Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Sábado 24 Julho |
home iconEstilo de vida
line break icon

Ser sadio na doença…

@DR

Dom Redovino Rizzardo - CNBB - publicado em 08/10/13

Não nego o meu medo diante da dor e da morte. Esta continua sendo o maior desafio da vida, semelhante ao de uma criança que deixa o aconchego do seio materno para entrar num mundo desconhecido

No dia 10 de maio de 1873, chegou a Molokai, no arquipélago de Havaí, o missionário belga, Damião de Veuster. A “ilha maldita” era habitada por 3.113 leprosos. Ao longo dos 16 anos em que lá permaneceu, o padre «fez-se tudo para todos» (1Cor 9,22), a serviço de pessoas que, desesperadas e revoltadas, acabavam criando, umas para as outras, um verdadeiro inferno. Certo dia, em 1884, cinco anos antes de falecer, quando começava a colher os frutos de sua doação, percebeu que, ele também, havia sido atingido pela enfermidade. No domingo seguinte, ao invés de se dirigir aos fiéis como sempre fazia – um sadio falando para doentes –, iniciou sua homilia dizendo: «Nossa pátria é o Céu, para onde nós, os leprosos, estamos certos de ir muito em breve. Lá não haverá feiura nem doença: seremos todos transfigurados».

Lembrei-me das palavras de Damião – elevado à honra dos altares por Bento XVI, em 2009 – ao ser informado, no dia 6 de setembro, que estava com câncer. Como o “Apóstolo dos leprosos”, eu também “cruzara a ponte” e me colocara na margem oposta, aonde nunca teria gostado de chegar. “Por ironia do destino” – para citar uma expressão que detesto – realizava-se em mim o que escrevi em 2012, num artigo que intitulei: “Prepare-se: você vai morrer de câncer!”. Nele, eu citava uma agência internacional de pesquisa, para dizer que o número de casos de câncer crescerá em 75% até o ano de 2030: em 2008, eles eram 12,7 milhões e, em 2030, serão 22,2 milhões.

Não estou revelando nenhum segredo ao dizer que a minha santidade não é a de Damião de Molokai. Nem de Santa Teresinha que, ao se perceber tuberculosa, exclamou: «É o Esposo que está chegando!». Nem de uma jovem do Movimento dos Focolares que, indagada como estava, respondeu, aludindo ao câncer que a consumia: «É o Reino de Deus que avança!». Não, eu me sinto bem mais fraco. Quando alguém me pergunta: “Como vai?”, a tentação seria responder: “Mais mal do que bem!”.

Mas, se assim fizesse, estaria esquecendo o que tentei construir e me sustentou ao longo da vida. A resposta cristã deveria ser: «Pela graça de Deus, vou bem!». Ou, como costuma dizer Frei Hans Stapel, fundador da Fazenda da Esperança: «Melhor do que mereço!». Quantas vezes eu falei, em minhas homilias ao povo, que, mesmo estando doentes fisicamente, podemos ser sadios espiritualmente! Era esta, aliás, a convicção de São Paulo: «Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor» (Rm 14,8).

Mas, como todos sabem, é mais fácil falar ou escrever do que aceitar os entraves impostos pela enfermidade. Perder planos e projetos; perceber que o futuro fica incerto e restrito; depender da boa vontade de outrem; passar da atividade à inércia; sentir-se um peso para quem está ao lado; manter a paciência e a esperança… Não, não é fácil ser sadio na doença!

De outro lado, preciso reconhecer que a vida me foi sempre generosa. Não nego: desde a infância, passei por momentos amargos e dolorosos, que geraram carências e traumas. Mas foram mitigados pelo amor com que Deus me acompanhou, concretizado na amizade e no apoio que uma multidão de irmãos e irmãs me proporcionou. Penso que posso repetir o que o Papa Francisco disse de si mesmo, após o término da Jornada Mundial da Juventude: «Como padre, fui feliz; como bispo, fui feliz; e agora, como papa, continuo feliz!».

Quanto à morte, retomo as palavras do Papa numa entrevista que deu no Rio de Janeiro: «Não tenho medo. Sei que ninguém morre na véspera. Quando chegar a minha vez, o que Deus permitir, assim será!». Com isso, não nego o meu medo diante da dor e da morte. Esta continua sendo o maior desafio da vida, semelhante ao de uma criança que deixa o aconchego do seio materno para entrar num mundo desconhecido. Mas, não se pode esquecer, o nascimento é a melhor coisa que pode acontecer para a criança, a mãe e o mundo. Por tudo isso, apesar da fragilidade que me é inata, faço minhas as palavras que São Paulo dirigia a seus amigos: «Se continuar em vida, penso que poderei fazer ainda algum trabalho útil. Não sei o que escolher. As duas coisas me atraem: morrer para estar com Cristo e continuar trabalhando por vocês!» (Fl 1, 22.24).

Tags:
AmorCâncerMorte
Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • Aleteia é publicada diariamente em sete idiomas: inglês, francês,  italiano, espanhol, português, polonês e esloveno
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Top 10
1
Reportagem local
A arrepiante oração de uma mulher no corredor da morte por ser ca...
2
CROSS;
Reportagem local
O que significa o sinal da cruz feito sobre a testa, os lábios e ...
3
Aleteia Brasil
Sorrisão e joelhos: 2 pais brasileiros e seus bebês que emocionar...
4
Papa Francisco
Reportagem local
Papa: como não culpar Deus diante da morte de um ente querido
5
Atriz Claudia Rodrigues
Reportagem local
Assessora pede orações por atriz Claudia Rodrigues: “está m...
6
PADRE PIO
Philip Kosloski
A oração que Padre Pio fazia todos os dias ao Anjo da Guarda
7
Orfa Astorga
Até que idade é saudável morar na casa dos pais?
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia