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Existe uma ruptura entre a fé e a ecologia?

José Miguel Yturralde - publicado em 11/09/13

Muitos católicos ignoram o tema da ecologia, enquanto outros buscam respostas em crenças que se afastam da fé cristã

Quando eu estava na faculdade, lembro que vários estudantes de biologia se afastaram da sua cristã ao pensar que ela era incompatível com o conhecimento científico que iam adquirindo. Em um encontro, um colega tirou sarro da Igreja por nos ensinar "a ideia idiota de que o mundo foi criado em 7 dias". Certamente, em seu pobre conhecimento religioso, ninguém lhe explicou que o Gênesis é um livro escrito com muito simbolismo e que a Bíblia em geral é um manual de salvação, não uma enciclopédia acadêmica.


Do primeiro capítulo do Gênesis, podemos aprender, por exemplo, que Deus é o criador do universo. Sem importar se o processo demorou milhões de anos, Ele continua sendo seu autor. Ao terminar cada dia, lê-se que tudo o que foi criado "era bom"; e, quando Deus cria o ser humano, Ele o faz "muito bom".


No segundo capítulo, está escrito que o homem deve cultivar e cuidar da criação. Isso seria uma excelente fonte de inspiração para qualquer cristão estudante de ciências biológicas, mas nem sempre é o que acontece.


Parece existir uma ruptura entre e ecologia no mundo. Muitos católicos não se importam com o meio ambiente e não fazem nada para cuidar dele. Não percebem que ser administradores responsáveis da criação é uma boa maneira de agradar Deus.


No outro extremo, existem os apaixonados pela Mãe Terra, que pensam não encontrar nos ensinamentos da Igreja uma preocupação suficiente com relação à natureza. Isso não significa que a Igreja não diz nada sobre o cuidado da criação; de fato, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja tem um capítulo completo dedicado ao tema, mas quem o leu? Então, estas pessoas preenchem seu vazio com a Nova Era, a "ecologia profunda" ou qualquer outra filosofia estranha.


É verdade que é complicado, atualmente, encontrar textos cristãos que reflitam sobre o problema ecológico. Levo anos pesquisando sobre o tema e só encontrei 8 livros, a metade de autores protestantes e os demais de autores católicos, mas que foram questionados (alguns gravemente) por não se aterem ao magistério da Igreja.


Um dos autores católicos que mais refletiu sobre o tema foi Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), sacerdote jesuíta, paleontólogo e filósofo. Porém, suas obras apresentavam ambiguidades e erros doutrinais e acabaram sendo proibidas.


No entanto, mais recentemente, alguns teólogos resgataram aspectos da sua teologia que não contradizem os ensinamentos da Igreja, e inclusive o Papa Bento XVI se referiu de maneira positiva ao teólogo francês durante uma homilia em Aosta (Itália), em 2009:


"A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final, teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva.


E peçamos ao Senhor que nos ajude a ser sacerdotes neste sentido, para ajudar na transformação do mundo, em adoração a Deus, a começar por nós mesmos. Que a nossa vida fale de Deus, que a nossa vida seja realmente liturgia, anúncio de Deus, porta na qual o Deus distante se torna o Deus próximo, e realmente dom de nós mesmos a Deus."


Um dos seguidores de Chardin foi o sacerdote passionista Thomas Berry (1914-2009), famoso historiador cultural e "ecoteólogo". Este autor mistura a doutrina católica com a ecologia profunda, a cosmovisão dos nativos americanos e o xamanismo. Definitivamente, suas obras não são recomendáveis para o leitor que conhece pouco de sua , pois poderia se confundir.


Seguindo esta mesma linha, encontra-se o ex-sacerdote dominicano Matthew Fox (1940-). Ele é um dos principais expoentes do movimento chamado "Espiritualidade da Criação", inspirado em alguns místicos católicos, mas que inclui critérios do budismo, judaísmo, sufismo e tradições indígenas, buscando um "ecumenismo profundo".


Em 1983, a hierarquia da Igreja começou a analisar a linha teológica de Fox e ele foi proibido de lecionar durante um ano. Em 1993, foi expulso dos dominicanos por desobediência e entrou na Igreja Episcopal. Sua posição teológica pode ser categorizada dentro do monismo e do paneteísmo (não confundir com panteísmo).


Contemporâneo a Fox, temos o ex-sacerdote franciscano brasileiro Leonardo Boff (1938-). Ele é um dos autores mais famosos da Teologia da Libertação, mas, desde que participou da cúpula do Rio de Janeiro sobre o meio ambiente (1992), sua reflexão se inclinou fortemente à ecologia. Neste período, ele decidiu abandonar a Igreja, depois de ser sancionado pela Congregação para a Doutrina da .


Boff faz uma distinção entre ecologia ambiental, social e mental, mas, segundo ele, todas devem culminar em uma ecologia integral. Também defende o conceito de paneteísmo, que indica que tudo está em Deus e Deus está em tudo – diferente do panteísmo, segundo o qual tudo é Deus.


Como observamos, a maioria dos autores católicos que refletem sobre a ecologia o faz à margem da ortodoxia e, em alguns casos, de maneira abertamente oposta aos ensinamentos da Igreja.


A única maneira de garantir que um texto que vamos ler está livre de erros em matéria de doutrina e moral católica, é que conte com um selo oficial de aprovação da Igreja. O "imprimi potest" ("pode ser impresso") se aplica aos membros de ordens religiosas e significa que a obra foi revisada por um superior maior.


O "nihil obstat" ("nada se opõe") indica que a obra foi analisada e aprovada por um especialista da diocese e não foram encontrados erros doutrinais ou morais nela. Finalmente, a obra recebe o "imprimatur" ("imprima-se"), que é a aprovação final do bispo.


Dos livros que encontrei, infelizmente nenhum conta com estes "selos de qualidade", razão pela qual devem ser lidos com cautela, contrastando-os sempre com o ensinamento oficial da Igreja.


É claro que ainda temos muito trabalho pela frente, para que, no futuro, nossos filhos encontrem em suas universidades textos e professores que os ajudem a entender que não há maior motivação para ser ecologista que a gratidão a Deus pelo dom da Criação.

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