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Um olhar de esperança

ARIS MESSINIS

Silvonei José Protz | Mon Sep 02 2013

O povo sírio já vive um inferno e não precisa de mais fogo para tocar o fundo do abismo

“Faço um apelo à comunidade internacional, para que se mostre mais sensível a esta situação trágica e faça todo o possível para ajudar a amada nação Síria a encontrar uma solução para a guerra que semeia morte e destruição”. 

No último domingo o Papa Francisco, durante o Angelus na Praça São Pedro lançou um novo e forte apelo pela paz na Síria, onde se respira ventos de guerra. A dor e a preocupação expressas pelo Santo Padre se unem a de tantos homens e mulheres de boa vontade em todas as partes do mundo, que vêem neste difícil momento a “loucura de uma possível guerra”. Naturalmente, se olharmos para esses mais de dois anos de combates fratricidas em território sírio, com mais de 100 mil mortos, das quais 7 mil crianças e 4 milhões de refugiados e deslocados, podemos afirmar que a guerra já se iniciou e quase na total indiferença da comunidade internacional. Os gritos de dor e medo daquele povo ainda não tocaram a sensibilidade de quem pode ajudar a construir um caminho de diálogo que leve à paz

A voz do Papa Francisco se ergue como voz daqueles que não tem voz, de quem, perdido na noite, tentando fugir de bombas e violências tem no coração o único desejo, salvar sua família e viver em paz. Nestes últimos dias, após as terríveis imagens que giraram o mundo de mais de 1200 pessoas mortas, intoxicadas, alguma coisa ocorreu: parece que os potentes da terra descobriram que por debaixo da fumaça na Síria, há fogo. As 100 mil mortes até o momento não tocaram o coração e não chamaram a atenção da comunidade internacional. Foram gritos que se perderam nas noites da indiferença.

Agora, a guerra na Síria está prestes a “ultrapassar as fronteiras”, – já chegou ao Líbano – com a possível “atitude” de salvar o “salvável” com ações militares precisas para deter novas mortes; ações que certamente vão provocar novas mortes. Assim, evito novas mortes, causando novas mortes.

Para sintetizar: Estados Unidos, Grã Bretanha, França, de um lado, querem fazer com que o regime de Assad pague – segundo eles – pelo uso de armas químicas. Do outro a Rússia e Irã dizem não, e tentam com a diplomacia contornar a situação. O Irã já traçou a sua pessoal “linha vermelha” e advertiu Washington: “se atacar a Síria, esperem consequências muito pesadas”. Neste meio está a ONU e seus inspetores presentes na Síria, que não encontram um ponto de convergência. A Rússia já disse que colocará seu veto em uma possível ação de guerra.

Dias atrás o Papa Francisco disse que “não podemos dormir tranquilos enquanto houver crianças que morrem de fome e idosos que não têm assistência médica”; podemos acrescentar que não podemos dormir tranquilos quando a vida de milhões de pessoas está em jogo numa “aventura sem retorno”; quando a voz de canhões e bombas toma o lugar do diálogo e do respeito pelo outro. A situação na Síria, que diz respeito a toda comunidade internacional poderá fazer com que despenque em segundos, uma estabilidade frágil que hoje se verifica no Oriente Médio. Os anseios de paz para aquela martirizada paz estão traduzidos nas palavras do Papa Francisco que em nome dos católicos e homens de boa vontade, pede, implora, dêem espaço ao diálogo e não às armas; dêem espaço ao bom senso e construam estradas, pontes que levem à compreensão.

O grito das crianças sírias, vítimas inocentes dessa trágica guerra, deve tocar o nosso coração, deve tocar o coração da comunidade internacional. Não podemos mais ficar indiferentes, em silêncio diante desse grito. A comunidade internacional deve fazer todo o possível para que novas imagens de tragédias como a da Síria não se repitam. É preciso encontrar os meios mais adequados e mais oportunos, que não compliquem a situação. O som das bombas não deve sufocar o grito de quem sofre. O povo sírio já vive um inferno e não precisa de mais fogo para tocar o fundo do abismo. Também o Patriarca greco-católico de Antioquia, Gregorio III Laham, pediu que todos ouçam o apelo do Papa Francisco pela paz na Síria. Se os países ocidentais desejam criar uma verdadeira democracia devem construí-la com a reconciliação, com o diálogo entre cristãos e muçulmanos, não com as armas. 

A palavra diálogo parece ter sido esquecida, chegou a hora de recuperá-la, dela depende a vida de muitos inocentes.



(Publicado em Portal Ecclesia, no dia 31 de agosto de 2013)

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