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Cardeal Odilo Scherer - Arquidiocese de São Paulo - publicado em 04/12/13

Deus não nos fez para a frustração, mas para a plenitude. Nossa vida não se esgota na precariedade insuperável do “reino terrestre”, mas está voltada para o “reino celeste”

Qual é o sentido da vida humana? Por que existimos? Há um motivo consistente para a prática do bem e para evitar o mal? Há muitos modos de compreender a vida, dependendo das culturas, dos sistemas filosóficos, das ideologias, das religiões. Essa  questão é crucial para o espírito humano, que tenta responder a ela através de suas múltiplas expressões simbólicas e culturais.

Não é o caso de analisar, aqui, as muitas respostas. Vamos refletir algo sobre as respostas do Cristianismo, a nós apresentadas como “Evangelii gaudium” – boa notícia –  através da pregação constante da Igreja. Em particular, algumas convicções basilares aparecem no tempo litúrgico do Advento.

Trazemos em nós um anseio irreprimível de superação das nossas limitações, de plenitude e de paz. Isso move continuamente a humanidade a trabalhar, a buscar soluções, a mover-se para uma perfeição, que conseguimos alcançar apenas em parte. Leva também à certeza de que o “pior” não é o “melhor” e, portanto, não nos conformamos com as coisas que vão mal, mas continuamos a lutar.

A fé cristã, baseada na Palavra de Deus, apresentada com abundância no Advento, nos diz que isso não é sonho vazio, nem utopia alienante. Deus não nos fez para a frustração, mas para a plenitude. Nossa vida não se esgota na precariedade insuperável do “reino terrestre”, mas está voltada para o “reino celeste”, ao qual Deus nos atrai e chama a participar, por sua graça e benevolência. Vivemos de “esperança segura”.

Enquanto nos debatemos “entre angústias e sofrimentos, alegrias e esperanças”, não estamos sozinhos, mas podemos contar com a ajuda de Deus, que veio ao nosso encontro e nos estendeu a mão por meio do seu Filho, o Cristo, Ungido de Deus. Por isso, nossa vida não precisa estar mergulhada na desorientação e tristeza. Desde agora, sabemos onde está a luz, o caminho, a porta, o pão a água, a companhia segura durante o nosso peregrinar neste mundo. Depende de nós, aceitar a companhia de Deus e sua paterna providência, ou rejeitá-la.

Este mundo não está entregue a forças cegas, que agem automaticamente sobre ele, com maldade inclemente, ou com bondade impessoal. A guerra não é desencadeada por forças ocultas e irracionais; a violência, a corrupção, a injustiça e a miséria não são fatalidades incontroláveis… O mundo está entregue em nossas mãos, para que o conduzamos no bem. Depende de nossas escolhas pessoais e comunitárias. O homem é responsável pelos seus atos, pessoal e socialmente. Toda causa gera conseqüências.

Por isso, durante a sua vida, o ser humano deve fazer escolhas conscientes e acertadas. Deus lhe mostra o caminho, dá o discernimento e concede sua ajuda para escolhe o bem. Na linguagem da fé, isso significa viver “atentos e vigilantes”, como nos é dito de várias maneiras na Liturgia do Advento. São Paulo exorta a “despir-se das obras das trevas” e a “revestir-se de Cristo Jesus” (cf Rm 13,11-14), ou seja, a viver segundo os ensinamentos do Evangelho.

A grande tentação do homem, porém, é a de ser o “deus” de si mesmo, acima do bem e do mal, a última instância para tudo. Não é assim que nós nos compreendemos. Somos criaturas e não somos senhores absolutos do nosso ser e do julgamento sobre nossas decisões: a vida e nossas capacidades, incluindo a liberdade para as escolhas, são dons, que nos são confiados; de seu uso deveremos dar contas a Deus um dia. Por isso, cabe-nos “vigiar” sobre nós mesmos e sobre nossas escolhas.

Mas isso não nos deve parecer uma ameaça aterradora: muito mais, isso deve ser visto como a pedagogia de Deus, que nos conduz pelas estradas da vida, para alcançarmos a meta suprema de nossa existência – o grande encontro com Ele -, e para sermos considerados dignos de participar do “banquete da vida eterna”.

(Artigo publicado no Jornal O São Paulo, ed. 2981 – de 3 a 9 de dezembro de 2013)

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