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As tentações no deserto

Michele Westmorland

Deserto

Prof. Dr. Carlos Frederico Schlaepfer - publicado em 27/09/13

A atitude de Jesus pode muito bem estar refletindo a verdadeira atitude do discípulo que se sente tentado pelo poder, prestígio, função ou cargo

Os dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas retratam a infância de Jesus. Se compararmos com os relatos que estão presentes em Mateus, verificamos que existem certas diferenças. Estas diferenças acontecem principalmente por causa do público para quem Mateus e Lucas escrevem: comunidades diferentes, contendo pessoas em sua maioria de origem também diferente. Assim, o relato de Mateus está carregado de detalhes que são importantes para uma comunidade formada em sua grande maioria por judeus convertidos ao cristianismo. Já Lucas escreve para uma comunidade em sua maioria não de judeus, mas de pagãos. Entretanto, ambos os relatos querem mostrar a procedência de Jesus, isto é, mostrar a sua origem divina, afirmar que Jesus é verdadeiramente Filho de Deus.

Os capítulos 3 e 4 por sua vez, apresentam não mais os relatos da infância, mas a preparação do ministério público de Jesus. Em outras palavras, estes dois capítulos são a porta de entrada para entender tudo o que Jesus vai fazer e ensinar. É a porta de entrada para entender o projeto que Jesus vem trazer para todos os homens e mulheres. Esta característica universalista no Evangelho de Lucas, aparece na forma como ele apresenta a genealogia de Jesus (Lc 3,23-38), principalmente se colocada em comparação com a genealogia apresentada em Mateus (Mt 1,1-17). Este, começa a genealogia de Jesus com Abraão, afirmando a ligação de Jesus com o povo judeu. Já Lucas inicia a genealogia com o próprio Jesus, voltando-se até Adão, filho de Deus, isto é, origem de todos os homens e mulheres. Desta forma, Lucas está acentuando a ligação de Jesus com toda a humanidade e não apenas com um só povo. O início do capítulo 3 apresenta João Batista como aquele que prepara os caminhos para a chegada de Jesus (Lc 3,1-20). Este seu ministério ou serviço profético termina justamente quando se dá o batismo de Jesus. Lucas coloca o trabalho de João como profeta, bem ao estilo do Antigo Testamento, como marco final desta etapa da história da Salvação. Com Jesus se inicia o tempo do Novo Testamento. Logo após o Batismo e a genealogia de Jesus, Lucas apresenta as tentações no deserto (Lc 4,1-13). Aqui é interessante refletir não apenas enquanto tentações que são colocadas para Jesus através do Diabo, mas buscar um sentido e significado para nós hoje.

Este texto está dividido em três partes. A primeira parte, Lc 4,1-2a apresenta uma pequena introdução, chamando atenção por duas vezes que o Espírito Santo estava com Jesus. Além disto, faz uma estreita relação entre Jesus e os 40 dias no deserto com o povo hebreu que permanece 40 anos no deserto. Tanto é assim, que todas as respostas dadas por Jesus ao Diabo são tiradas do livro do Deuteronômio dentro deste contexto. O povo no deserto, enfrenta várias tentações no sentido de se desligar do Projeto de Deus e voltar a viver dentro do Projeto do Faraó. Esta tentação que aparece agora com Jesus, mostra este mesmo perigo na figura do Diabo, ou seja daquele que causa a  divisão, o desvio do Projeto de Deus. Na verdade o texto das tentações no deserto é o confronto entre dois projetos. De um lado o projeto diabólico, de outro o Projeto de Deus defendido por Jesus.

A Segunda parte (Lc 4,2b-12) contém as três propostas feitas pelo Diabo e as três respostas dadas por Jesus. A primeira proposta revela o lado econômico do projeto diabólico, caracterizado pela não partilha, pela falta de solidariedade, pelo individualismo, isolamento, onde cada um basta-se a si mesmo. Jesus responde a esta proposta através de Dt 8,3. Entretanto, a verdadeira resposta de Jesus será dada através de suas ações. Jesus vai mostrar a partilha, a igualdade e a comunidade como partes de seu projeto messiânico. A segunda proposta revela o lado político do projeto diabólico: poder dominação, sujeição de todas as nações. A resposta de Jesus está contida em Dt 6,13. Mas novamente, a verdadeira resposta para esta tentação será dada através do poder que Jesus apresenta para os discípulos, isto é, o poder serviço, poder que coloca o pobre e marginalizado como bem aventurados. A terceira proposta revela o lado religioso do projeto diabólico. Trata-se do não reconhecimento de Javé libertador, mas de um Deus que serve apenas para realizar prodígios em benefício próprio. Mostra a face de uma religião de dominação. A resposta dada por Jesus através de Dt 6,16, mostra pela terceira vez, a verdadeira atitude diante de Deus: alimentar-se de Sua palavra, adorá-lo e não duvidar de seu amor e proteção. Deste modo Jesus coloca o caminho para vencer as tentações: Fidelidade e fé em Javé.

As tentações no deserto colocam dois aspectos importantes para a comunidade de Lucas e também para as comunidades de hoje. Primeiramente, esta atitude de Jesus pode muito bem estar refletindo a verdadeira atitude do discípulo que se sente tentado pelo poder, prestígio, função ou cargo de privilégios dentro da comunidade. Em segundo lugar, ajuda a discernir entre projetos políticos, econômicos que são apresentados como verdadeiros projetos para solucionarem problemas sociais, se colocados em confronto com o projeto diabólico onde estão presentes: auto afirmação, auto glorificação, auto engrandecimento, isto é, projeto voltado para o indivíduo e não para a sociedade.

(Publicado em Instituto Teológico Franciscano, no dia 26 de setembro de 2013)

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