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O renascer da esquerda

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Recuperar a luta pela igualdade, pela justiça e pela fraternidade exigirá um esforço titânico, que deve ir além da razão secular e do materialismo

tinha como uma das suas evoluções a "ditadura do partido" não deve nos escandalizar hoje, já que faz parte do desenvolvimento de muitos dos projetos políticos fascistas que surgiram nas primeiras décadas do século XX. O leninismo, que para muitos foi uma renovação das esperanças marxistas, é um filho fiel ao seu tempo, e Lênin, que desde o começo se mostrou como um ditador intransigente e cruel, um dos piores criminosos políticos do século passado, também. Quando Stalin quis tornar a União Soviética o maior e mais sofisticado campo de concentração, não conseguiu utilizar os Gulag que já haviam sido construídos, porque estavam lotados.
 
Agora nos interessa o presente. Após a 2ª Guerra Mundial, todos os partidos que se consideravam de esquerda foram acolhendo a inspiração do revisionismo de Bernstein e abandonando de coração a utopia que, por outro lado, não tem lugar em corações materialistas, por definição.
 
O resultado desta adaptação do marxismo aos Estados de partidos burgueses está à vista de todos. Em primeiro lugar, foram abandonados, por puro pragmatismo, os ideais internacionalistas. As eleições são nacionais e é nelas que se decide a distribuição do poder, que é o que interessa agora. Se cada um busca seu próprio interesse, não cabe esperar que produza muitos votos chamar de "camaradas" os que morrem de fome nas profundezas da África. Precisamente por isso, os partidos socialistas se transformaram em modernos aspiradores que pegam de tudo e não representam nenhum segmento social, nem sequer os pobres ou menos favorecidos. Propriamente, o deputado representa a elite política que domina o seu partido e que lhe dita em que deve votar em cada caso.
 
O que resta do que um dia foi a esquerda aceita e defende sem hesitação o capitalismo, já que acredita, com toda seriedade e convicção, que é o melhor modelo possível, ou talvez o único, e só se diferencia dos que se denominam liberais por matizes relativos ao peso que o Estado deve exercer sobre nossos ombros. De fato, os socialistas e "eurocomunistas" querem utilizar os instrumentos estatais para converter seu desgastado moralismo em legislação, e o laicismo simplista na religião de um novo estado confessional, com o qual a pessoa já não sabe quem está à direta de quem, ou se é que nenhum dos dois, liberais e pós-marxistas, deixa à sua direta algum espaço que possa ser ocupado por alguém.
 
Recuperar a luta pela igualdade, pela justiça e pela fraternidade exigirá um esforço titânico, que deve ir além da razão secular, muito além do materialismo e dos atuais Estados de partidos. Tememos que os protagonistas do panorama político atual não nos sejam de grande utilidade, já que todos eles, inclusive os sindicatos de classe (a dominante), são conservadores no sentido mais literal – que é aqui o mais real.
 
Agora só existe a direita, e será necessário propor um novo programa político, radicalmente diferente, que responda a uma nova época, na qual o mercado novamente quer nos converter em animais em evolução, por meio da imposição de transformações tecnológicas que se sucedem, e nos constrange utilizando a coação social, a um ritmo frenético.
 
É necessária uma nova terapia do desejo, que nos torne livres – partindo da raiz da nossa alma imortal – do consumismo. Não podemos deixar que o mercado e seus sequazes, utilizando agora o Estado como seu aríete, nos imponham sua cega e triste concepção da vida, que condena tantos à exclusão, à injustiça e à morte por inanição. Façamos nossas as palavras do poeta Miguel Hernández, e adotemos aquele lema legendário: "Para que venha o pão justo à boca da fome dos pobres, aqui estou, aqui estamos".
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