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Guerra e paz: O que pensa a Igreja?

Cardeal Odilo Scherer - Arquidiocese de São Paulo - publicado em 16/09/13

A paz tem alguns pressupostos, sem os quais ela não existe e sua manutenção fica muito comprometida. Na concepção cristã, há uma ordem natural nas coisas

No dia 7 de setembro, semana passada, o papa Francisco convidou cristãos e não-cristãos para um dia de jejum e oração pela paz na Síria; uma grande multidão o acompanhou, na praça de São Pedro e no mundo inteiro, durante uma vigília de quase 5 horas.

O Papa opôs um claro “não” à lógica da guerra e ao uso das armas para a solução dos conflitos: a violência traz mais violência; a guerra não é capaz de produzir a paz! E convidou as partes em luta a deporem as armas, para encontrar uma solução negociada para o conflito; também incitou governantes e autoridades a não pouparem esforços para fomentar a cultura do encontro, do diálogo e da negociação, única via digna para resolver os conflitos.

As palavras do papa Francisco somam com os constantes apelos de seus predecessores a favor da paz. João Paulo II foi uma voz firme e incansável contra os humores de guerra e alertou que, com a guerra, são desencadeados conflitos novos e mais complexos; Paulo VI, na sede da ONU, em 1965, desafiou os responsáveis das nações: “nunca mais uns contra os outros, nunca mais! Nunca mais, a guerra, nunca!” João XXIII, nos anos 60, escreveu a magistral encíclica Pacem in Terris (A paz na Terra…) onde indicou linhas para prevenir e evitar as guerras e para assegurar a paz. E lembrou: “nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra”.

Em 1965, o Concílio Vaticano II, já na sua fase final, publicou a importante Constituição Pastoral Gaudium et spes (A alegria e a esperança…), na qual tratou longamente do esforço necessário para evitar a guerra e para preservar a paz. Já naquela ocasião constatava: “a humanidade, cada vez mais interdependente e unificada, consciente desta unidade, precisa assumir em conjunto a responsabilidade pela construção de um mundo mais humano para todos, em todas as partes da Terra. Isso só será possível, se todos quiserem realmente a paz” (GS, 77).

A Igreja, através dos ensinamentos do seu Magistério, tem-se manifestado constantemente contra a guerra e a favor da paz; tem insistido no desarmamento e no controle mais severo do comércio de armas e da corrida armamentista; seu esforço também está voltado para a cultura da paz e a promoção das condições necessárias para a preservação da paz. Condenou também o terrorismo e o desprezo da vida humana.

O triste é que o progresso científico e tecnológico é usado para aperfeiçoar ainda mais os instrumentos de guerra, destruição e morte! A guerra é sempre uma desumanidade e traz consigo um sentimento de derrota para a civilização. O Concílio Vaticano II qualificou como perversas as ordens e ações que contrariam deliberadamente o direito natural dos povos, sobretudo aquelas que visam metódica e sistematicamente exterminar povos, nações ou minorias étnicas inteiras: “são crimes hediondos, que devem ser condenados com veemência” (GS 79).

No entanto, a Igreja reconhece o direito à legítima defesa a quem for injustamente agredido, esgotadas todas as possibilidades de entendimento pacífico. “O governo e todos os que dele participam têm mesmo o dever de proteger o povo e de tomar as mais graves decisões em face a situações, também de extrema gravidade” (cfr. GS 79).

A paz tem alguns pressupostos, sem os quais ela não existe e sua manutenção fica muito comprometida. Na concepção cristã, há uma ordem natural nas coisas, que o homem deve reconhecer e respeitar; essa ordem precisa ser progressivamente traduzida no convívio social para que os projetos humanos estejam sintonizados com o desígnio de Deus sobre o homem e o mundo. “A paz é obra da justiça”, já anunciava o profeta Isaías alguns séculos antes de Cristo (Is 32,7); hoje explicitamos isso, afirmando que a paz também é fruto do respeito à dignidade humana e aos direitos humanos, da solidariedade e do amor.

Pode alguém não querer paz? Provavelmente sim, na medida em que não aceita as condições essenciais para a concretização da paz. Os mais altos ideais e valores podem ser comprometidos pela vontade humana viciada, a sede de poder, os interesses particularistas e as diversas paixões e vaidades em luta, que se sobrepõem ao bem da paz; por isso, a preservação da paz requer constante vigilância da parte de todos. Ela não é um bem estavelmente estabelecido, mas uma tarefa jamais concluída.

A preservação da paz requer o propósito firme de respeitar a dignidade das pessoas e povos e a disposição efetiva de exercer a fraternidade. E, nesse sentido, o papa Francisco apelou para a força moral que, no fim das contas, precisa ter maior peso que todas as eventuais razões a favor da guerra; convidou as partes em luta à grandeza de alma para aceitarem o encontro com os adversários, o diálogo ao redor de uma mesa de negociação e a busca do entendimento; desafiou ainda à coragem de reconhecer os erros, de pedir perdão e de perdoar.

A reconciliação é a única forma de sanar as feridas abertas pela guerra. Seria demais esperar isso do ser humano e de povos em situação de guerra? Seria impensável que os inimigos possam mudar de postura e começar a se reconhecer como membros da mesma família humana?

É um fato: os conflitos acompanham a história do homem desde que ele tem consciência de si; e, no nosso mundo, os pressupostos para a paz ainda são muito precários e nem sempre compartilhados por todos. Mas não podemos deixar de crer que a via do diálogo e da reconciliação é a mais razoável para a solução dos conflitos; e que chegará o dia em que as armas de guerra serão inutilizadas e transformadas em instrumentos de trabalho, conforme a bela visão do profeta Isaías: “de suas espadas fabricarão enxadas e de suas lanças, foices para a ceifa” (cfr. Is 2,4).

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