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O Papa, o chimpanzé e a cadela

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O “FORA PEDÓFILO” foi “curtido”, compartilhado e usado como “embasamento” para excomungar o papa e desatar um rosário solene de clichês

Duas fotografias aleatórias, no “fluxo de postagens” do Facebook, me chamaram a atenção nesta semana.

 

A primeira tachava o papa com um maiúsculo “FORA PEDÓFILO”, apoiado por várias “curtidas”, compartilhamentos e comentários indignados contra Francisco.

 

A outra mostrava um bebê-chimpanzé que abraçava uma cadela.

 

O bebê-chimpanzé tinha sido abandonado pela mãe num zoológico de Moscou. Foi adotado por uma cadela mastiff e muito bem acolhido pelos novos irmãozinhos de criação. Bastante “curtida” e compartilhada, essa imagem tanto reunia comentários sobre a ternura animal quanto esculachos dramáticos contra todos os seres humanos.

 

Um dos comentários sapecava: “É só o bicho-homem que não sabe se relacionar com as outras espécies do reino animal. Aliás, com nenhuma das outras espécies de seres vivos. Aliás, com seres não-vivos também”.

 

Vários seres vivos “curtiram” esse comentário e acrescentaram outros na mesma linha, desancando implacavelmente o pérfido ser humano, “que deveria ser extinto”!

 

Comentaristas menos acalorados, que controlassem o impulso emotivo e ativassem a racionalidade para gerenciar os rompantes de radicalismo, poderiam ter retrucado com pelo menos três observações simples. Primeira: existem milhões de pessoas, só no Brasil, que cuidam gratuitamente de animais, árvores e rios. Segunda: quem rejeitou o próprio filhote foi a chimpanzé-mãe. Terceira: se o gesto nobre da cadela fosse tão corriqueiro, é bem possível que não teria virado notícia.

 

Eu acho que muitos bichos são mesmo mais carinhosos que várias mães humanas. Mas também acho que generalizar premissas e tirar conclusões desvairadas é uma atitude que nos torna mais merecedores de críticas do que a suposta (e inverídica) indiferença de todos os seres humanos para com os outros seres.

 

Por que generalizamos tão facilmente?

 

E mais grave: por que “curtimos“, endossamos e repassamos tão facilmente tantas generalizações?

 

A foto do papa tachado de pedófilo vai ainda mais longe: já singra os “fluxos” da desonestidade. Não existe prova nenhuma de que Francisco tenha cometido algum ato de pedofilia. Até onde eu sei, nem mesmo existe qualquer acusação contra ele por algo sequer semelhante a isso. Mesmo assim, o “FORA PEDÓFILO” foi “curtido”, compartilhado e usado como “embasamento” para excomungar o papa e desatar um rosário solene de clichês, que vão do já mítico trono de ouro (que é de madeira) até a best-selling perseguição do Vaticano contra os tataranetos de Jesus Cristo e de Maria Madalena.

Eu lamento esses desfavores tão infantis à genuína causa laica. Precisamos de um debate incomparavelmente mais adulto e profundo com a religião sobre as perplexidades que ela nos provoca. E são perplexidades bipolares: por um lado, há no âmbito religioso podridões inadmissíveis e disparates descabelados, mas há também provocações preciosas para quem se interessa pelo sentido da própria existência e por perguntas incômodas como “por quê” e “para quê”.

 

E o que é que tudo isso tem a ver com a Jornada Mundial da Juventude, que, afinal, é o assunto sobre o qual me convidaram a palpitar aqui?

 

Boa pergunta. E aí, jovens católicos, vão seguir o “fluxo” ou têm alguma resposta?

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