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"O Papa Francisco me ajudou a fugir da ditadura"

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Lucandrea Massaro | Out 08, 2013

Conheça a história de Alfredo Luis Somoza, o jornalista a quem Bergoglio ajudou a fugir da perseguição durante a década de 70 na Argentina

Aproveitando o lançamento e apresentação do livro de Nello Scavo, “La lista di Bergoglio. I salvati da Francesco durante la dittatura. La storia mai raccontata” ("A lista de Bergoglio. Pessoas salvas por Francisco durante a ditadura"), a Aleteia conversou com Alfredo Luis Somoza, uma das pessoas ajudadas pelo hoje Papa Francisco a salvar-se da ditadura argentina, entre as décadas de 70 e 80. Somoza é jornalista e diretor do Instituto de Cooperação Econômica Internacional (ICEI).

Você é uma das dezenas – talvez centenas – de pessoas que foram ajudadas por Bergoglio durante a ditadura na Argentina. Qual era a sua situação e como o futuro Papa o ajudou?


Eu estava terminando o Ensino Médio durante o golpe de Estado de 1976 e havia tido certa exposição como representante estudantil. A universidade de Buenos Aires me negou o ingresso e matrícula na universidade. Fui acolhido na jesuíta, cuja gestão Bergoglio havia concedido a leigos. Estamos falando de 1977-78, e de uma política de acolhimento a quem pensava de maneira diferente.


De maneira informal, havíamos mantido a democracia no Ateneu. Ele dava conselhos aos estudantes, fazendo-nos compreender o desígnio criminal do regime. Bergoglio também salvava os não argentinos. Devido à minha atividade como publicitário, fui processado e me refugiei no Brasil, em ambientes próximos à ordem dos Jesuítas, graças à ajuda de Bergoglio.

Você continuou em contato com Bergoglio depois disso?


Cheguei à Itália, fui reconhecido como refugiado político, e depois obtive a cidadania, graças ao fato de que minha avó era italiana. Já não tive mais contato com ele, mas acompanhei a vida de Bergoglio como bispo e depois como presidente da conferência episcopal.

Você sabia que Bergoglio estava ajudando tanta gente?


Sabíamos que havia alguma coisa. No nosso ambiente, tínhamos ouvido algumas histórias. No entanto, isso nunca foi dito publicamente e tenho certeza de que ninguém sabia dos outros. Bergoglio e a Companhia tinham se mantido equidistantes com relação à ditadura, e o próprio Bergoglio mantinha boas relações com Videla. E foi justamente assim que ele conseguiu também interceder a favor de alguns prisioneiros ou pessoas acusadas injustamente.

O que você lembra daquela época? Qual era o clima na Argentina, nesses anos?


O clima era de terror, quase surreal. Havia duas realidades: uma aparente, que permitiu a realização da Copa do Mundo em 1978, que supostamente funcionava de maneira correta no fórum das nações.


A outra era a verdadeira: um país sem liberdade de imprensa, de pensamento, de associação sindical, de ensino e que, ao cair a noite, via os esquadrões da morte agindo. Era um país que vivia nessa bolha de terror, na qual não se sabia tudo, mas se intuía o drama.


Esse quadro durou até a derrota militar sofrida contra a Inglaterra em 1982. A Argentina – paradoxos da Guerra Fria – nunca foi castigada, não sofreu sanções, porque tinha a proteção da União Soviética, que regularmente derrubava as tentativas de Carter de fazer a ONU aprovar resoluções neste sentido.


Tudo isso porque a Argentina era o único país que continuou vendendo armas para a União Soviética depois da invasão do Afeganistão. Um paradoxo no paradoxo, confirmado pelo fato de que o Partido Comunista Argentino (uma pequena formação política, N. da R.) foi a única associação política que pôde continuar suas atividades, de alguma maneira, sem a censura do regime, devido ao seu vínculo com Moscou.

A seu ver, a Igreja foi realmente "silenciosa" com relação ao regime? Ela poderia ter feito mais?


A Igreja estava comprometida: quem se opunha diretamente era assassinado ou desaparecia sem deixar pistas. Havia amplos setores da Igreja, sobretudo no âmbito da Conferência Episcopal, muito próximos da ditadura, como Dom Pio Laghi (que, naqueles anos, era núncio apostólico na Argentina), que justificavam os militares.


Mas a "Igreja de base", os párocos e ordens religiosas, bem como os jesuítas, no entanto, fizeram muitas coisas.

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