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Parem o ataque contra Damasco antes de que seja tarde demais

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Bernardo Cervellera - AsiaNews - publicado em 09/09/13

Um ataque militar neste momento seria a faísca que provocaria uma violenta instabilidade no Oriente Médio, que duraria muitos anos

Há muitas contradições na versão dos EUA sobre o uso de armas químicas. Não querem esperar sequer os resultados da investigação da ONU. É falso pensar que um ataque militar ajudará a conferência de paz. No entanto, ajudará os islamitas, que pretendem dominar a oposição.


Os EUA, a Grã-Bretanha, a França e a Liga Árabe têm pressa em lançar uma ação de castigo contra a Síria: ao seu ver, ela é culpada por ter usado armas químicas contra a população na periferia de Ghouta (Damasco), no dia 21 de agosto. Quem acusa a Síria são os rebeldes, que espalharam na internet imagens de pessoas mortas por asfixia, de crianças envoltas em mortalhas, de jovens com convulsões ou com máscaras de oxigênio.


Quase imediatamente, a mídia recordou que, com o uso de armas químicas, haviam ultrapassado a "linha vermelha" traçada por Obama para uma intervenção militar contra Damasco.


Enquanto a frota dos EUA está se posicionando na costa da Síria, decide-se também a forma de intervenção: durará poucos dias; atingirá objetivos escolhidos (comunicados pelos rebeldes); não servirá para fazer Assad cair; não freará a conferência de paz que a ONU e a Liga Árabe estão preparando com lentidão. Pelo contrário, segundo fontes árabes, um ataque contra a Síria facilitará a realização da conferência!


Do dia do ataque de Ghouta até hoje, houve um crescimento de declarações, de ameaças e de promessas para castigar os "crimes contra a humanidade", como a ONU classificou o uso de armas químicas. Ao mesmo tempo, houve um deslizamento contínuo rumo à conclusão óbvia de que o responsável pelo ataque químico foi o regime de Damasco.


No dia 25 de agosto, falando aos fiéis na Praça de São Pedro, o Papa Francisco expressou "grande sofrimento e preocupação" pela "guerra entre irmãos" na Síria. Ele pediu à comunidade internacional que "se mostre mais sensível com relação a esta trágica situação e coloque todo o seu empenho em ajudar a amada nação Síria a encontrar uma solução para uma guerra que semeia destruição e morte".


É precisamente em nome desta "sensibilidade" – que implica em racionabilidade e solidariedade – que destaco algumas contradições que nos fazem estar contra o ataque programado com tanta velocidade, mas sem muita inteligência.


Para os Estados Unidos, a "prova" de que Damasco lançou armas químicas vem da interceptação de uma conversa telefônica de uma personalidade do Ministério de Relações Exteriores sírio, que pedia notícias sobre um ataque com armas químicas – uma prova indireta, mas insuficiente.


Além disso, estas "provas" não foram compartilhadas com ninguém até agora, nem sequer com a ONU, e o que se sabe procede de declarações anônimas a alguns meios de comunicação.


Pelo contrário, existem declarações e documentações de satélite da Rússia que mostram dois mísseis com ogivas químicas lançados de uma área dos rebeldes, Douma, e que caem sobre Ghouta, onde mataram centenas de pessoas.


Os investigadores da ONU presentes na Síria começaram seu trabalho de coleta de evidências do uso de armas químicas. No início, tiveram dificuldades porque – na área controlada pelos rebeldes – foram alvo de algum atirador. A precipitação em querer começar o ataque faz esquecer que estes investigadores estão lá para ver se houve um ataque químico e (tomara, mas não é tarefa sua) coletar indícios sobre o suposto responsável.


Mas os EUA e a Grã-Bretanha desprezaram estas investigações, dizendo que, depois de alguns dias, as provas de um ataque químico se evaporam. Na verdade, segundo os especialistas, os traços de gás sarin permanecem no ar, nas paredes, no cabelo, na pele das vítimas, e podem permanecer durante meses. Esperar a conclusão da investigação da ONU, portanto, pode dar alguma luz sobre muitos aspectos do ocorrido.


Inclusive há especialistas militares e médicos que duvidam até da veracidade das imagens mostradas pelos rebeldes. Se o gás sarin continua ativo na pele das vítimas, como é possível que os voluntários e médicos que cuidam delas apareçam tranquilamente, sem nenhuma máscara de proteção? E como há tanta pressa agora por castigar os responsáveis da feroz tragédia de Ghouta, se já deixaram mais de 100 mil pessoas morrerem em dois anos de guerra, sem escandalizar-se?


Acho que não é "tarde demais" para dar à ONU o tempo necessário para a investigação, também porque, precisamente no dia 28 de agosto, Ban Ki-moon disse que seus especialistas fizeram "descobertas válidas".


Penso ser imprudente (ou uma loucura) dizer que um ataque militar facilita a conferência de paz. O ataque militar ajudaria certamente os rebeldes, que, neste momento, estão cada vez mais perdendo terreno, apesar da grande ajuda bélica dos Estados ocidentais, da Arábia Saudita e do Qatar.


Além disso, o reforço da frente da oposição não significa automaticamente uma ajuda somente à parte laica do Free Syrian Srmy, mas também aos jihadistas, ligados à Al-Qaeda. Um dos motivos pelos quais não conseguem realizar a conferência de paz é precisamente o conflito entre estas duas almas, a laica e a islamita, sobre quem deve representar a oposição. O ataque militar talvez possa enfraquecer Assad, mas não resolveria o problema que existe entre os rebeldes: pelo contrário, o intensificaria.


Finalmente, uma pergunta sobre os possíveis cenários do Oriente Médio. No âmbito geopolítico, existe o risco de uma guerra na região (se não for mundial) com a Síria, Líbano (Hezbollah), Irã, Rússia, China, de um lado, e os EUA, França, Grã-Bretanha, Israel, Arábia Saudita, Qatar, Turquia etc., do outro.


No âmbito local, não se pode imaginar o que poderia ocorrer na Síria, agora que se tornou o feudo de muitos integristas muçulmanos: alguns falam de uma desintegração com base na etnia; outros, que nascerá um Curdistão com partes da Síria, Iraque, Turquia…


De qualquer maneira, um ataque militar neste momento seria a faísca que provocaria uma violenta instabilidade no Oriente Médio, que duraria muitos anos. Com o resultado de empobrecer estes países das melhores mentes da sociedade, sejam elas cristãs ou muçulmanas.

(Artigo publicado em AsiaNews e reproduzido com autorização)

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