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Como ajudar quem não se identifica com o seu sexo?

photomak/SHUTTERSTOC K
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Depois de descartar transtornos biológicos, os especialistas aconselham trabalhar o âmbito psicológico, para ajudar a encontrar harmonia

O desenvolvimento harmônico, que oferece e mantém a identidade pessoal, permite que a pessoa faça que o sexo cerebral e psicológico coincida com o biológico. Mas algumas pessoas sentem como se fossem do sexo oposto ao do seu corpo.
 
Não se trata de estados intersexuais, de base orgânica, mas fundamentalmente de uma distorção psicológica, de um problema de desconformidade em uma pessoa com genitais bem definidos.
 
A ajuda a uma pessoa para resolver um conflito sobre sua identidade sexual deve ser global, descartando primeiramente os transtornos biológicos e, depois, trabalhando o âmbito psicológico.
 
No entanto, em alguns casos, opta-se por trocar o sexo genital e os caracteres sexuais secundários, por meio de cirurgias e tratamentos hormonais. Muitas vezes, os pacientes que se submetem a estes tratamentos continuam insatisfeitos ou inclusive se sentem piores.
 
Como ajudar as pessoas que não se identificam com seu próprio sexo? As cirurgias e tratamentos hormonais são a melhor resposta aos seus problemas?
 
De acordo com o psicanalista americano Robert Stoller, que delineou a estrutura clínica própria da transexualidade, esta se deve, antes de tudo, a um ambiente que não permitiu a estruturação de uma personalidade equilibrada.
 
Também há fatores fisiológicos que podem influenciar, como explica a professora de bioquímica Natalia López-Moratalla, no artigo "Identidade sexual: pessoas transexuais e com transtornos do desenvolvimento gonadal".  
 
A terapeuta sexual Lourdes Illán afirma que tais transtornos devem ser tratados com a psicoterapia, já que esta pode ajudar a superar as "alterações que envolvem a ideia transexualista", entre elas, os "sentimentos que provocaram a falta de identificação psicossexual com o próprio sexo, como o desprezo do progenitor do mesmo sexo e a condição sexual do seu sexo em geral".
 
Com relação às cirurgias de mudança de sexo, as pessoas que se submetem a elas ficam estéreis e incapacitadas de viver um ato sexual completo e normal.
 
Por outro lado, tais cirurgias intervêm sobre partes saudáveis do corpo, o que, segundo Lourdes, "não é admissível do ponto de vista ético, introduz novas dissonâncias entre os vários componentes do sexo (entre o sexo genético, o sexo fenotípico e o sexo psíquico) e piora o estado psíquico do sujeito".
 
Neste sentido, a "Carta aos profissionais de saúde", de 1995, do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, recorda que "a vida humana é, ao mesmo tempo e de forma irredutível, corporal e espiritual", e indica que "o sentir e desejar subjetivos não podem dominar e desatender as determinações objetivas corpóreas".
 
O documento eclesial afirma também que "o profissional de saúde não pode ignorar a verdade corpórea da pessoa e prestar-se a satisfazer seus desejos, sejam eles subjetivamente manifestados ou legalmente codificados, em contraposição à verdade objetiva da vida".
 
Mas, atualmente, a ideologia de gênero, que separa a identidade sexual do gênero, convence muitas pessoas de que ser homem ou mulher não é determinado fundamentalmente pelo sexo, mas pela cultura.
 
Este contexto influencia na construção que as crianças fazem da imagem ideal do seu próprio sexo, que depende sobretudo do comportamento dos adultos ao seu redor e da relação que têm com eles, segundo Lourdes Illán.
 
Por isso, a terapeuta destaca a necessidade de trabalhar para que os meninos e as meninas consigam se sentir bem com seu próprio corpo e com todas as características que marcam a diferença sexual, no âmbito intelectual, emocional e psicológico.
 
A especialista identifica uma série de comportamentos que podem nos alertar sobre um possível transtorno de identidade sexual nas crianças.
 
Nos meninos:
 
– Desejo intenso (ou insistência) de pertencer ao sexo oposto.
 
– Interesse por travestir-se ou tendência a imitar atitudes femininas.
 
– Marcada e obstinada preferência por papéis do sexo oposto nas brincadeiras de representação teatral.
 
– Intenso desejo de participar das brincadeiras e hobbies típicos do sexo oposto.
 
– Marcada preferência por colegas do sexo oposto para brincar.
 
– Em muitos casos, observa-se a chamada relação triádica clássica, que consiste na combinação de um pai ausente (ou que tem uma relação conflituosa com a mãe e com o filho), uma mãe superprotetora (ou que busca compensar os conflitos com o marido na relação com o filho) e um filho muito sensível e emotivo.
 
Nas meninas:
 
– Ter muitos amigos do sexo oposto e preferência por brincadeiras e esportes tipicamente masculinos.
 
– Negar-se a usar peças femininas, como saias, e querer ter cabelo curto.
 
– Em casos mais sérios, negar-se a urinar sentada, fazendo-o sempre em pé.
 
– Fantasiar que, com o tempo, crescerá um pênis nela.
 
– Na adolescência, há uma rejeição ao desenvolvimento dos seios e à menstruação.
 
A especialista constata que, "apesar de que, no caso dos meninos, as atitudes afeminadas são um elemento muito importante, que gera preconceito e rejeição dos colegas, as meninas masculinizadas não sofrem tanto".
 
Diante destas situações, Lourdes sugere diversas intervenções, especialmente dirigidas a professores de Educação Infantil e do Ensino Fundamental:
 
– Incentivar que os alunos tenham um bom processo de identificação psicossexual.
 
– Não incentivar nem permitir que rotulem dos alunos (nem pais, colegas, familiares ou os próprios professores).
 
– Não humilhar nem jamais castigar uma criança por mostrar um comportamento desse tipo, mas tampouco incentivá-lo.
 
– Quando uma criança tem constantemente comportamentos típicos do sexo oposto, é fundamental reforçar sua condição masculina ou feminina, segundo o caso.
 
– Incentivar que a criança se comporte segundo o "modelo ideal" do seu sexo.
 
– Facilitar a formação e informação aos pais, para que não deixem o tempo passar sem intervir, achando que é algo engraçado ou simplesmente que seu filho "é assim" e "precisamos aceitá-lo como ele é". Certamente, é fundamental aceitar os filhos como ele são, mas às vezes esta "aceitação" se aproxima mais de uma postura de resignação passiva que de ajuda e amor à criança. Isso ocorre muitas vezes por desconhecimento ou por influência da ideologia de gênero que se instalou na sociedade.
 
– Nos casos mais extremos, aconselhar a busca de ajuda de um profissional que tenha uma visão integradora da sexualidade.
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