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Reflexões sobre a "Evangelii gaudium": a revolução da ternura

© MASSIMILIANO MIGLIORATO/CPP

Felipe Monroy - publicado em 28/11/13

O Papa Francisco pede uma Igreja que tome a iniciativa de responder aos anseios do homem de hoje

Em sua exortação apostólica "Evangelii gaudium", o Papa Francisco falou praticamente de tudo: economia, bem comum, comunicação, tecnologia, ciência, antropologia, política, ecologia, linguagem, religiões. Mas também fez esboços concretos sobre os temas que mais interessam o mundo contemporâneo: violência, crise, exclusão, busca da dignidade, respeito à vida, liberdade, exploração, diálogo, entre outros.


Como se não bastasse, ele também explorou a psiquê humana e comportamentos sociais como o egoísmo, individualismo, espiritualidade, comodidade, avareza, prazer, autossatisfação, perda de sentido e solidão. E propôs perspectivas para abordar âmbitos sociodemográficos precisos: mulheres, pobres, povos indígenas, jovens, vítimas das novas formas de escravidão, ministros, consagrados etc.


Mais parecida com uma encíclica, esta exortação apostólica oferece muitas pautas, mas a primeira e talvez mais importante é a humildade: “Nem a Igreja possui o monopólio da interpretação da realidade social ou da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos”. Acho que este é o aspecto mais relevante porque, com esta atitude, o Papa está indicando que o caminho rumo ao destino que aguarda o ser humano deve se abrir constantemente aos acontecimentos e discernir a partir deles.


A "Evangelii gaudium" é um texto amplo, mas não no sentido de "extensão"; sua finalidade talvez seja precisamente esta: abrir uma porta para que a IgrejaCatólica olhe para fora de si mesma e tenha mais certeza em sua amplitude de horizonte cultural que em sua extensão territorial de domínio. Dar um passo no sentido de uma "dinâmica de justiça e ternura, de contemplar e caminhar em direção aos outros", porque assim "voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho".

Francisco insiste na experiência da alegria do serviço, do diálogo e da entrega como atitudes de resposta aos muitos e complicados riscos da sociedade contemporânea, riscos que mantêm a humanidade triste e cheia de ressentimento, autossatisfeita e cheia de inquietude, pobre e cheia de desdém.


E o texto chama a atenção por isso: Francisco parece não temer a consternação que suas palavras provocam (e deveriam provocar). Sua crua descrição dos desafios sociais não é nada frente ao verdadeiro sofrimento. Mais adiante na exortação, ele comenta que "a realidade é mais importante que a ideia".


Em seu texto, por exemplo, Francisco é crítico e se posiciona claramente frente a uma economia da exclusão e da desigualdade. Esta crítica ao modelo econômico alude ao nosso comportamento social e à experiência cultural: “Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma”.


A partir deste panorama, Francisco busca explicar como ser Igreja, tendo a autocrítica como ponto de partida. Não se trata de como o mundo pode ser para que a Igreja consiga inserir-se nele, mas de como a Igreja pode se renovar para abraçar o mundo atual.

Francisco apresenta alguns desafios para a Igreja Católica e seus membros: superar as tentações de pessimismo, derrotismo, mundanidade e falsa vaidade. E propõe uma maior plasticidade na Igreja: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação”.


Ele sugere mais abertura e constante discernimento, porque “a Igreja pode chegar também a reconhecer costumes próprios não diretamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever!”.

Bergoglio insiste em algumas ideias que já havia formulado: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos”.


Além disso, propõe que a Igreja saiba se adiantar, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro das pessoas, envolver-se na vida cotidiana do povo, encurtar distâncias e abaixar-se até a humilhação, se necessário, para acompanhar a humanidade; ter paciência, saber frutificar e encarnar-se em uma situação concreta, dando frutos de vida nova, celebrando e festejando cada pequena vitória, cada passo adiante.


Nesta exortação, há esperança na criatividade e na audácia, que podem abrir caminho para uma Igreja que se encontra em meio a um complexo cenário. O desafio é comunicar e compartilhar liberdade, verdade e beleza, promover o bem por meio da amizade, do encontro e da alegria, que levam o ser humano a uma realização pessoal intensa e superior, plenamente transcendente.


@monroyfelipe

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