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Qual é a relação entre a Igreja e o vodu?

Aleteia Vaticano - publicado em 14/08/13

Em 2011, Bento XVI esteve no Benim para entregar a exortação apostólica pós-sinodal da 2ª Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, intitulada “Africae munus”. Entre os desafios apresentados, encontra-se o diálogo inter-religioso com as crenças tradicionais africanas. Isso inclui o vodu ou para a Igreja Católica se trata somente de superstição e magia negra?

O vodu nasceu nas tribos que povoam o antigo território de Daomé, atual Benim, e hoje é uma religião oficialmente reconhecida no país, que integra elementos próprios da religião tradicional africana. Ela conta com uma hierarquia precisa, mas os contatos com os membros da Igreja Católica nem sempre são claros.

O vodu procede da África Ocidental e é uma religião tradicional muito antiga, imbuída de magia natural e seguida por cerca de 30 milhões de pessoas.

O vodu (palavra que, na língua das tribos procedentes da costa atlântica da África, significa “espírito da serpente”) é uma religião que considera que os objetos e os animais estão dotados de alma. Segundo explica à Aleteia o especialista José Luis Vázquez Borau – doutor e Filosofia e Teologia, membros da RIES (Rede Ibero-americana para o Estudo das Seitas) –, trata-se de uma das religiões mais antigas do mundo, que tem suas raízes nas religiões neolíticas.

Seguida por cerca de 30 milhões de pessoas, é uma religião reconhecida pelo Estado desde 1996 e está presente também na Nigéria, Togo e Gana, com influência em países como Angola e República Democrática do Congo.

No sistema de crenças do vodu, existe um deus supremo criador (“Mawu” ou “Nana Buluku”), infinitamente bom, mas que não tem contato algum com as suas criaturas e a quem não é preciso prestar culto. O espaço entre o criador e os homens, no entanto, não está vazio, mas repleto de deidades (“loas” ou “orishas”) de diversas hierarquias, boas e más, as quais é preciso adorar.

A base do vodu consiste na invocação realizada sobre um “loa” para que se manifeste, possuindo um ser humano, o que se consegue mediante rituais vinculados aos sacrifícios e sobretudo por meio da dança frenética e do ritmo dos tambores, até conseguir entrar em uma espécie de êxtase ou transe, mediante o qual se manifesta a deidade.

O vodu não busca a salvação das almas, mas encontrar, com a ajuda dos “loas”, a solução imediata para problemas cotidianos. Também não propõe dogmas nem tem textos sagrados; o que pretende é orientar os seus devotos a encontrar um equilíbrio entre o natural e o sobrenatural, assim como entre as forças do bem e do mal, na vida diária. Os “loas” ajudam as pessoas e estas devem cumprir os seus compromissos com eles. Trata-se sobretudo de manter a coesão moral da comunidade ou tribo que pratica o vodu.

Estende-se uma ideia do vodu determinada pelo processo de sincretismo com o cristianismo e inclusive com o satanismo e a bruxaria, causado pelo contato com a religião dos escravos negros levados à América e submetidos a conversões forçadas.

O vodu africano é diferente em cada tribo que o pratica, mas difere substancialmente do vodu majoritariamente conhecido (e que o cinema popularizou), que é o resultado da deportação forçada de milhares de escravos dessas regiões.

Ao chegar a países cristãos, os escravos se viam obrigados a abandonar sua religião, mas a maioria continuou praticando seus ritos ancestrais, aplicando-lhes um “verniz” cristão e relacionando-os com a dor e o sofrimento provocados pela sua situação. Isso deu origem a um sincretismo religioso que hoje é amplamente praticado na América Latina e no Caribe, como o candomblé, e inclusive com uma vertente satânica, o hoodoo.

No Haiti, alguns feiticeiros vodus afirmam ter o poder de reviver mortos por meios mágicos para convertê-los em escravos (zumbis), provocando em algumas pessoas um estado cataléptico mediante a administração de drogas potentes, para poder dominá-las. Mas este tipo de prática não tem nada a ver com o vodu africano.

Assim como a Igreja Católica incentiva a inculturação dos valores que se encontram nas religiões tradicionais africanas e em todas as culturas, da mesma maneira reconhece aspectos positivos no vodu; mas alerta contra a persistência de elementos que não estão em conformidade com a fé cristã.

Depois de mais de 150 anos desde a evangelização de Benim por obra da “Société des Missions Africaines” de Lyon, muitos fiéis que se converteram a Cristo não se afastaram completamente dos antigos cultos ligados às Religiões Tradicionais Africanas (RTA). E, portanto, ainda que continue havendo alguns preconceitos alimentados pelos primeiros missionários cristãos procedentes do hemisfério norte, as RTA, além de serem estudadas nas universidades, nos seminários maiores e menores e também nas escolas católicas, constituem o contexto religioso e cultural no qual se encontram muitos cristãos africanos.

