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A sinfonia incompleta do músico Francisco

© MASSIMILIANO MIGLIORATO/CPP

IHU - publicado em 06/11/13

É, portanto, o que foi Santo Inácio: um místico, mais que um asceta. E é o que é o Papa Francisco

Reportagem de Sandro Magister, publicada em Chiesa.it, 05-11-2013. Tradução de André Langer, veiculada na IHU On-Line.

A entrevista do Papa Francisco à revista dos jesuítas de Roma La Civiltà Cattolica se parece cada vez mais com a “ouverture” de um concerto a mais vozes. Um concerto que está em pleno andamento, quer porque desenvolve motivos apenas indicados pelo Papa ou porque se enriquece com contrapontos.

Nessa entrevista, por exemplo, ao confirmar seu ser e sentir-se plenamente jesuíta, Jorge Mario Bergoglio havia se distanciado da imagem corrente de Santo Inácio de Loyola como severo asceta da Contra Reforma: “Eu, pessoalmente, sou e me sinto mais próximo da corrente mística, a de Louis Lallemant e Jean-Joseph Surin. E Fabro era um místico”.

Para alguém não iniciado no assunto, este comentário é de difícil compreensão. Pois bem, La Civiltà Cattolica ocupou-se de explicar o significado em um artigo na edição de 02 de novembro, escrito pelo jesuíta Giandomenico Mucci e intitulado: “O Papa Francisco e a espiritualidade inaciana”.

Cada artigo da La Civiltà Cattolica é publicado, desde sempre, com o controle prévio das autoridades vaticanas, um controle que Pio XII exercia pessoalmente e que os Papas sucessivos delegaram à secretaria de Estado, mas que agora tende a voltar às mãos de Francisco, ao menos no que diz respeito às questões que mais lhe importam e que lhe dizem respeito pessoalmente.

De fato, é difícil imaginar que a La Civiltà Cattolica tenha descrito a espiritualidade inaciana do Papa Bergoglio com tanta segurança e riqueza de detalhes sem que ele o tenha confirmado.

O padre Mucci explica que “é justo distinguir duas correntes, que é possível distinguir e definir historicamente no interior da única espiritualidade inaciana”.

A primeira é descrita da seguinte maneira: “A corrente ascética funda-se sobre a meditação discursiva e sobre o exercício metódico de cada uma das virtudes. Inculca os grandes princípios da vida espiritual, mas insiste no esforço de combater, um após o outro, os defeitos, desenvolvendo uma após a outra as virtudes”.

A segunda: “A corrente mística, ao contrário, insiste, depois da rigorosa ascese inicial, na docilidade diante da ação do Espírito Santo. A luta contra os vícios e a prática das virtudes ocupam um segundo plano”.

Continua o padre Mucci: “Ambas as correntes têm pleno direito de cidadania na Companhia de Jesus, e os autores tanto de uma como de outra são todos discípulos de Santo Inácio. Ao longo dos séculos, e até nossos dias, as diretrizes oficiais da Companhia privilegiaram a primeira corrente, talvez porque foi julgada espiritualmente a mais segura, não propensa a favorecer essas ilusões que sempre, ou quase sempre, se aninham onde se fala de mística sem discernimento. No entanto, a corrente mística nunca foi proscrita ou desaconselhada. Tampouco teria sido possível fazê-lo, porque, por um lado, seus autores gozaram e seguem gozando de estima universal e, por outro, esta corrente produziu frutos de santidade. Basta pensar nos santos mártires do Canadá que foram alunos de Lallemant. E, hoje, o Papa declara-se aluno deste autor”.

Em outra passagem do artigo, o padre Mucci dá explicações suplementares sobre o significado da mística: “A mística, em seu significado teológico mais amplo, é a disposição do espírito humano de receber as luzes e as moções do Espírito Santo, causadas por uma atividade diferente da atividade humana comum. Estas luzes e moções colocam em prática os dons do Espírito Santo, já infundidos por Deus na alma. A vida mística, assim entendida, é a docilidade habitual ao Espírito de Deus”.

É, portanto, o que foi Santo Inácio: um místico, mais que um asceta. E é o que é o Papa Francisco. Para entender seus atos, a mística inaciana é uma chave de leitura da qual não se poderá prescindir.

(IHU On-Line)

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