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Resenha: "Inferno", de Dan Brown

Michael Cook - publicado em 24/06/13

Dan Brown não é nenhum gênio literário... nem um bom cientista

O último sucesso de Dan Brown, "Inferno", é uma tentação a ridicularizar suas pretensiosas referências culturais, suas personagens de papelão e sua prosa insípida. Será isso o covarde ciúme de um autor de best-sellers? Talvez. Ou será falta de compaixão para com as pessoas incapazes? Quase certeza. Mas, como sabiamente observou Oscar Wilde, "a única maneira de se livrar de uma tentação é ceder a ela".


Não há motivo para tratar "Inferno" como uma obra de arte. É um produto comercial, um assalto calculado ao bolso dos viajantes entediados nos aeroportos. O forte de Brown é a capacidade de tecer uma sessão exaustiva de Trivial Pursuit em uma trama de uma reviravolta por capítulo. Pode ser um bom roteiro para um vídeo game, mas não é literatura.


Sem revelar o enredo, aqui está uma visão geral. O simbologista de Harvard, Robert Langdon, acorda em um hospital de Florença com amnésia leve. Uma mulher com cabelo espetado mata o seu médico. Ainda grogue e arrastando seus tubos, ele foge com uma jovem chamada Sienna Brooks. No seu apartamento, ele descobre que sua jaqueta Harris Tweed contém um cilindro com uma sinistra mensagem, com base na "Divina Comédia" de Dante. O futuro do mundo está em jogo e só Langdon pode salvá-lo. De repente…


Já deu para ter uma ideia.


Na era pós-moderna, todo texto pode ser desconstruído. Partindo deste ponto de vista, há algo realmente intrigante sobre a escrita de Brown. "Inferno", como os outros romances de Robert Langdon, é uma colagem de elementos da cultura ocidental sem uma narrativa coerente.


Consequentemente, a leitura de "Inferno" é como navegar através de entradas da Wikipédia sobre Florença, Veneza e Istambul. Eu me pergunto se as autoridades de turismo nestas cidades pagaram Brown para promover suas atrações nos romances.

Brown nunca será descrito como um gigante literário, mas há uma técnica na qual ele não tem par: propaganda de produtos. Eis uma passagem típica que apresenta as marcas de Google e Apple:


"Langdon agradeceu e pegou o telefone. Enquanto ela tagarelava ao lado dele sobre o quão terrível ela se sentiria por perder o iPhone, Langdon abriu a janela de busca do Google e apertou o botão do microfone. Quando o telefone tocou uma vez, Langdon articulou sua busca. 'Dante, Divina Comédia, Paraíso, Canto 25'. A mulher olhou espantada, aparentemente tendo ainda de aprender sobre esse recurso."


Outras marcas com referências brilhantes são: NetJet, uma companhia aérea privada; Grand Hotel Baglioni, em Florença; trens Frecciargento; Harris Tweed; a cantora canadense Loreena McKennitt; e um Dubois SR52 Blackbird.


O vilão da novela é um bilionário bioquímico suíço chamado Bertrand Zobrist. Ele morre no capítulo de abertura (embora ressurja em um par de breves flashbacks de cenas de sexo). Mas enquanto eu lia mais e mais o "Inferno", comecei a considerar como verdadeiro vilão o editor de Dan Brown, a quem, pela pouca compaixão que me resta, não vou citar. Sua única desculpa aceitável é que Dan Brown é um daqueles pesadelos de autores celebridades, a quem os editores temer corrigir.


E o que dizer das ideias? Brown insiste em alertar seus leitores sobre questões sérias. No "Inferno", isso acontece especialmente com dois elementos (o que enfraquece o enredo): transhumanismo e superpopulação.


O transhumanismo, que o cientista político Francis Fukuyama uma vez chamou de ideia mais perigosa do mundo, é uma filosofia que defende a evolução artificialmente acelerada. É definitivamente algo muito maluco; então Dan Brown prestou aos seus leitores um serviço, alertando-os sobre a sua existência.


No entanto, seus entusiastas, em sua maior parte, são geeks anárquicos e polêmicos, e por isso é difícil imaginar que eles possam organizar-se em uma vasta conspiração para devastar a humanidade.


A superpopulação, por outro lado, é uma verdade bíblica para Dan Brown. No meio da prosa coagulada, as páginas que descrevem um planeta com as pessoas pululando brilha com intensidade evangélica.


Um dos personagens, o chefe da Organização Mundial da Saúde, diz no livro que "Bill e Melinda Gates mereciam ser canonizados por tudo o que fizeram por meio de sua fundação" para ajudar a melhorar o acesso ao controle da natalidade no mundo inteiro.


Não me diga que Dan Brown canonizaria o homem mais rico do mundo por nada!

Superpopulação? Dan Brown viveu em um bunker durante os últimos dez anos? Quase em todos os lugares, os índices de natalidade estão em colapso. Após atingir um pico de cerca de 9 bilhões no ano 2050, a população mundial vai desabar.


Em alguns países, esse índice vai cair tão drasticamente, que poderia provocar catástrofes econômicas, como diminuir a proporção de jovens trabalhadores com relação aos idosos e pessoas com deficiência.


Já é preocupante a taxa de natalidade na Itália, o despovoamento no Japão, a escassez de trabalhadores na China, o declínio da imigração ilegal do México para os EUA. O livro de Paul Ehrlich, de 1968, "The Population Bomb", já foi uma decepção.


Mais ou menos como o "Inferno".

(Publicado originalmente em MercatorNet em 6 de junho de 2013)

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