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Cooperação: os laços nos enriquecem

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Luigino Bruni - Ciudad Nueva - publicado em 04/12/13

As vantagens de agir juntos e coordenar-se para chegar a resultados benéficos para todos

A cooperação faz as comunidades prosperarem. Se não tivéssemos começado a cooperar (agir juntos, operar juntos), a vida em comum não teria começado e ainda estaríamos evolutivamente bloqueados na fase pré-humana. Mas, como ocorre com muitas das grandes palavras do humano, também a cooperação é ao mesmo tempo única e múltipla, e suas formas mais relevantes são também as menos óbvias. Cada vez que os seres humanos agem juntos e se coordenam para alcançar um resultado comum mutuamente benéfico, podemos falar de cooperação.


Um exército, uma liturgia religiosa, uma aula, uma empresa, a ação do governo, o sequestro de uma pessoa: todas estas são formas de cooperação, mas se referem a fenômenos humanos muito diferentes. Daí deriva uma primeira consequência: nem toda cooperação é boa. Para distinguir uma cooperação boa de uma ruim é preciso levar em consideração primordialmente os efeitos que essa cooperação produz de forma intencional nas pessoas externas à própria cooperação.


As teorias políticas e econômicas surgidas ao longo da história podem ser agrupadas em duas grandes famílias: as que assumem como ponto de partida a hipótese de que o ser humano por natureza não é capaz de cooperar, e as que, pelo contrário, reivindicam a natureza cooperativa da pessoa. O principal representante desta segunda corrente é Aristóteles: o homem é um animal político, ou seja, capaz de fazer amigos (philia), de dialogar com os outros e de cooperar pelo bem da pólis.


O expoente mais radical da corrente do animal insociável é Thomas Hobbes. Dentro desta corrente antissocial se situa grande parte da filosofia política e social moderna, enquanto os filósofos antigos medievais (inclusive São Tomás) em geral seguiam as ideias de Aristóteles. Poderíamos dizer também que a principal questão que a teoria política e econômica tentou responder foi explicar como é possível que surjam resultados cooperativos entre seres humanos incapazes de cooperar intencionalmente, por estarem dominados por interesses egoístas.


A filosofia política da modernidade respondeu com diversas teorias do “contrato social” (não todas), segundo as quais alguns indivíduos egoístas, mas racionais, entendem que lhes interessa dar vida a uma sociedade civil com um contrato social artificial. Já a ciência econômica moderna respondeu à mesma questão com as teorias da “mão invisível”, para as quais o bem comum não surge da ação cooperativa intencional e natural de animais sociais, mas do jogo de interesses privados de indivíduos egoístas separados uns dos outros.


Também a sociedade de mercado tem uma forma de cooperação; cada um busca seu próprio interesse e cumpre com a contraprestação (dinheiro por pão, pão por dinheiro), mas só como meio para obter seu próprio bem. No entanto, esta troca melhora as condições de ambos, graças a uma forma de cooperação que não exige nenhuma ação conjunta. O bem comum se torna, assim, a soma de interesses privados.


Podemos encontrar a cooperação intencional e forte dentro das empresas, porque a empresa é uma rede de ações conjuntas e cooperativas para alcançar objetivos, em sua maior parte, comuns. Mas esta cooperação não é a única possível no mercado. Aqui, vemos a diferença entre os modelos europeu e americano. O capitalismo dos EUA tem como modelo o mercado anônimo e busca “mercantilizar” também a empresa, vista como nexo de contratos, uma mercadoria ou um mercado com fornecedores e clientes internos. O modelo europeu, pelo contrário, busca “comunitizar” o mercado, tendo como modelo a economia mutualista e comunitária, e exportando-o da empresa a toda a vida civil; é uma economia mais densa em humanidade e em alegria de viver, mas também com as feridas que os encontros humanos provocam.


Hoje, o modelo dos EUA está colonizando também os últimos territórios da economia europeia, entre outras coisas porque nossa tradição comunitária e cooperativa não esteve sempre à altura do ponto de vista cultural e prático, e tampouco se desenvolveu em todas as regiões. A crise europeia mostra que a economia e a sociedade baseadas na “cooperação sem tocar-se” pode produzir monstros, e que os negócios que são apenas negócios se tornam antinegócios.


O ethos do Ocidente é uma interação de cooperações fortes e fracas, de indivíduos que fogem dos laços da comunidade em busca de liberdade e de pessoas que, para viver bem livremente, se unem. Em uma fase da história na qual o pêndulo do mercado global tende aos “indivíduos sem laços”, a Europa precisa recordar, guardando e vivendo, a natureza intrinsecamente civil e social da economia.


(Artigo publicado originalmente em Ciudad Nueva)

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