O diálogo da Igreja Católica com o vodu se insere no contexto mais amplo das relações com as RTA, que, com cerca de 90 milhões de seguidores na África, são depositárias de uma rica bagagem de espiritualidade e influenciam no fato de que Deus revista uma importância tangível na vida prátia do africano, segundo reconhece o livro “Meeting the African Religions”, publicado em 1968 pelo então Secretariado Vaticano para os Não-Cristãos (atualmente, Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso).

A Igreja, que tem como função fundamentar a unidade e a caridade entre os homens e, ainda mais, entre os povos, valoriza e respeita a “gloriosa cultura africana” – em palavras do Papa Paulo VI – e reconhece que, nas diversas tradições, há verdade e bondade, sementes do Verbo.

Em um encontro com o então líder do vodu em Benim, Guedeguè, em 4 de fevereiro de 1993, João Paulo II afirmou que os seguidores do vodu estão “fortemente apegados às tradições herdadas dos antepassados” e qualificou como “legítimo este reconhecimento com relação aos mais velhos, que transmitiram o sentido do sagrado, a fé em um Deus único e bom, o gosto pela celebração, a consideração pela vida moral e pela harmonia da sociedade”.

O diálogo da Igreja Católica com o vodu, no qual a colaboração para um desenvolvimento humano integral ocupa um lugar destacado, continua encontrando elementos dificilmente conciliáveis.

João Paulo II afirmou que o diálogo com o vodu “exige colaboração, com o fim de defender e promover juntos, para todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade”. De fato, o cristianismo e o vodu estão fortemente comprometidos, apesar de suas diferenças, em diversos âmbitos, como a proteção do meio ambiente e o amor às pessoas portadoras de deficiências físicas ou mentais. A carta do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso – “Atenção pastoral às religiões tradicionais” – de 1993, explica que o diálogo com os seguidores das religiões tradicionais que não querem ser cristãos “deve ser entendido no sentido ordinário do encontro, da compreensão mútua, do respeito, da descoberta das sementes da Palavra nesta religião e na busca conjunta da vontade de Deus”.

No entanto, apesar de que o vodu seja uma das RTA mais organizadas, as oportunidades de diálogo não conseguem avançar e continua havendo elementos dificilmente conciliáveis, como casos de sequestro de cristãos para iniciações forçadas ao vodu.

Além disso, 150 anos depois da evangelização de Benim, muitos fiéis que se converteram a Cristo não se afastaram totalmente dos antigos cultos ligados à religião tradicional, de grande influência no ambiente, o que aumenta a tendência ao sincretismo entre muitos católicos.

Um conhecimento amplo e preciso das religiões tradicionais africanas ajuda o diálogo e a necessária distinção entre aspectos culturais e bruxaria.

Os elementos secretos, a falta de contato aberto, a ambiguidade e a falta de estruturas em algumas RTA dificultam o diálogo com a Igreja Católica, que trabalha por conseguir um conhecimento amplo e preciso das culturas e religiões africanas, discernindo os pontos de oposição, o que ajuda na distinção que é preciso fazer entre o âmbito cultural e o religioso, especialmente entre a cultura e a bruxaria.

Neste sentido, a 2ª Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, realizada no Vaticano em outubro de 2009, sobre o tema “A Igreja na África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz”, propôs levar a cabo uma completa e qualificada pesquisa científica sobre as RTA e as culturas, estudar a bruxaria e o ocultismo à luz da fé e da razão, para libertar os africanos desta praga e preparar programas pastorais baseados na racionalidade, na liberdade e na reconciliação.

Como em qualquer RTA, “um diálogo sereno e prudente poderá, por um lado, proteger de influências negativas que, frequentemente, condicionam o modo de viver de muitos católicos, e, por outro, assegurar a assimilação de valores positivos”, que podem ser vistos como uma preparação para o Evangelho, como explica a exortação pós-sinodal “Ecclesia in Africa”.

Apresentamos, a seguir, alguns testemunhos recolhidos pela Aleteia de missionários católicos que trabalham em Benim, sobre a sua missão e suas dificuldades na “terra do vodu”.

Irmã Andréa Dah Nifabom, religiosa burquinense que passou 5 anos em Benin: “O cristão beninense, em geral, e o do sul de Benim em particular, vive em um ambiente fortemente influenciado pela religião tradicional. Isso aumenta a tendência ao sincretismo. Também é verdadeiramente alarmante, escandaloso, constatar a ambivalência da fé entre os nossos irmãos católicos. Este comportamento se explica pela mentalidade segundo a qual a religião católica é considerada como uma religião importada pelos brancos”.

“Uma vez, em Ouidah, cidade histórica do país, situada a cerca de 30km de Cotonou, um cristão disse a outro, ao sair de uma Celebração Eucarística: 'Já terminamos o do branco, vamos agora para o do negro'. Em outras palavras, os cristãos vão à Igreja e ao mesmo tempo participam do culto do vodu. Têm, em sua sala de estar, objetos de piedade – imagens, a estátua de Nossa Senhora, o crucifixo – e, no seu quarto, amuletos e representações do vodu.”

