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Deus, a Voyager e por que ciência e Igreja não são tão incompatíveis

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Enrique Chuvieco - publicado em 24/09/13

O método científico produziu tantos progressos no conhecimento da ciência, que alguns se aferram a ele como o único caminho para conhecer a verdade

Ricardo Moreno Luquero, professor de ciências, secretário da Network for Astronomy School Education (NASE-IAU), da Organização Astronômica Internacional e autor de vários livros, questiona, nesta entrevista à Aleteia: "Por que a ciência experimental não começou no mundo grego, nem no chinês, no maia ou no árabe – ambientes nos quais havia tecnologia e cultura abundantes –, e sim na sociedade cristã?". Será que o cristianismo e a ciência, apesar de certa opinião contrária, não estariam tão distantes assim?

Recentemente, a sonda espacial Voyager 1 saiu do sistema solar. Ela continuará enviando dados do seu percurso ou se destruirá em breve?


Ela continuará enviando dados do ambiente em que se move: partículas, campos magnéticos etc. Ela viaja sem propulsor, apenas pelo impulso dado em seu encontro com Saturno, em 1980. A Voyager usará a pouca energia que lhe resta até 2020, para medir e enviar os dados. Depois dessa data, ficará muda e continuará seu caminho pelo espaço. Passará perto de uma estrela dentro de 40 mil anos, e a única mensagem que levará será um disco com sons gravados da Terra e algumas mensagens gráficas que tentam mostrar seu lugar de procedência.

Neste percurso, a Voyager obterá informação sobre a origem do universo?


Diretamente, não. São dados sobre o sistema solar e o meio interestelar. Mas talvez possa também ter alguma informação sobre a origem do universo.

Sobre a questão da origem, a teoria mais aceita é a do Big Bang. Os dados atuais continuam confirmando esta abordagem?


Sim. Não há nenhuma teoria alternativa séria. Porém, como costuma acontecer na ciência, há detalhes que ainda não compreendemos direito.

Com relação ao surgimento do princípio antrópico no cenário científico, que conclusões foram tiradas quanto à intervenção de Deus na criação do mundo?


É fato que o valor das constantes físicas parecem ajustadas para que haja vida na Terra. Alguns falam de que pode haver universos múltiplos, com outras constantes, e que nós vivemos no mais adequado, mas é uma teoria impossível de provar: no momento em que detectarmos outro universo, ele começará a pertencer ao nosso. Portanto, esta não pode ser considerada uma teoria científica.


A ciência experimental estuda como as coisas funcionam, e não por que existem ou por que têm esses valores. Eu acho mais racional explicar este ajuste não a partir da ciência experimental, mas da filosofia: o surgimento do homem sobre a Terra pode ser a causa final de uma criação por alguém inteligente. Mas, repito, é um raciocínio que não é científico experimental, mas filosófico.

Confirmar ou rejeitar a teoria criacionista sobre a intervenção de Deus poderia se justificar do ponto de vista científico experimental?


O que se entende por teoria criacionista? Se esta teoria significa que Deus intervém no mundo material como causa segunda, ou seja, similar a como a lei da gravidade faz, a ciência a rejeita: para explicar como as coisas funcionam, a ciência não precisa recorrer a Deus; o que ela precisa é de tempo e inteligência para descobrir os processos naturais envolvidos.


Mas entendida como crença de que existe um Criador, que formou do nada uma matéria com leis racionais, capaz de evoluir e de se auto-organizar, a ciência só pode dizer que é compatível com o que ela descobriu. O astrofísico Eddington usava o exemplo de alguém que pesca com uma rede com buracos de um metro: não é de se estranhar que não pegue peixes pequenos, e muito menos dizer que não existem só porque ele não os pescou com essa rede. Acontece o mesmo com a ciência: Deus não é seu objeto, nem o método experimental é o adequado. É outro terreno.

Atualmente, diviniza-se a ciência para questionar a intervenção divina no cosmos. Quais são as raízes desta intromissão?


De fato, o método científico produziu tantos progressos no conhecimento da ciência, que alguns se aferram a ele como o único método para o conhecimento. Mas é um erro. Para estudar a gripe ou o funcionamento do átomo, o método experimental é útil, mas para estudar o Dom Quixote, não. Nem para estudar os direitos humanos, nem a beleza, nem tantas outras coisas.


Por exemplo, suponhamos que alguém corta a cabeça de uma pessoa. A biologia nos explicará quais foram os tecidos seccionados, que é um ato incompatível com a vida etc. Mas ela não nos explicará se isso é bom ou ruim: este importante aspecto do fato precisa ser estudado a partir de outros campos, não com o método científico.

Em alguns círculos científicos se despreza a postura do cristianismo com relação à ciência. Como se justifica este posicionamento?


A Igreja Católica agiu incorretamente no caso Galileu. Mas foi um caso isolado. Alguns falam de Giordano Bruno, mas ele não era cientista: acreditava em magia, na revelação de espíritos e escrevia sobre teologia. Sua afirmação de que poderia haver muitos mundos habitados era consequência do seu panteísmo, não de um trabalho científico, que, no seu caso, era inexistente. Ele foi condenado pelas suas teorias sobre a Trindade.


Outros citam Miguel Servet, mas ele não foi condenado pela inquisição católica, e sim pela calvinista, e também por suas teorias teológicas, não pela circulação do sangue. E, no caso do evolucionismo, este nunca foi condenado pela Igreja.


A Igreja, em sua tarefa de defesa da verdade, é contra os atentados à vida e à dignidade humana – venham eles da ciência, dos poderosos ou de outras religiões. E isso me parece bom.

O que a Igreja e os cristãos ofereceram à ciência experimental para acabar com os preconceitos cientificistas?


Precisamos nos perguntar por que a ciência experimental não começou no mundo grego, nem no chinês, no maia ou no árabe – ambientes nos quais havia tecnologia e cultura abundantes –, e sim na sociedade cristã.


Provavelmente, isso tem muito a ver com a busca da verdade que havia entre os cristãos, o conceito da bondade e da racionalidade do mundo, bem como o de que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, ou seja, com uma inteligência capaz de compreender a criação.


De fato, os gigantes que começaram a ciência experimental foram crentes, assim como a maioria dos cientistas até o início do século XX. Por exemplo: Copérnico, Galileu, Kepler, Newton, Linnaeus, Volta, Ampere, Cauchy, Gauss, Pasteur, Edison, Marconi, Millikan, Einstein, Planck, Schrödinger, Compton, Penzias, Max Born…


Hoje, há cientistas crentes, agnósticos e ateus, mas talvez isso se deva a processos sociais e culturais mais complexos, pois ocorre o mesmo em outros âmbitos da sociedade: entre os arquitetos, economistas, e inclusive entre os taxistas e pedreiros.


Por outro lado, não podemos esquecer que pertenceram à Academia Pontifícia para as Ciências mais de 20 Prêmios Nobel (Rutherford, Bhor, Schrödinger, Plank etc.) e, atualmente, entre os 80 membros que a compõem, há ainda outros 20 Prêmios Nobel, inclusive seu presidente, o suíço Werner Arber.

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