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Um ponto sólido na modernidade líquida

Wikimedia Commons/Siyatalebi
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Que representa o Pontífice para a massa, e para cada um em particular? Por quê o desejo irreprimível de ver, tocar, fotografar, registrar aquele momento?

Quase meio-dia de domingo, 29 de setembro de 2013, Vaticano, Roma. A Piazza San Pietro e a Via della Consolazione encontram-se completamente tomadas de gente. Menos mal que as nuvens escondem o calor do sol e não chove, o que torna o clima bem apropriado. Os rostos, as vestes, os comportamentos, as bandeiras e as conversas são as mais variadas. Cruzam-se os idiomas, os olhares, as trajetórias e os passos. Respira-se uma cordialidade fraterna e contagiosa. São dezenas de milhares de pessoas, todas com os olhos voltados para a escadaria da Igreja São Pedro ou para os enormes telões que transmitem as imagens ao vivo. Ali, no final dos degraus, um carro espera o Papa Francisco para o encontro e a benção dominical com os fiéis provenientes de todas as partes do mundo. A expectativa cresce a cada minuto, no tom ansioso de cada coração e da vozes. Como um colossal organismo vivo, a multidão acompanha o relógio com a respiração suspensa. Quando os dois ponteiros se cruzam e os sinos tocam, surge a figura branca do Pontífice. Desce os degraus, sobe no carro e põe-se a percorrer a praça em todas as direções.

Grupos compactos passam a acompanhar a marcha, quase atropelando-se unas aos outros. Braços, bandeiras, gritos e máquinas fotográficas erguem-se, disputando espaço. Um feixe de mãos ansiosas levanta-se na direção do carro e do homem de branco. A cada parada, os pais e mães, com as crianças sobre os ombros, tentam aproximar-se o mais possível do Papa. Este acena, volta-se de um lado para o outro, sorri o tempo todo, troca apertos de mão, toma uma ou outra criança e a beija com delicadeza. Depois prossegue, fazendo confluir atrás de si o rio de gente. Inevitáveis, surgem algumas perguntas: o que leva aquela multidão anônima à praça? O que espera do Pontífice, aparentemente tão frágil e impotente? Poderá este preencher o vazio que aquela parece evidenciar? O que reúne tanta gente ao redor de um homem? Mito? Culto da personalidade? Ou estará em jogo algo de muito mais complexo?

A metáfora da modernidade líquida

A “modernidade líquida” (Zygmunt Bauman) rompe com o chamado Contrato Social, alicerce e sustentação dos tempos modernos. Na era medieval dominava a teocracia da cristandade, governava-se em nome de Deus. As dinastias perpetuavam-se no poder. Deus representava a referência última para a verdade, a beleza, os costumes, o modo de agir e o sentido da vida. Diferentemente do “obscurantismo medieval”, porém, os filhos do Renascimento e do Iluminismo, por um lado, da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa, por outro, fazem da razão e da ciência sua própria auto-referência. Homens adultos e emancipados da tutela religiosa, lançam-se destemidos ao mar aberto dos descobrimentos, dos inventos, da experimentação, da tecnologia e do progresso. Fundamentam o comportamento pessoal e a prática política sobre acordos, tácitos ou explícitos, entre as diversas forças sociais. O equilíbrio entre estas é que mantém mais ou menos firme e estável o fiel da balança, ao mesmo tempo que constitui a bússola em meio às tormentas. O poder é exercido em nome do povo e dos direitos do cidadão. Instala-se, pouco a pouco e em graus diferenciados, o processo democrático.

Ocorre que na “modernidade tardia” (A. Giddens) ou na “pós-modernidade” (J.F.Lyotard), fortemente marcada pelo individualismo exacerbado, pelo pluralismo cultural e religioso e pela fragmentação das visões de mundo, as “verdades e certezas absolutas” se derretem, se liquidificam. No lugar delas surge uma enorme pluralidade de opiniões, dúvidas e novas interrogações. As referências se multiplicam ao extremo, ao ponto de cada um centrar-se sobre si mesmo. Relações fortes e duradouras dão lugar a laços leves, virtuais, frequentemente superficiais e facilmente descartáveis. Esboça-se desse modo uma espécie de sociedade atômica, feita de átomos isolados, justapostos e pretensamente independentes, onde cada indivíduo torna-se um núcleo ao redor do qual giram, em órbitas cerradas e concêntricas, os próprios interesses e energias, paixões e desejos, medos e temores…

Chega-se assim è “era do vazio” (G. Lipovetsky), ou a um caos de interrogações como becos sem saída, em que o hedonismo adquire uma centralidade preocupante: se as estrelas se apagaram no céu, eu me torno minha própria referência! Dessa atmosfera nebulosa resulta o discurso da crise, tão familiar nos dias atuais. Crise que se faz patente quando as perguntas se tornam maiores que a capacidade humana de encontrar uma resposta. Duas alternativas se impõem: de um ponto de vista negativo, cresce o risco do ceticismo, do relativismo e do niilismo, num mundo e numa história em que predomina o senso do absurdo e do destino; em termos positivos, verifica-se a emergência crescente da questão fundamental do ser humano sobre o significado mais profundo de sua existência. Acende-se aqui uma pequena chama que ajuda a caminhar no escuro e, ao mesmo tempo, a buscar um sentido para nossos projetos, caminhos e passos titubeantes. Não é à toa que uma das características da pós-modernidade é justamente o “retorno dos deuses” (no plural). Na impossibilidade de responder às próprias inquietações, o ser humano apela para o transcendente. Os deuses estão de volta com a mesma força com que foram banidos pelo advento da modernidade. O barulho das máquinas e do tráfego não consegue esconder “o rumor de anjos” (P. Berger), que se impõe às pessoas com a energia de águas represadas.

