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O renascer da esquerda

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Recuperar a luta pela igualdade, pela justiça e pela fraternidade exigirá um esforço titânico, que deve ir além da razão secular e do materialismo

marxismo coincidiam escrupulosamente, era a consideração de que o mundo não consiste mais que no material e que, portanto, deve ser explicado exclusivamente em termos materialistas. Se o material estrutura e explica todo o panorama, a matéria se torna a realidade mais importante, e a ela devem conformar-se nossas esperanças. O materialismo é sobretudo uma "terapia do desejo", capaz de controlá-lo, reduzi-lo e mantê-lo dominado. Dessa forma, a única salvação que cabe esperar é a que pode vir da política, que é a arte da gestão do material, do possível. Uma boa gestão tornará impossível que ocorra o imprevisto. Não existe nenhum outro ópio mais eficaz para o povo que situar a política no lugar da religião.
 
O marxismo se apresentava como a alternativa vencedora. À luz das suas explicações científicas, que previam o desenvolvimento dos conflitos econômicos até a chegada da vitória do proletariado, parecia estúpido apostar em outro cavalo. Seria preciso ser verdadeiramente um inimigo do povo, um ferrenho conservador para tentar opor-se não a uma ideologia concreta, mas à irrefreável marcha da história, que havia se tornado agora marxista – ou pelo menos era o que parecia.
 
Com o passar dos anos, o marxismo, como corrente ideológica, viu-se obrigado a acompanhar as mudanças das circunstâncias, a evoluir. O primeiro problema que enfrentou foi com o impensável descumprimento de algumas das leis econômicas que havia elaborado, precisamente das mais "macroeconômicas". O sistema capitalista não só não sofria crises cada vez com maior frequência e gravidade, senão que conseguia que fossem distantes no tempo e encontrava vias – certamente, não infalíveis, como bem sabemos – para prevê-las e solucioná-las. Passadas algumas décadas, parecia claro que o capitalismo não sucumbiria por si só.
 
Este fato, cada vez mais evidente, produziu uma grandíssima crise nos partidos que tinham sido constituídos no alvorecer do marxismo. Alguns – a maioria até o final da 2ª Guerra Mundial – propuseram agir sobre as instituições para provocar o agravamento da situação, até torná-la insustentável. Eram os partidários da tomada violenta do poder, das revoluções, do terrorismo, das greves políticas indefinidas, em suma, da luta contra a opressão. Outros, ao contrário, começaram a perder a fé em uma vitória total e imediata e começaram a pensar em um marxismo "pós-marxista", mais pragmático.
 
Eduard Bernstein (1850-1932), que é o pensador que mais influenciou os partidos socialistas e comunistas europeus atuais – muito mais que o próprio Marx, que é para eles pouco mais que aquele avô romântico que lutou na guerra por uns ideais que agora carecem de sentido –, atreveu-se a indicar e a demonstrar que os postulados científicos do mestre eram previsões extremamente contingentes e que não se cumpririam. Não tinha sentido esperar que o capitalismo se rompesse, mas, atendendo à nova situação política estabelecida pelos sistemas de partidos, era mais adequado acomodar-se e prosperar em seu interior. À vista de que os proletários eram numericamente mais, sem dúvida o socialismo triunfaria nas eleições e poderia iniciar um programa de reformas para melhorar, pouco a pouco, a vida das pessoas. Para isso, contava com um poderoso instrumento, que ainda podia ser um contrapeso frente ao mercado: o Estado. O objetivo já não seria o fim do Estado após a necessária ditadura do proletariado, mas a sobrevivência de um Estado forte, que fosse domando o mercado. Aceitava-se, então, a estrutura própria do capitalismo e as partidocracias. Assim nascia a social-democracia.
 
Que o marxismo
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