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Corrupção e educação moral

Antonio Cruz/ABr

Cardeal Odilo Scherer - Arquidiocese de São Paulo - publicado em 26/09/13

O ladrão e o desonesto não nascem feitos, mas passam por um processo de “formação para o crime”; pequenas desonestidades não corrigidas preparam para atos delituosos sempre mais graves

Há algum tempo, os fatos de corrupção e desonestidade na gestão dos recursos públicos estão em evidência na opinião pública. No primeiro julgamento do “mensalão”, o STF pronunciou-se sobre a acusação de um enorme esquema de corrupção instalado nos altos escalões do Poder Federal e o povo pôde acompanhar tudo, em capítulos, pela televisão. Por decisão do mesmo STF, haverá uma segunda etapa no julgamento desse caso. É para ninguém ficar sem poder ver…

Mas não é o único caso; por vários cantos do Brasil pipocam acusações de desonestidade na gestão dos recursos públicos. Há para todos os bolsos e gastos… Será que a corrupção é maior agora do que no passado? Ou será que a polícia trabalha mais e sua ação ficou mais eficaz? Será que a maior divulgação dos crimes, ou de suspeitas de crimes, gera a impressão que o fenômeno da desonestidade está mais espalhado que nunca?

Certamente, não se pode atribuir esse fenômeno a uma causa apenas. Entre as várias causas, está a lentidão da Justiça, o que passa certa presunção de impunidade e leva a concluir que o crime compensa. Outra explicação para o aumento da desonestidade é a escassa educação para os padrões éticos de comportamento, onde o senso de justiça, de respeito pelo próximo e de retidão são desconsiderados.

Estaríamos diante de um relaxamento na formação da consciência ética e moral dos cidadãos? Será que isso ainda é objeto de educação? Quem se preocupa em educar para padrões éticos válidos para todos? Ainda há quem educa nas escolas sobre o que é bom ou mau, digno ou indigno, honesto e desonesto? Eis uma questão crucial.

Quem, sem ser logo contestado, ainda ousa afirmar valores éticos e morais universais e referenciais para todos?! Em tempos de individualismo e de subjetivismo, também os referenciais éticos da honestidade, da justiça, da dignidade e dos direitos acabam sendo relativizados e deixados para a decisão individual. E então estamos diante do caos ético.

A falta de uma educação voltada para comportamentos éticos e dignos é agravada pelo mau exemplo oferecido, infelizmente, muitas vezes por quem está em maior evidência. As palavras sobre educação das atitudes éticas são logo desmentidas pelos maus exemplos por causa da falta de ética.

O ladrão e o desonesto não nascem feitos, mas passam por um processo de “formação para o crime”; pequenas desonestidades não corrigidas preparam para atos delituosos sempre mais graves e expressivos. A consciência vai se habituando e já não reage mais.

Jesus, no Evangelho, nos previne contra o amor ao dinheiro, que pode se tornar uma verdadeira idolatria. E São Paulo diz que o amor ao dinheiro é uma verdadeira idolatria (cf Cl 3,5), pois leva o homem a dedicar toda a atenção e culto ao dinheiro. Leva mesmo a trair a própria consciência, a desobedecer aos mandamentos de Deus e a “vender a alma para o diabo’… A ganância e a avareza escravizam o ser humano.

À luz dessa verdade compreendemos a palavra de Jesus no Evangelho: “não podeis servir a dois senhores” (Lc 16,13). O amor ao dinheiro a ganância e a avareza podem se tornar uma verdadeira escravidão, levando o homem a servir esse “senhor” implacável, bem mais que a Deus. O único Senhor, que devemos servir sem reservas e acima de todas as coisas, é o Senhor Deus.

Um dia seremos chamados, como aquele administrador da parábola: “presta contas da tua administração” (Lc 16,2). Precisamos educar-nos para as virtude da fidelidade e da honestidade: “quem é fiel nas pequenas coisas, também é fiel nas grandes” (Lc 16,10). O bem mais precioso, que devemos administrar com lealdade e honestidade, é nossa própria vida.

(Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 24.09.2013)

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