entorpeceu a obra da reforma e o incentivo da sagrada liturgia, como queria o Vaticano II, e como manifestaram os Papas João XXIII e Paulo VI.
 
No entanto, o que é de Deus não pode ser vencido ou anulado. Por isso, com o auxílio precioso do ministério petrino do grande João Paulo II e de Bento XVI, muitos, especialmente as novas gerações de sacerdotes e pessoas de vida consagrada, compreenderam a vontade do Concílio quanto à sagrada liturgia e estão dispostos a vivê-la, com a ajuda da graça do Senhor.
 
Como você acha que o pontificado do Papa Francisco influenciará a liturgia da Igreja Católica?
 
Desde o começo do século 20, com o chamado "movimento litúrgico", foi aumentando o conhecimento da liturgia em todas as suas dimensões: teológica, histórica, pastoral, espiritual.
 
O magistério pontifício, antes e depois do Vaticano II, e os próprios documentos conciliares, são de uma profundidade magnífica quanto ao conteúdo e compreensão da liturgia. Os teólogos também estão fazendo um trabalho estupendo.
 
Estritamente falando, então, não há vícios doutrinais nem teológicos, entendida amplamente, no que diz respeito à liturgia atualmente.
 
O que é necessário, isso sim, é estimular a assimilação de todo este depósito de pensamento litúrgico, para que se traduza nas celebrações sacramentais concretas e realmente chegue a ser, para todo batizado, a fonte de sua vida cristã.
                                                
Acredito que podemos esperar que o Papa Francisco nos ajude nisso, incentivando e acelerando esta assimilação de que falava, tanto com o seu exemplo – como fizeram todos os seus predecessores – como com suas palavras, especialmente aquelas que ele dirige aos bispos do mundo inteiro, pois estes são os primeiros responsáveis pela vida litúrgica em suas igrejas particulares.
 
É preciso tornar a liturgia mais compreensível para as pessoas de hoje ou são as pessoas que precisam se preparar para entendê-la?
 
Na mente conciliar, havia uma vontade de simplificação da liturgia, visando a uma participação mais direta.
 
Porém, percebemos que continua sendo necessária uma formação, uma educação litúrgica por parte dos batizados, para que toda a linguagem da sagrada liturgia, tanto verbal como não verbal, seja um universo repleto de sentido para os fiéis, e que possam tirar dele muito proveito espiritual.

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