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Religião

As 4 tensões internas da "Evangelii gaudium" do Papa Francisco

AFP/Max Rossi

Pe. Antonio Spadaro - CyberTeologia - publicado em 28/11/13

Entre espírito e instituição, entre diferença e unidade, entre missão e discernimento, entre os limites e a importância da própria exortação

Com o lançamento da primeira exortação apostólica do Papa Francisco, lembro-me exatamente do que eu experimentei ao entrevistar o Pontífice em 19 de agosto. Eu conheci o Papa poucos dias depois de seu retorno do Brasil e ele estava terminando a "Evangelii gaudium". Foi um período vulcânico, de grande graça e energia.


A "Evangelii gaudium" requer uma leitura atenta. Uma leitura rápida e imediata é possível e até mesmo oportuna. No entanto, para mergulhar no documento, precisamos fazer uma segunda leitura, porque o texto é fruto de um amadurecimento que durou anos, talvez décadas, não só de reflexão, mas sobretudo de experiência pastoral.


Em La Civiltà Cattolica, tentarei fazer a minha primeira leitura do segundo nível, por assim dizer, sobre as raízes, a estrutura e o significado da exortação. Aqui, eu gostaria apenas de destacar, de forma extremamente esquemática, algumas tensões internas positivas do texto, que o tornam dinâmico.

1. Tensão entre espírito e instituição


O Papa Francisco escreve: "A Igreja deve aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas" (22).


Há uma tensão dialética dentro da Igreja no discurso do Papa Francisco, entre o espírito e a instituição: um nunca nega o outro, mas o primeiro deve animar o segundo de maneira contundente e eficaz, a fim de combater a ''introversão eclesial" (27) – como a havia chamado João Paulo II –, o que é sempre uma grande tentação.


O Papa escreve: "Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos" (49) . Depois, mais adiante, ele diz que a Igreja é "o povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão institucional" (111).


É interessante notar esta fecunda tensão que anima o texto: entre a Igreja como um "povo peregrino" e como uma "instituição", que reflete as duas definições de Igreja preferidas do Papa Francisco, assim como também emerge na entrevista que ele me concedeu: "povo fiel de Deus a caminho" (Lumen Gentium) e "Santa Mãe Igreja hierárquica" (Santo Inácio de Loyola).

2. Tensão entre diferença e unidade


No texto emerge uma tensão entre diferença cultural e unidade da Igreja. O Papa escreve: "Este Povo de Deus encarna-se nos povos da Terra, cada um dos quais tem a sua cultura própria" (115): "a diversidade cultural não ameaça a unidade da Igreja" (117). Isso indica que evangelizar não significa impor certas formas culturais, tão antigas e refinadas. O risco é sacralizar uma cultura, cair no fanatismo, confundindo-o com o fervor (cf. ibid.).


Um dos efeitos mais significativos desta tensão é o recurso ao episcopado local no discernimento evangélico sobre a história. Lemos: "Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar 'descentralização'" (16).


Além das muitas vezes em que se menciona a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, devido ao documento de Aparecida, voltamos a encontrar menções dos bispos da África (62), Ásia (62 e 110), Estados Unidos (64, 220), França (66), Oceania (118), Brasil (191), Filipinas (215), Congo (230) e Índia (250). O Papa encoraja as comunidades cristãs a "analisar objetivamente a situação de seu país" (184).

3. Tensão entre missão e discernimento


Os desafios exigem um cuidadoso discernimento espiritual para reconhecer Deus em ação no mundo, e a maneira como ele age: "reconhecer e interpretar as moções do espírito bom e do espírito mau, mas também – e aqui está o ponto decisivo – escolher as do espírito bom e rejeitar as do espírito mau" (51).


Por outro lado, não basta reconhecer que Deus está agindo; é preciso agir também, para levar o Evangelho e anunciar o querigma. Daí vêm tantas exortações exclamativas: "Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário!" (80 ); "Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!" (83); "Não deixemos que nos roubem a força missionária!" (109). Daí o apelo, ou melhor, o "sonho", como o chamou o Papa, da "transformação missionária da Igreja".

4. Tensão entre os limites e a importância da própria exortação


O Papa acredita que "não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo" (16). E continua: "Não é função do Papa oferecer uma análise detalhada e completa da realidade contemporânea, mas animo todas as comunidades a 'uma capacidade sempre vigilante de estudar os sinais dos tempos'" (51).


"Nem o Papa nem a Igreja possuem o monopólio da interpretação da realidade social ou da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos" (184) ."No diálogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja não tem soluções para todas as questões específicas" (241).


Logo no início, deixa claro que não tem "a intenção de oferecer um tratado" (18). No entanto, o Papa quer dizer coisas importantes. Mostrar a importante incidência prática dos problemas que enfrenta. Ele sabe e escreve que "aquilo que pretendo deixar expresso aqui possui um significado programático e tem consequências importantes" (25). O tom utilizado muitas vezes é de urgência. Não é um texto parenético, como alguns interpretaram. Repito: o Papa fala de "significado programático".


Estas tensões internas não são as únicas. Indiquei apenas aquelas que, na minha opinião, tornam o texto mais dinâmico, aberto, compreensível, não preso a fórmulas rígidas e esquemáticas, distantes da experiência.


(Artigo completo publicado originalmente por CyberTeologia)

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