Paul Bohissou, especialista nos problemas do vodu e na cultura beninense: “Alguns católicos seguem o vodu. Também muitas seguidoras do vodu seguem o catolicismo; estas, uma vez convertidas, se vinculam a Cristo, como Saulo convertido se torna Paulo. O sincretismo é um grande perigo para nós, os negros africanos. Várias leis do vodu proíbem estas práticas, de maneira que os que as seguem perdem o bom nome. Há um ditado de Abomey, em Fon Medio (no centro de Benim) : ‘Voodoun we no dou we do medekpo ta a’: dois fetiches não dão conta ou não gostam de dançar simultaneamente na mesma pessoa – ou seja, não se pode ser esposa do vodu Dan e ao mesmo tempo esposa do vodu Hébiossu”.

Padre Saturnin Comlan Pognon, comboniano: “O beninense, como todos os africanos em geral, acredita em um Deus todo-poderoso, criador do céu e da terra, mas esse Deus está longe. Não é possível esperar nele; Ele criou intermediários, que são os vodus. Os vodus são a resposta do 'homem beninense' às numerosas perguntas formuladas sobre o mundo e sua origem, a morte, o trovão, o mar e o seu conteúdo… O vodu constitui, portanto, um meio pelo qual o homem beninense se comunica com o seu Deus. É, portanto, compreensível que alguns católicos, ao não encontrar respostas para os problemas que enfrentam – por exemplo, a bruxaria –, recorram à religião tradicional”.

“Em alguns povoados, ainda existe esse fenômeno do sequestro, sobretudo de cristãos, ainda que tende a diminuir. Esta é uma zona de conflito entre as duas religiões. Como se sabe, na prática do vodu, existe o que poderíamos chamar de 'direito de transmissão', ou seja, uma seguidora do vodu (literalmente, a esposa do vodu, por exemplo) deve transmiti-lo aos filhos antes de morrer. Se esta pessoa não está presente ou se os pais não concordam em garantir esse revezamento, então acontecem os sequestros. Atualmente, diz-se que o fenômeno se tornou raro pelo fato de que ninguém quer deixar seu filho ir por esse caminho, sobretudo porque as 'esposas do vodu' não são escolarizadas.”

Padre Charles Whannou, antigo reitor do "Grand Séminaire Saint Gall” de Ouidah (Benim), atualmente diretor do Centro CERAO de Pastoral e Missão (Abidjão), em Benim: “Percebe-se um vínculo muito forte entre o culto e a cultura. Os estrangeiros, apegados a certos esteriótipos, ignoram que a Religião Tradicional comporta valores de civilização e de educação. A inculturação e o diálogo com a cultura africana permitirão levar a Cristo; esta é, de fato, a sua herança, segundo o Salmo2, 8”.

“A proteção do meio ambiente nos preocupa, às vezes, por razões diferentes. Com relação às pessoas portadoras de deficiência, o diálogo não é tão fácil; a Igreja, por respeito a todas as criaturas humanas, luta, com as suas estruturas de beneficência, para salvar as vidas ameaçadas pela tenacidade de algumas superstições. Efetivamente, são questões muito delicadas.”

“Em geral, no entanto, em Benim, o catolicismo e as RTA não são concorrentes nem adversários. Pelo contrário, procuram colaborar, como buscaram também os primeiros grandes missionários, como Dom François Steinmetz (+1952), primeiro vigário apostólico de Ouidah. É preciso reconhecer que nós, católicos, temos uma capacidade maior de diálogo e uma abertura maior.”

“As iniciações que consagram ao culto das RTA não são feitas por vocação, assim como nós a entendemos. Não é um chamado ao qual a pessoa responde livremente. Todos os que estão consagrados são tomados pela força. Devem pertencer à família de nascimento ou por integração. Assim, às vezes pegam batizados. Neste sentido, não respeitam os direitos da criança, já que a criança está obrigada a obedecer em tudo aos seus pais, segundo o 4º mandamento de Deus, que inclusive os não-cristãos sabem evocar em casos desse tipo. Frequentemente, a autoridade religiosa intervém para fazer respeitar o direito da criança e de toda pessoa a aderir à religião que quiser, sem que lhe seja imposta. Às vezes, é necessário fazer que as forças da ordem e da justiça intervenham, para facilitar o diálogo. Para as pessoas maiores de idade (18 anos), é mais fácil sair disso que para os mais jovens. Neste caso, a Igreja ajuda tais pessoas deslocando-as, para que permaneçam fora do alcance dos sequestradores. No entanto, acho que esses sequestros se tornaram e se tornarão cada vez mais raros, devido ao progresso da fé e à evolução das mentalidades.”

Referências

Colaboraram na resposta:

– José Luis Vázquez Borau, doutor e Filosofia e Teologia, membros da RIES (Rede Ibero-americana para o Estudo das Seitas), dedicado especialmente ao estudo das religiões e autor de mais de 50 obras de Filosofia, Antropologia, Espiritualidade, seitas e biografias, entre elas “As religiões afro-americanas”.

– Vicente Jara Vera, bacharel em Teologia, membros da RIES, especialista em magia e ocultismo.

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