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Atualidade

Querida Igreja, não se esqueça da revolução digital

Michael Kelly, SJ - publicado em 18/06/13

A Igreja subestimou a imprensa, com resultados desastrosos; não deixemos que isso aconteça novamente com a internet

Você já percebeu que, enquanto você lê este texto, você está envolvido em algo que transformou a Igreja de maneiras que eram impossíveis de imaginar apenas alguns anos atrás?


Agora, antes de dizer "que pergunta boba", ou "quem esse cara pensa que é?", pense sobre isso: de acordo com o cabeça do Google, Eric Schmidt, sete bilhões de pessoas, partindo dos dois bilhões de agora, estarão acessando a internet, principalmente por meio de dispositivos portáteis – smartphones e tablets – dentro de cinco anos.


Ora, todos sabemos que as pessoas usam a internet para muitas coisas diferentes – acesso a bancos, reuniões, conversas, pornografia etc. Mas já tivemos casos em que a interatividade na web trouxe mudanças políticas, como vimos na Primavera Árabe.


O que é realmente novo sobre o que o acesso à internet significará para a próxima geração é que lhes permitirá interagir diretamente com outras pessoas que compartilham interesses comuns – mídias sociais. É o meio que permitirá a interatividade em uma escala nunca vista na evolução humana.


Como o último Papa disse, a internet é o novo ponto de encontro – o ágora. É o lugar em que as mensagens podem ser transmitidas. Para participar disso, é preciso que os líderes da Igreja mudem de mentalidade, pois estão acostumados a ser ouvidos. As mídias sociais são agora a ferramenta para ouvir os batimentos cardíacos da Igreja. Ignore-as e você será ignorado.


Paradoxalmente, sua capacidade de provocar mudanças é maior em sociedades fechadas, que se iludem com a crença de que podem controlar o fluxo de informações e conter a interação. As frustrações são mais altas entre pessoas que são impedidas de fazer o que querem.


E as pessoas que estão frustradas sempre encontram uma saída, um jeito de atravessar os muros – o que, no mundo cibernético, chamamos de firewalls. Isso pode ser feito se você souber como. Basta olhar para o caos que os chineses estão causando aos serviços de inteligência australianos e americanos. Os chineses querem saber o que os americanos estão fazendo!


Que diferença isso vai fazer para os católicos e para a Igreja, quando mais de dois terços da população do planeta estão interagindo no ciberespaço? E, antes de descartar a minha pergunta, basta considerar que, a cada passo da civilização, é a tecnologia que tem impulsionado as mudanças, não apenas econômicas, mas também culturais. Isso acontece desde a invenção da roda até a criação das viagens aéreas.


E o que estamos presenciando é o crescimento exponencial da capacidade de indivíduos comuns – até sete bilhões deles – de compartilhar a tecnologia de distribuição de informação e interação. Esta não é apenas uma mudança técnica, mas o gatilho para uma mudança cultural que sempre foi o cavalo de Troia no advento da web: o poder da interatividade e da democratização do acesso à informação e formação de opinião.


A mudança cultural é o que contribuiu ou prejudica a capacidade da Igreja de anunciar o Evangelho de forma atraente e persuasiva. E o nosso histórico não é grande a esse respeito.


Levou 150 anos para que as autoridades do Vaticano despertassem para a invenção da imprensa por Gutenberg. Foi Lutero quem viu o seu potencial, traduziu a Bíblia do latim para as línguas nacionais e colocou a Palavra de Deus nas mãos de qualquer pessoa que pudesse lê-la. Por esta e outras razões, a reforma protestante fluiu.


Na Ásia, um dos continentes onde a Igreja Católica está crescendo, estamos familiarizados com o impacto da mudança cultural e sua relevância para a missão da Igreja.


A missão da Igreja de anunciar a mensagem de Jesus nunca foi tão bem sucedida desde o fim da era colonial, em meados do século passado. Tornando-se suas próprias nações, as sociedades asiáticas e suas igrejas católicas não tiveram de carregar o fardo de ser vistas como uma importação europeia. Muitas assumiram formas, linguagens e costumes próprios das pessoas de cada país e nacionalidade.


Mas agora, até 2018, o cenário das comunicações da Ásia será transformado por aquilo que a internet pode oferecer através de smartphones e tablets baratos. A interatividade vai ter um impacto tão grande na Ásia, que as nações anteriormente estruturadas de maneira hierárquica e controlada estarão sob ataque, algo que nunca enfrentaram antes – partindo de dentro.


Esta é, claro, a razão pela qual países como Vietnã, China e Mianmar exercem uma vigilância mais intensa sobre o que suas populações acessam e bloqueiam qualquer coisa que a autoridade central considera ser uma ameaça. Mas as pessoas são mais inteligentes do que as burocracias e os policiais cibernéticos pensam que são.


A oportunidade mais imediata e óbvia para a Igreja é levar a sério o conceito que o Vaticano II expôs de Igreja como Povo de Deus, e não definir a Igreja começando com a hierarquia.


Quer você goste ou não, e se é uma melhoria ou uma deformação, a internet significa que todos têm a oportunidade de passar por uma autoridade para propor suas ideias, para unir ou dividir comunidades e nações. A capacidade de publicar e interagir, e vencer e convencer populações inteiras agora está nas mãos de quem quiser aproveitá-la – para o bem ou para o mal.


Perdendo de vista esta mudança de estilo e substância na cultura criada pela web, a Igreja causaria um dano duradouro a si mesma.


Claro, a interação virtual não substitui o encontro face a face na vida da Igreja. Assim como você pode fazer amigos online, ninguém desenvolve relacionamentos reais a menos que haja contato ao vivo. Até um namoro online não chega a lugar nenhum sem que haja encontros reais. Com a Igreja, acontece a mesma coisa.


Mas as próximas gerações de católicos não transmitirão a palavra de autoridades só porque são autoridades. A próxima geração de líderes da Igreja terá de ser hábil em oferecer convites e ser persuasiva, ao invés de acreditar que a conformidade com suas diretrizes virá simplesmente em virtude de seu cargo.


No entanto, há um lado positivo. Com tantos católicos online na Ásia, o que ligava as pessoas às paróquias no passado (confrarias, grupos de oração, serviço social, administração, escolas e muitos mais) terá mais uma forma: a conexão virtual e interativa contínua.


Um historiador francês, Charles Péguy, disse, no início do século passado, que, na virada de cada época, a Igreja "chega um pouco tarde e um pouco sem fôlego". Desta vez, o que pode ser feito com as mudanças no ciberespaço só está restrito pela nossa forma de limitar as possibilidades.

(Publicado originalmente em UCANews e, 14 de junho de 2013)

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