Um ponto sólido na modernidade líquida

Ressurge com força a figura do Papa Francisco em meio à praça apinhada de pessoas de todas as raças, classes, povos, bandeiras, línguas e nações. Há mais de trinta minutos gira entre o mar de gente, distribuindo saudações à direita e à esquerda. E, com igual força, ressurgem as perguntas: o que busca aquela imensa “multidão solitária” (D. Riesman)? Que representa o Pontífice para a massa, e para cada um em particular? Por quê o desejo irreprimível de ver, tocar, fotografar, registrar aquele momento? Não custa avançar uma hipótese: de alguma forma, o Papa representa um ponto sólido na modernidade líquida. Ou então uma referência religiosa e moral num mundo sem referências. E ainda, uma personalidade íntegra e coerente em meio à fragmentação e pulverização do pensamento. Três fatores podem ilustrar essa hipótese, três aspectos que diferenciam o Papa Francisco de seus antecessores.

Antes de mais nada, o primado da caridade sobre a teologia e o dogma. Claramente o ministério petrino do Papa Francisco deslocou o centro das atenções. Em lugar da rigidez doutrinal e das elocubrações bíblico-teológicas, o braço estendido a quem tem a vida mais ameaçada, aos aflitos, aos pequenos, aos últimos aos migrantes e refugiados. Suas visitas, palavras e gestos acentuam essa força solidária em favor dos pobres e necessitados. A transparência luminosa de um “bom dia”, “boa tarde”, “bom almoço” substituem a face dura e severa de uma exegese não raro incompreensível à maioria dos simples mortais. Como não lembrar a memória e as marcas do “pobre de Assis”, de quem o Papa escolheu o nome! Por outro lado, já o apóstolo Paulo concluía o seu poema na Primeira Carta aos Coríntios afirmado que “agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade. A maior delas, porém, é a caridade” (1Cor 13,1-13). O que não significa que a teologia e dogma devam ser descartados, longe disso, mas evidencia-se uma inflexão que procura acentuar a figura do Bom Pastor. O lado pastoral prevalece sobre o arcabouço teológico. Não é novidade que um gesto de atenção e solidariedade vale por mil palavras.

Depois, o primado da misericórdia sobre o julgamento. Trata-se, em verdade, da continuidade do item anterior. A exemplo de Jesus, o Papa Francisco recusa-se a apontar o dedo em riste sobre as feridas do pecado e do afastamento em relação a Deus e à Igreja. Jamais fecha a porta a um coração arrependido nem volta as costas a quem o procura com sinceridade. Ao contrário, através do perdão, oferece a oportunidade de levantar a cabeça e começar de novo. Se as pessoas marginalizadas pela sociedade procuram a Deus no íntimo de sua consciência, “quem sou eu para julgá-las”, pergunta-se com humildade o Papa Francisco. Com um semblante sereno, sorriso largo e braços abertos representa um convite àqueles que se sentem excluídos de uma Igreja que, ao longo dos séculos, bateu duramente sobre a tecla do pecado. Também aqui não se exclui o julgamento e a condenação do pecado. O que se procura é salvar o pecador que se abre à conversão. “Vai e não pesques mais” (Jo 8, 12), diz Jesus à mulher surpreendida em adultério. Não justifica o pecado, mas amplia os horizontes de quem aceita a Boa Nova do Evangelho. Novamente o Bom Pastor em busca da “ovelha perdida”. Não sem razão o Papa Francisco compara a Igreja a um hospital de campanha, cuja preocupação primordial é “curar as feridas”.

Por fim, o primado do poder-serviço sobre o poder-autoridade. Esta opção sobrepõe a presença e a comunicação direta à distância e a um hermetismo que, pretensamente, procurava defender a dignidade do sucessor de Pedro. Dignidade que, muitas vezes, acabava por acentuar a pompa do vestuário, a solenidade ostensiva e exagerada da liturgia, o sistema de segurança e, no limite, um autoritarismo mesmo que indesejado… No caso do atual Pontífice, impressionam os encontros com indivíduos e grupos, as entrevistas com os jornalistas e, mais ainda, os telefonemas a pessoas que padecem de algum problema grave. Sem intermediários e sem o peso da burocracia, o Santo Padre dirige-se pessoal e diretamente a gente anônima, que pede socorro e espera uma palavra de conforto. Importa aqui a necessidade e a urgência, não o título ou a posição social. O Papa Francisco inova como “chefe de estado” e como “pastor supremo” da Igreja Católica. Rompe todas as barreiras que o afastam dos mais necessitados. Faz-se presente onde a dor, a fome e a solidão (três irmãs gêmeas) são mais prementes. Tudo isso, evidentemente, não exclui a validade das cartas pastorais, encíclicas e documentos pontifícios. Mas o contato simples e direto, com a atenção voltada à pessoa, deixa marcas que vento algum poderá apagar.

Os três fatores apontados, complementares, entrelaçados e indissociáveis, nos levam a concluir com as palavras do Evangelho: “As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus falava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei” (Mc 1,22). Não que o Papa Francisco, até o momento, tenha dito algo de novo, inédito e extraordinário. Novo, inédito e extraordinário é o seu modo simples, direto e genuíno de dirigir-se a todos e a cada um. “Conhecerei a verdade e ela vos libertará” (Jo 8,32) – verdade que, na grande maioria das vezes, não se apresenta de forma sinuosa, complexa e labiríntica, mas, como água que brota da fonte, é fresca, límpida e transparente.

Roma, 29 de setembro de 2013

(Publicado em O Arcanjo no ar, no dia 30 de setembro de 2013)

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