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Quando ninguém tem culpa...

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Dom Redovino Rizzardo - CNBB - publicado em 22/10/13

"A cultura do bem-estar nos leva a pensar somente em nós. Ela nos faz insensíveis aos gritos dos irmãos e a viver como bolas de sabão: bonitas, mas pura ilusão e futilidade"

No dia 8 de julho, o Papa Francisco visitou a ilha de Lampedusa, no sul da Itália. Foi a sua primeira saída de Roma, e a fez a um dos locais mais dramáticos, pelas centenas de migrantes que, todos os anos, em busca de melhores condições na Europa, deixam a África em barcaças superlotadas e acabam perecendo nas águas do Mediterrâneo. Diante de 20.000 pessoas, ele rezou a missa com paramentos roxos, em sinal de penitência. Sua homilia ganhou repercussão internacional. Transcrevo algumas de suas passagens que, pela força da denúncia, falam por si mesmas.

«Adão, onde estás?» (Gn 3,9) é a primeira pergunta que Deus faz ao homem depois do pecado. Adão está desorientado, perdeu o seu lugar na criação, porque pensou que ia se tornar poderoso, tudo dominar, ser Deus. O homem peca e a harmonia se quebra. O “outro” não é mais um irmão para amar, mas simplesmente alguém que perturba o meu bem-estar e me faz sofrer. Mais tarde, Deus dirige ao homem uma segunda pergunta: «Caim, onde está o teu irmão Abel?» (Gn 4,9). O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus, ou melhor, ser Deus, termina numa sucessão de erros que levam à morte, a derramar o sangue do irmão. Estas duas perguntas ressoam também hoje, com toda a força. Muitos de nós – e, neste

número, me incluo também eu – estamos desorientados e desatentos ante o mundo que nos cerca. Não guardamos o que Deus criou para todos, não nos cuidamos uns dos outros. E quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como as que aqui ocorrem.

«Onde está teu irmão?» não é uma pergunta para outrem; ela é feita a mim, a você, a cada um de nós! Estes nossos irmãos e irmãs africanos queriam sair de situações difíceis e conseguir um pouco de serenidade e de paz; procuravam um lugar melhor para si e para suas famílias, mas se depararam com a morte. Quantas outras pessoas, com aspirações semelhantes, não encontram a compreensão, a acolhida e a solidariedade que esperam! «A voz do seu sangue clama até mim» (Gn 4,10). Quem é responsável por esse sangue? Na literatura espanhola, há uma comédia de Félix Lopes de Vega. Ela refere que os habitantes da cidade de Fuente Ovejuna matam o governador, mas o fazem de modo que não se saiba quem o executou. Quando o juiz lhes pergunta: «Quem matou o governador?», eles respondem em coro: «Fuente Ovejuna, senhor!». Ou seja, todos e ninguém…

A mesma pergunta ressoa ainda hoje: «Quem é responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs?» Somos todos tentados a responder: «Ninguém! Eu não tenho nada a ver com isso! São os outros!». Deus, porém, continua em sua pergunta: «Onde está o sangue do teu irmão?». Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna. Caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do levita de que fala Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao vermos o irmão semimorto à beira da estrada, talvez digamos: “Coitadinho!”, e continuamos o caminho. Não é culpa nem obrigação nossa! Ficamos tranquilos, com a consciência em paz. Mas, se a culpa não é de ninguém, é porque é de todos!

A cultura do bem-estar nos leva a pensar somente em nós. Ela nos faz insensíveis aos gritos dos irmãos e a viver como bolas de sabão: bonitas, mas pura ilusão e futilidade. A cultura do bem-estar nos torna indiferentes. No mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença! Habituamo-nos ao sofrimento dos outros: ele não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!

«Adão, onde estás?» e «Onde está o teu irmão?» são as perguntas que Deus coloca no início da história da humanidade e continua dirigindo a todos os homens do nosso tempo, a começar de nós mesmos. Mas eu queria que nos propuséssemos uma terceira pergunta: quem de nós chora por essa situação e por outras semelhantes? Quem chora pela morte de tantos irmãos e irmãs? Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de se comover. A globalização da indiferença nos tirou a capacidade de chorar! Que Deus nos conceda a graça de chorar pela nossa indiferença, pela crueldade que há no mundo e por aqueles que, com suas decisões em nível mundial, criam situações que geram esses dramas!

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