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Liberdade para quê? O grito de um profeta do século XX

georges bernanos – pt

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Enrique Chuvieco - publicado em 23/09/13

Recordamos os 65 anos de falecimento do lúcido polemista George Bernanos, que utilizava uma linguagem vigorosa e combativa contra a mediocridade

Recordamos recentemente o 55º aniversário do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, fato que provocou a indignação de muitos, entre eles, do escritor francês George Bernanos (1888-1948), profético sobre a civilização ocidental em muitos aspectos, plasmados em sua "Liberdade para quê?". Neste ano, comemoramos os 65 anos de falecimento deste lúcido polemista, que utilizava uma linguagem vigorosa e combativa contra a mediocridade.

Católico de convicções profundas, ele observou o desnorteamento dos países continentais, quando sublinhou que "a Europa não está somente dividida, mas descomposta (…), não só por não estar disposta a sacrificar seus interesses particulares em favor dos gerais (…), mas porque seu pavor retrospectivo não a faz exclamar com todos: O que estamos fazendo, meu Deus?", em referência à 2ª Guerra Mundial, mas aplicável também ao momento convulso e errático atual da União Europeia.

O autor de "Diário de um pároco de aldeia" foi ao núcleo da condição humana, repleta de pequenos heroísmos e vilanias, e reconhece as marcas do Mistério ("Tudo é graça", muito além do pecado e dos defeitos, como afirma seu personagem), o único caminho de sentido e salvação que se manifesta em tudo.

Esta foi a característica dos existencialistas, mas não a única, pois se bifurcou entre os que palpavam a presença de um Deus que não havia abandonado o ser humano – e nesta lista se encontra o próprio Bernanos, Mauriac, Claudel, Peguy e Graham Greene, por exemplo; e aqueles que rejeitaram a existência de qualquer sentido no devir do mundo, como Sartre, Pirandello, Beauvoir e Camus – ainda que neste último haja traços da busca por algo maior.

Ambos os caminhos estruturam boa parte da cosmovisão ocidental em suas últimas décadas, mas é o segundo que conseguiu impor-se, primeiro pela via da ideologia de esquerda, e atualmente estabelecendo um pragmatismo econômico sem alma, que leva a entronizar o lucro, e instaurando novos direitos humanos (aborto, eutanásia, casamento gay etc.).

"O Estado – proclamou Bernanos – não teme mais que um rival: o homem livre (…); não o refratário e brutal, não o anarquista intelectual, que é o mais ridículo de todos os intelectuais (…). Falo do homem livre, do homem capaz de impor disciplina a si mesmo, ainda que tenha de pagar com a solidão e a pobreza por este testemunho interior (…); do homem que se dá ou recusa, mas jamais se deixa usar."

Ele não se referia a seres imaculados. Mas afirmava que, quando diminuem, "triunfa o espírito de legalidade sobre o espírito de justiça, a obediência se torna conformismo e as instituições que deveriam proteger os indivíduos e as famílias são sacrificadas em prol do seu furioso crescimento". Este lúcido argumento tem constatação diária em ações governamentais e de partidos.

A liberdade de Bernanos o levou a avaliar atos políticos, culturais e sociais da direita francesa (definia-se católico e monárquico), com quem rompeu em 1932. Durante sua estadia em Maiorca (cidade que depois lhe dedicou uma rua) em 1936, elogiou a ideologia falangista, que rejeitou furiosamente horrorizado pela selvagem repressão das tropas de Franco, sem que houvesse previamente ações injustas por parte do governo republicano da Ilha antes da revolta: "Vocês injuriam Cristo, fazendo-se chamar de cristãos! E são inimigos da Igreja, ao se unir a Hitler!".

Alguns dos seus comentaristas consideram Bernanos pessimista, devido aos seus desencantos políticos e sociais, mas ele também revela luminosidade e dignidade em seus personagens, sem omitir suas misérias. Muito além das normas e ritos cumpridos para satisfazer consciências, ele encontrou a verdadeira alegria na relação com Deus em sua Igreja, na qual era possível encontrar a força para levar uma vida digna da condição humana e amar o próximo.

Em suma, ele seguiu à risca o clássico aforismo "Conhece-te a ti mesmo" e, assim, reconheceu no divino o fundamento para uma vivência profunda que supera limitações próprias e alheias mediante o amor.

Para Bernanos, a liberdade é o dom mais misterioso dos concedidos por Deus, indispensável para que o homem seja verdadeiramente homem, isto é, capaz de utilizá-la, bem ou mal. Isso deixa de ser uma vertigem existencial, que nos leva ao abismo, quando se une ao acontecimento da Encarnação de Cristo mediante o amor.

Como confirmaram suas religiosas em "Diálogo de carmelitas", subindo à guilhotina na Revolução Francesa, é disso que estamos feitos, é isso que ansiamos para nós e para os outros. "O inferno – dizia Bernanos na boca do pároco de Ambricourt – é ter deixado de amar. Mas, para um homem vivo, significa amar menos (…), também compreender menos, porque esta é uma maneira de amar (…). A inconcebível desgraça destas pedras ardentes que foram homens é que não tenham nada para compartilhar entre si".

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