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A culpa é minha ou do celular?

© Odua Images/SHUTTERSTOCK

Sebastián Correa Ehlers - publicado em 14/10/13

Os dispositivos e a tecnologia substituem nossa responsabilidade em nossos atos e nas relações interpessoais?

Cresci em um mundo sem celulares, sem internet e, certamente, sem Facebook. Depois do colégio, eu ia jogar futebol com o meu vizinho. Avisava minha mãe sobre aonde iria e só voltava a ouvi-la ao voltar para casa (geralmente, um pouquinho mais tarde que o combinado), já que não tínhamos celulares.


Eu gravava músicas em fitas cassetes, copiando de outras fitas cassetes ou do rádio, esperando pacientemente que tocassem minha música favorita. E, assim, poderia continuar com uma longa lista de exemplos do que se fazia "na minha época" e que hoje certamente já não se faz.


O mundo mudou. Com certeza, mudou. Em um ritmo quase frenético da tecnologia, foram modificadas não somente tarefas específicas das pessoas, mas a própria vida está se transformando. Nossa forma de relacionar-nos com a realidade está mudando. Smartphones, tablets, redes sociais: às vezes, parece que vivemos em um mundo totalmente diferente daquele que conhecemos quando crianças, e certamente diferente daquele que nossos pais conheceram.


Neste sentido, nunca falta a afirmação romântica de que "o passado era melhor". Ou a progressista, segundo a qual "todo progresso é bom", ou pelo menos "melhor". Alguns acham que estes avanços estão nos tornando burros.


Caminhamos pela rua sem olhar a rua! Obcecadamente, vivemos concentrados em nosso telefone. Estamos em uma mesa cercada de gente, e cada um olha para o seu próprio celular. Antes, fazíamos contas de cabeça; hoje, temos computadores para isso. Antes, escrevíamos com cuidado, para não cometer erros. Hoje, confiamos cegamente no corretor do Word ou do programa que usamos.


São muitos os sintomas que fazem parecer que a teoria de Darwin estava certa, mas que continha um "pequeno" erro: deveria ser aplicada em ordem inversa, já que estamos deixando de ser humanos e nos tornando macacos.


Há diversos estudos que estão sendo realizados para analisar o impacto que a tecnologia – e as mudanças que ela envolve – causa nas pessoas. Alguns afirmam que tais mudanças estão reduzindo sistematicamente a memória das pessoas [1]. Um estudo afirma que a utilização do GPS poderia atrofiar o cérebro [2]. Neste sentido, a Discovery Magazine tem vários exemplos [3]. Tampouco faltam os que vivem um culto aos avanços tecnológicos, considerando a tecnologia como uma autêntica religião [4].


Encontramo-nos assim, mais uma vez, diante do antigo dilema entre os tecnófilos (aqueles que afirmam que estamos nos aproximando de um paraíso digital) e os tecnofóbicos (que concebem a tecnologia como a mãe de todos os males, diante da qual teríamos de nos proteger).


Isso pode nos levar a levantar algumas questões sobre a tecnologia: o que penso sobre a tecnologia? É algo bom? É algo ruim? Todo progressotecnológico é para melhor? São muitas as perguntas que podemos nos fazer a respeito disso e, certamente, devemos fazê-las. Mas, para respondê-las, devemos fazê-lo com a – cristã – atitude de ir sempre ao essencial.


Talvez a resposta mais simples poderia ser a afirmação de que a tecnologia é "neutra", pois seria somente um "meio" que podemos utilizar para bem ou para mal. Mas, ao ser fruto de uma atividade do ser humano (e, portanto, contendo uma intencionalidade e fins próprios, e com um impacto objetivo em quem a utiliza e segundo a maneira como a utiliza), não podemos afirmar sua neutralidade. A tecnologia não é neutra. Basta constatar o grande impacto que ela tem em nossas vidas e na vida de milhões de pessoas que vivem ao nosso redor.


O Catecismo nos ilumina em nosso dilema com um olhar incisivo, afirmando que "a ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, a quem devem a sua origem e progressos. Por isso, é na pessoa e nos seus valores morais que encontram a indicação da sua finalidade e a consciência dos seus limites".


É por isso que não podemos ser ingênuos, acreditando que a tecnologia, pelo simples fato de ser tecnologia, é boa. Nem tampouco satanizá-la, condenando todo avanço tecnológico.


O ser humano foi chamado por Deus para cooperar na criação. Neste sentido, é chamado a gerar cultura. A tecnologia é um reflexo cultural desse ser co-criador do homem. Mas, para que seja um reflexo genuíno de uma verdadeira cultura, deve conduzir ao autêntico bem da humanidade e do ser humano concreto.


Então, se tropeço na rua porque estava olhando o Facebook no celular, a culpa é minha ou do Facebook? O olhar que se dirige ao essencial não se limita a buscar culpados, de maneira imatura e superficial, mas me leva a olhar o lado profundo do humano, analisando se esta tecnologia está modificando algo humano (como caminhar prestando atenção na realidade) que não deveria ser modificado. Depois disso, virá a pergunta sobre o instrumento em si ou o uso que se faz dele.


Não devemos ter medo da tecnologia. Até o Papa Francisco utiliza o Twitter! Mas tampouco devemos ser ingênuos diante dela. O critério é dirigir o olhar ao que é essencial e não sacrificar jamais o que é autenticamente humano.

(© 2013 – Sebastián Correa Ehlers para o Centro de Estudos Católicos – CEC)




[1] http://www.sciencemag.org/content/333/6043/776.full

[2] http://www.nbcnews.com/id/40138522/ns/health-mental_health/#.Ui8LIWRARG5

[3] http://news.discovery.com/tech/technology-brain-intelligence-20130319.htm

[4] http://en.wikipedia.org/wiki/Church_of_Spiritual_Technology

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