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Religião

O papa que pediu licença para falar ao coração

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 23/07/13

Francisco não está simplesmente batendo numa porta para poder entrar. Está se propondo a compartilhar o que de mais íntimo existe no ser humano

O começo da estadia do papa Francisco no Brasil não poderia ter sido mais tocante. “Aprendi que para ter acesso ao Povo Brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta” – disse ele.

A imagem do grande coração é bem conhecida do povo brasileiro, que realmente se orgulha de ter este “coração imenso” ao qual o papa se referiu. Contudo, ela tem referencias mais profundas na tradição cristã. O coração é o centro de todos os afetos, o lugar do desejo, o núcleo existencial da pessoa. Francisco não está simplesmente batendo numa porta para poder entrar. Está se propondo a compartilhar o que de mais íntimo existe no ser humano.

A continuação do discurso evidencia esse interesse: “Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!”. Ele não apenas pede, “delicadamente”, para entrar na nossa intimidade, ele doa a sua intimidade a nós, pois é evidente que o amor a Cristo é o centro do seu próprio coração. É um diálogo entre corações, onde Cristo se transmite e se comunica de um coração ao outro. Não à toa terminará seu discurso pedindo a todos “a necessária empatia para estabelecer um diálogo de amigos”.

Esta postura do papa exige uma resposta de cada um de nós. Não se trata de um simples escutar as palavras e maravilhar-se com elas (eu confesso que fiquei tremendamente impactado por seu primeiro discurso no Brasil). É necessário mais: é necessário abrir a porta que é o coração. O que significa isso? Ouvir e “ruminar” a mensagem do papa, refletir sobre ela. Mas isso não basta, pois a mensagem pode encontrar um coração adormecido, sem paixão e sem vigor, que receberá esta mensagem como mais normas morais ou deveres a realizar, justos e louváveis, mas ainda muito longe da comunicação da vida de Cristo em nós à qual o papa faz referência.

Quem ouviu ou lê o discurso de Francisco tem a impressão de que tudo de repente se tornou carregado de sentido e de afeto. É o fruto de um coração cheio de vida, do coração dos que “não têm medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos”, que têm aquela energia “que se desprende do coração dos jovens quando conquistados pela experiência da amizade com Cristo”. Mas para compartilhar esta experiência, viver essa liberdade, é necessário estar aberto à realidade, com sua beleza e suas dores, estar aberto às exigências do próprio coração, para compreender como elas são respondidas pelo encontro com Cristo.

Um último ponto me parece particularmente importante de ser comentado no discurso do papa. Ele diz que “Os pais usam dizer por aqui: ‘os filhos são a menina dos nossos olhos’. Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz regalando-nos o milagre da visão! O que vai ser de nós, se não tomarmos conta dos nossos olhos? Como haveremos de seguir em frente?”. 

Um adulto, para manter a jovialidade do coração, para não se fechar em si mesmo, deve olhar para a juventude. É verdade que os jovens precisam do modelo e da sabedoria dos mais velhos, mas eles nos lembram a cada dia aquilo que é essencial. Sua radicalidade, sua fome de vida, são realmente uma luz que ilumina nossa consciência dos adultos.

As palavras do papa com relação à juventude me fazem lembrar um texto do Apocalipse em que Deus censura os cristãos de Éfeso por fazerem tudo certo, mas terem esquecido “seu primeiro amor”. A juventude não deixa o adulto de coração sincero esquecer “seu primeiro amor”. E Francisco, sem dúvida, é um homem que não esqueceu este amor. Por isso sabe o quanto ele é importante para todos os cristãos…

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