Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Sexta-feira 30 Outubro |
Santo Angelo de Acri
home iconAtualidade
line break icon

O que é a pobreza?

© DR

Luigino Bruni - Ciudad Nueva - publicado em 11/11/13

A profecia e a injustiça: antes de poder falar da pobreza bela, é preciso ver o rosto da pobreza feia e, se possível, saborear algo dela

A pobreza é uma dimensão essencial da condição humana, muito importante para a vida de todos. Um erro grave da nossa civilização é considerar a pobreza como um problema típico de algumas categorias sociais ou povos.


Gostaríamos de ser cada vez mais imunes à pobreza, expulsando os pobres, como bodes expiatórios, para fora das fronteiras da nossa convivência cidadã.


Já não reconhecemos a pobreza; nós nos esquecemos de que nascemos na pobreza mais absoluta e acabaremos nossa vida em uma pobreza não menos absoluta.


Toda a nossa existência é uma tensão entre o desejo de acumular riquezas (para preencher esta indigência antropológica radical) e a consciência, que vamos adquirindo com os anos, de que a acumulação de coisas e de dinheiro é somente uma resposta parcial e em conjunto insuficiente para a necessidade de reduzir a autêntica vulnerabilidade e fragilidade da qual viemos, para vencer a morte.


Uma consciência que alcança seu grau máximo quando pensamos em como terminaremos nossa existência: nus, como quando chegamos. As riquezas e os bens passarão e de nós só restará (se restar) outra coisa.


Esta intuição está por trás da opção daqueles que decidem viver com menos dinheiro e menos coisas, porque descobrem que a diminuição de algumas riquezas permite o crescimento de outros bens gerados por esta nova e diferente pobreza escolhida.


Só quem opta por ser pobre de poder, de dinheiro e de si mesmo pode enfrentar longas e esgotantes batalhas pela justiça, nas quais pode inclusive oferecer a própria vida, morrendo por estes ideais.


Se observarmos as múltiplas formas de pobreza, sofrida e não escolhida, nas quais se encontram presas muitas pessoas no mundo, perceberemos que as situações de indigência, precariedade, vulnerabilidade, fragilidade, insuficiência e exclusão são resultado da falta de capitais não só financeiros, mas também relacionais (famílias e comunidades destruídas), de saúde, tecnológicos, ambientais, sociais, políticos e, ainda com maior intensidade, educativos, morais, motivacionais, espirituais; a falta de philia e de agape.




Assim como nos ensina o economista e filósofo indiano Amartya Sen, a pobreza "ruim" consiste em carecer das condições (sociais e políticas também) para desenvolver as próprias potencialidades, que, dessa maneira, ficam encalhadas em capitais baixos demais, que impedem que a viagem desta vida seja suficientemente longa e sem tantos acidentes e dores.


Então, a pobreza, toda pobreza, é muito mais que a falta de dinheiro, como podemos ver quando perdemos o emprego e não encontramos outro porque não possuímos os "capitais" fundamentais (não só a faculdade, mas também a aprendizagem de um ofício nos anos adequados).


Os capitais das pessoas e dos povos, a riqueza e a pobreza, sempre estão misturados. Alguns capitais, riquezas e pobrezas, são mais decisivos que outros para o desenvolvimento humano, mas, salvo em casos extremos, ninguém é tão pobre que não possa ter alguma forma de riqueza.


Esta mistura talvez faça que o mundo seja um lugar menos injusto do que parece à primeira vista, ainda que seja preciso prestar muita atenção para não cair na "retórica da pobreza feliz", que muitas vezes encontramos naqueles que elogiam a indigência alheia, vivendo comodamente em chalés de luxo ou desfilando com carros blindados pelas periferias das cidades do mundo, em uma forma de "turismo social".


Antes de poder falar da pobreza bela, é preciso ver o rosto da pobreza feia e, se possível, saborear algo dela.


Mas a consciência do risco – sempre real – de cair na retórica burguesa do elogio da pobreza bela (a dos outros, a quem nunca conhecemos e em quem nunca tocamos) não deve chegar a apagar uma verdade ainda mais profunda: todo processo de saída das armadilhas da miséria começa sempre por avaliar as dimensões de riqueza e beleza presentes nos "pobres" a quem se deseja ajudar.


Porque, quando não se parte do reconhecimento deste patrimônio, muitas vezes enterrado, mas real, os processos de desenvolvimento e de "capacitação" dos "pobres" são ineficazes (quando não prejudiciais), porque falta a estima do outro e das suas riquezas e, portanto, a experiência da reciprocidade das riquezas e das pobrezas.


Há muitas pobrezas dos "ricos" que poderiam ser curadas com as riquezas dos "pobres", somente por meio do conhecimento, do encontro.


E se não começarmos a conhecer e reconhecer a pobreza, todas as pobrezas, não poderemos voltar a fazer uma boa economia, que surge sempre a partir da fome de vida e de futuro dos pobres.

Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • A Aleteia é publicada em 8 idiomas: Português, Francês, Inglês, Árabe, Italiano, Espanhol, Polonês e Esloveno.
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Tags:
PobrezaSociedade
Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
TRIGEMELAS
Esteban Pittaro
A imagem de Nossa Senhora que acompanhou uma ...
Aleteia Brasil
O milagre que levou a casa da Virgem Maria de...
Philip Kosloski
3 poderosos sacramentais para ter na sua casa
OLD WOMAN, WRITING
Cerith Gardiner
A carta de uma irlandesa de 107 anos sobre co...
Aleteia Brasil
Quer dormir tranquilo? Reze esta oração da no...
Reportagem local
Corpo incorrupto de Santa Bernadette: o que o...
No colo de Maria
Como rezar o terço? Um guia ilustrado
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia