Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Quarta-feira 28 Outubro |
São Sálvio
home iconReligião
line break icon

A Igreja deve ter poder e bens temporais?

Chiara Santomiero - publicado em 15/07/13

Conversa Andrea Leonardo, autor de um livro sobre a origem do poder temporal da Igreja, para entender melhor o momento atual

Os constantes convites do Papa Francisco a todos os cristãos a adotar um estilo evangélico de vida, seguindo o ideal de pobreza e sobriedade, voltam a nos propor o tema do uso dos bens materiais e do poder da Igreja também como instituição. Mas o que houve na origem do "poder temporal" da Igreja?


Sobre este tema pouco conhecido (e esclarecendo aspectos como a falsa história da chamada "doação de Constantino"), fala o livro "O poder necessário. Os bispos de Roma e o governo temporal, de Sabiniano a Zacarias", de Andrea Leonardo, diretor do departamento catequético da diocese de Roma, quem conversou com a Aleteia sobre seu livro.

O poder temporal da Igreja não nasce da doação de Constantino. E então?


Poderíamos dizer que houve uma necessidade histórica. Em um momento muito difícil para a Itália, a Igreja assumiu uma responsabilidade quase sem perceber. Por volta do ano 700, o imperador de Constantinopla, cabeça de todo o império romano, estava muito ocupado com a luta contra os árabes que assediavam a capital para responder às petições de Roma, ameaçada, por sua vez, pelos lombardos.


Frente a esta impossibilidade, o Papa da época se encontrou diante da responsabilidade de alimentar a população e defender os muros; e foi ele quem protestou ao rei lombardo pela ocupação de cidades como Sutri, Narni, Sora, Cesena, Ravena. Por ocasião da tomada desta última, uma cidade belíssima à qual o Papa Francisco sempre se refere, afirmou que "estas são nossas ovelhas que estão doentes e o pastor deve cuidar delas".


O imperador não conseguiu defender Ravena e, em 751, o Papa foi até lá a pé para protestar contra a ocupação lombarda. Em 754, o Papa Estêvão II inclusive atravessou os Alpes a pé e chegou a Reims para pedir o apoio da corte franca, depois que o rei lombardo se negou a restituir as terras retiradas do império. Lentamente, a população se reuniu em torno do Pontífice como o verdadeiro responsável civil.

Este processo leva a um efeito colateral do que hoje chamamos de "laicidade do Estado", não é mesmo?


Até Constantino, o imperador também era pontifex maximus, ou seja, o imperador romano era o primeiro dos sacerdotes; quando havia um culto, era ele quem o presidia; e todo o povo devia seguir o culto ao imperador.


Mudando-se para Constantinopla, Constantino carregou consigo o título de imperador e de pontífice, mas, pouco a pouco, não chegou a exercer o de sacerdote máximo, porque, de fato, deixou esta tarefa para o Papa.


O imperador tentava se impor em Roma do ponto de vista teológico – por exemplo, durante a crise iconoclasta que ocorreu no período em que surgiu o poder temporal –, mas no final foi Roma quem venceu, rejeitando a destruição dos ícones, porque estava nos planos de Deus.


No final deste período, os dois poderes – do Pontífice e do imperador – ficam totalmente separados: o poder temporal em Constantinopla e o poder espiritual em Roma – este, de certa forma, é também um pequeno poder temporal, porque o bispo de Roma era então o responsável pela administração da cidade.

Sem este papel do Papa e da Igreja, não existiria a história europeia como nós a conhecemos?


A viagem de Estêvão II a Reims foi decisiva, não só para Roma, mas também para toda a Europa e seu desenvolvimento histórico e cultural. Para impedir os lombardos de anexar Roma depois de Ravena, o Papa pediu ajuda aos francos e a referência política se transladou dos bizantinos ao imperador dos francos: tudo o que era o império romano se colocou sob a autoridade de Carlos Magno.


A isso se acrescentou a obra de evangelização que o Papa levou a cabo entre as populações bárbaras do norte da Europa, por meio do envio de missionários aos anglos e saxões.

Possuir bens e exercer um poder é contrário ao Evangelho?


Não. É evidente que o Papa de então possuía estes bens para prestar um serviço à população: sem este poder temporal, Roma teria destruído sua história latina herdada de milênios.


É interessante observar que o próprio São Francisco de Assis concordava com o poder temporal da Igreja. Ele fundou a Terceira Ordem Franciscana para esclarecer que, ainda que os franciscanos não devam possuir bens, isso não vale para os esposos cristãos, que devem tê-los pelo bem dos filhos.


Pio XI assinou a concordata com o Estado italiano no século passado, afirmando que "o Papa, para ser livre e não estar submetido a um domínio, precisa de um Estado, o menor possível, que permita isso".


Graças a isso, em 1944, o Estado Vaticano teve autonomia diante dos nazistas e abrigou 800 refugiados. Este fato demonstra que o fato de o Papa ter um território e seus bens colocados ao serviço da caridade é proveitoso para a obra que ele deve levar a cabo.

Qual é o limite entre dar ao César e dar a Deus?


A possessão de bens não significa – como ocorreu em alguns momentos da história – dedicá-los a um uso errôneo, mas à ajuda e ao apoio. Também Jesus aceitou que algumas mulheres oferecessem seus bens para a sua missão.


No ano 200, as catacumbas de Calisto eram propriedade da Igreja de Roma, porque o objetivo era sepultar seus mortos, pobres e ricos juntos: um paradoxo tipicamente romano, já que o cristianismo era perseguido de forma oficial e, no entanto, sobre isso, o imperador fazia vista grossa.


A Igreja precisa de estruturas para o acolhimento, para a catequese, para o serviço do Evangelho. Uma paróquia está aberta a todos, também aos ateus e às pessoas de outra religiões.


Ratzinger, em "Introdução ao cristianismo", escreve que, se Deus tivesse querido nos salvar sozinhos, não haveria necessidade de nenhuma estrutura; mas, como somos seres sociais, Deus quis nos salvar juntos, e isso nos obriga a ter sinais e lugares onde nos encontrar.


A Eucaristia nos reúne e, para celebrá-la, precisamos de um espaço. A Igreja realizou lentamente a criação de catacumbas, batistérios, a construção de Igrejas, hospitais, escolas, universidades, estruturas para acolher os refugiados, porque não existe apenas uma caridade espiritual, não existe uma fé que não se torna também um sinal tangível.


É preciso que sejam lugares sóbrios, como nos indica o Papa Francisco, que elogiou o Pe. Estêvão, pároco de Lampedusa, quem, por meio da sua comunidade, faz o bem a quem chega à ilha em busca de uma vida melhor. A estrutura é necessária quando se quer oferecer uma ajuda que contribua para a realidade do ser humano.

Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • A Aleteia é publicada em 8 idiomas: Português, Francês, Inglês, Árabe, Italiano, Espanhol, Polonês e Esloveno.
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Tags:
IgrejaPapaPapa Francisco
Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
TRIGEMELAS
Esteban Pittaro
A imagem de Nossa Senhora que acompanhou uma ...
Philip Kosloski
3 poderosos sacramentais para ter na sua casa
Aleteia Brasil
Quer dormir tranquilo? Reze esta oração da no...
Aleteia Brasil
O milagre que levou a casa da Virgem Maria de...
No colo de Maria
Como rezar o terço? Um guia ilustrado
Pe. Zezinho
Francisco Vêneto
Duas emissoras brasileiras deturpam fatos em ...
Reportagem local
Corpo incorrupto de Santa Bernadette: o que o...
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia