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Há esperança para a Igreja?

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MAURICIO LIMA

Aleteia Vaticano - publicado em 24/07/13

Quando se perde a memória, se perde a história, acomoda-se a insegurança e consequentemente o vazio existencial

“Capa de chuva!”, gritavam os ambulantes de Aparecida já às 5 horas da manhã desta quarta-feira. Ônibus, carros e vans de todos os lugares repetiam as cenas que há décadas tomam conta da cidade mais mariana do país católico de muitas religiões e pouca religiosidade. Um país de muitas caras, de muitas histórias e pouca memória. O Papa fala de uma crise na juventude, fala da solidão dos jovens e de como a busca pelo poder, o prazer e o sucesso são compensações para preencher o vazio. Não parece ser novidade o diagnóstico que Francisco apresenta, mas sempre há um risco de não se atentar para o óbvio justamente por ser óbvio. Os jovens “precisam, sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que é a memória de um povo”, afirmou.

Viktor Frankl repetidas vezes afirmou que as tradições são importantes para o desenvolvimento humano, elas oferecem a segurança da pertença e recobram o sentido dos vínculos familiares e sociais. Quando se perde a memória, se perde a história, acomoda-se a insegurança e consequentemente o vazio existencial. Na prática clínica é comum observar sintomas de depressão nas pessoas que têm dificuldade em abraçar a própria história, naquelas que negam o passado ou desenvolvem um sentimento de mágoa ou ódio em relação a sua história. 

Há uma crise social, esta crise está por toda parte, por natureza os jovens tendem a negar a tradição, é uma forma de purificar o sentido dos valores para eles mesmos e também para a sociedade da qual fazem parte, neste sentido o gerador da crise não são os jovens, mas sim os adultos que não oferecem confiabilidade em suas instituições sociais. Para que haja desenvolvimento humano, é preciso continência por parte dos adultos, tanto dos pais quanto dos educadores e também dos líderes religiosos e políticos, de modo que quando afrontados pela descrença dos jovens, respondam com coerência e segurança. Desta forma os jovens ajudam a purificar os erros e os adultos oferecem segurança para o desenvolvimento, o vazio dá lugar ao amor e os vícios como compensações se fazem desnecessários.

A crise generalizada está na política, uma vez que os jovens se voltam para os adultos buscando referência para seu desenvolvimento veem incoerências descabidas e se frustram. A crise generalizada está na família, quantos são os adolescentes que olhando para seus pais tudo o que sentem é a vontade de não ser como eles! A crise está também na Igreja, quantos jovens não cogitam mais a possibilidade de viverem uma religiosidade porque olham para os líderes religiosos e tudo o que veem são incoerências! Fala-se tanto de escândalos sexuais e financeiros justamente porque a sociedade espera que o mundo da religião ofereça os valores imateriais que tanto todos necessitam. 

As igrejas das bênçãos e da prosperidade financeira enchem seus templos prometendo sucesso financeiro para todos na ilusão de que estejam representando algo de religioso quando na verdade são repetições do mundo da publicidade e de um capitalismo materialista que mede o tamanho da ação divina no extrato bancário. Francisco tem toda a razão quando diz que os jovens precisam dos valores imateriais, mas não apenas tem razão pelas palavras que prega, mas o mundo todo o olha com uma gigante esperança de que ele não apenas diga, mas continue representando esta imagem do religioso que toda a sociedade anseia testemunhar. 

O sucesso de Francisco nas redes sociais, nos telejornais e jornais impressos, nas colunas de crentes e não crentes deve-se justamente pela simplicidade de sua vida, a expressão do que deve ser a religião para um mundo sedento por valores imateriais. É um pontificado de início promissor e com grandes desafios pela frente. A Cúria Romana repleta de lobbies, escândalos sexuais que ainda ecoam no clero em várias partes do mundo e as crises do Banco do Vaticano são exemplos de como o material falou alto nos últimos tempos dentro da Igreja.

Um povo sem memória é facilmente manipulado! O mundo do comércio, as grandes corporações financeiras, os partidos políticos e as ideologias de poder crescem quando os valores imateriais se fazem ausentes. É também pela ausência da igreja e falha no anúncio da Boa Nova que as pessoas se apegaram no laicismo como uma aversão a uma religiosidade materialista. No fundo, o que a sociedade diz quando aplaude o Papa Francisco é que uma espiritualidade coerente e humilde é bem-vinda!

Esperança! Palavra lembrada nos dias de hoje para trazer alívio aos que estão mergulhados em crises diversas. Esperemos que o mundo da religião encontre novamente seu espaço na sociedade e que ao invés do “Capa de chuva!” gritado pelos ambulantes, os peregrinos possam ouvir um “sejam bem-vindos” quando buscarem um lugar para viver sua espiritualidade.

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