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Não se resolve problema de pobre vendendo museus

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Dom Mauro Morelli, protagonista na luta pela erradicação da fome e da miséria no Brasil, fala em entrevista sobre o Papa Francisco e seu contexto

“Alguns falam que a Igreja deve vender tudo que tem e doar o dinheiro para os pobres. Essa é uma conversa um tanto desqualificada, porque não se resolve problema de pobre vendendo museus.”

 

Essa é afirmação é de Dom Mauro Morelli, bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti, no Rio de Janeiro. O bispo é um dos expoentes da luta contra a fome e a miséria no Brasil. Ele concedeu entrevista à IHU On-Line, comentando sobre a recente viagem do Papa Francisco ao Brasil.

 

Francisco é um bispo que Deus colocou num submundo de periferia, por isso o apelo dele é voltar-se para um mundo de periferia. Fiquei contente de ver que o Papa entrou na casa das pessoas que moram na favela, que deu atenção às pessoas, revelou que é humano. Tenho certeza de que para muitos que vivem em Roma, essa surpresa virou um susto. Ele disse recentemente que é uma pessoa indisciplinada e, portanto, ninguém em Roma está seguro, porque não se sabe como o Papa irá agir.”

 

“Ele acena para algumas questões que precisam ser entendidas. Entre elas, a primeira é resgatar a dimensão humana, porque, do contrário, tudo perde o sentido. A grande demonstração dele é a humanidade no sentido de ser gente, comportar-se como gente, comover-se como gente. Esse é o grande foco de sua transformação.”

 

“O Papa está dizendo que tudo na Igreja tem de ser trabalhado de forma participativa, corresponsável, sinodal. Essa dimensão é o reconhecimento de que nenhum de nós esgota a verdade, e que ela é maior do que todos nós.”

 

“Esses dias ele declarou que se sente enjaulado, e está expressando uma vontade de que nós, como seres humanos, possamos viver com liberdade, sem se amarrar a estruturas, conveniências.”

 

“Alguns falam que a Igreja deve vender tudo que tem e doar o dinheiro para os pobres. Essa é uma conversa um tanto desqualificada, porque não se resolve problema de pobre vendendo museus. Além do mais, a Igreja tem uma herança histórica, cultural e artística, que não pode ser jogada fora. Se o Papa quiser se livrar disso, esse será um processo lento para encontrar uma equação adequada. Trata-se de um assunto complexíssimo.”

 

“Particularmente penso que se o Papa, nesse momento, conseguir separar os assuntos diplomáticos relacionados à Santa Sé, à ONU e a governos do processo de constituição da Igreja, já seria um grande passo. Minha sugestão é de que as Comissões de Justiça e Paz sejam compostas por leigos; não colocaria bispos e cardeais para realizar essas atividades. Inclusive, nomearia um primeiro ministro para cuidar dessas questões. É interessante que a Igreja possa participar de organismos da ONU, porque há muitas questões sendo debatidas.”

 

“Nós chegamos, na Igreja, a um paralelismo. O grande problema dos governos e das instituições é que se chegou num grau de burocracia que ninguém consegue operar. Estamos chegando a um impasse na capacidade de funcionar. Por isso, é importante que o Papa mantenha a sua humanidade. Esses dias ele falou que não pode ir para rua, quer dizer, em que ponto chegamos se o pastor da Igreja de Roma não pode mais andar na rua?”

 

“Obviamente, não podemos ignorar a história, mas o Papa pode mudá-la. Francisco desmistificou o papado, mostrando que o Papa também é gente. Além do mais, ele está dizendo que a Igreja está cheia de estruturas velhas e é preciso mudá-las.”

 

“Por causa da convivência com os pobres, Francisco percebeu quais são as questões importantes. E a prioridade dele é estar junto desse povo, dar atenção a ele, incentivar que levante e caminhe. O Papa está dizendo para a Igreja: ‘Saia de si mesmo e vá para a periferia’.”

 

(Entrevista completa em IHU On-line)

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