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Ter e dar: a capacidade de presentear

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Higinio Marín - publicado em 09/12/13

O que os reis magos ainda podem ensinar aos homens e mulheres da nossa época

A pobreza mais essencial não consiste na impossibilidade de ter, mas na incapacidade de dar.

Certamente, quem não tem nada não poderá dar nada, mas isso não significa que quem possui em abundância tenha o poder de dar. É preciso perceber que só existe uma maneira de dar: gratuitamente. Tudo o que não é gratuito não é propriamente um “dar”, mas um trocar, investir, fiar, emprestar.

Damos ou não damos. Para dar, é preciso exceder-se, ou não se está dando. Daí que a forma emblemática – e única possível – do dar seja o presente. Mas para dar, presentear, é preciso ter um poder grande, muito mais difícil de adquirir que os objetos que podem ser presenteados, e consiste em ser capaz de dar desinteressadamente.

Alguns acham impossível dar desinteressadamente. De certa forma, é verdade, porque quem dá tem uma expectativa irrenunciável: que o outro receba sem tornar a pessoa como parte de uma transação, ou seja, excluí-lo da rede de interesses mútuos e deixar então de acolher o apelo que o desinteresse expressa: dar é dar de si mesmo.

Todo presente, quando autêntico, aspira a trazer à luz a realidade do outro, e mais ainda, mostrar a luz da realidade, assim em geral. Portanto, todo presente é epifania, manifestação, consumação. Este era certamente o sentido antigo do “ornatus”: não um sobrante formal prescindível, mas o sobrante imprescindível no qual acontece a manifestação visível do oculto, a transfiguração que permite reconhecê-lo e proclamá-lo.

É tão difícil alcançar o poder necessário para dar, que o Ocidente se deu alguns modelos, aos quais chamou de reis e magos ao mesmo tempo. Se os enfeitamos ungidos e com coroas, capaz, metais e pedras preciosas, é para refletir e deixar ver sua luz, a luz que é a intensidade da realidade: o resplendor do que é, mais intensa e verdadeiramente.

E se os chamamos de “magos”, certamente é porque uma mesma ascendência etimológica compartilha o latim “magis” e a palavra “magistério”: o mago é mestre, aquele capaz de ensinar, de iluminar a realidade, compartilhando-a. A magia do magistério consiste em mostrar a luz da realidade, cujo esplendor a torna reconhecível consumando-a, pelo menos em sua aparição.

Quem dá um presente aspira a fazer o outro presente, presenciá-lo em toda a sua magnitude e profundidade visíveis. Entre o elogio, o presente e a homenagem há um parentesco com a tradição no poder dar até culminar. É preciso ter poderes de reis e de magos para saber dar.

Mas estes modelos ainda trazem outro enigma. Toda a sua façanha consistiu em seguir uma estrela em terras alheias e desérticas, carregando pequenos tesouros. A dificuldade está em acreditar que os tesouros já eram tesouros antes de seguirem a estrela no deserto. Porque, na verdade, não existe nenhum tesouro antes de ter sobrevivido a um deserto.

Não é por acaso que a tradição literária situa os tesouros em ilhas desconhecidas ou desertos inexploráveis. O mar e o deserto são a geografia do tempo: neles, nada perdura e nada que se faz deixa pegadas; o que reina é o esquecimento todo-poderoso. E, precisamente por isso, desertos e mares são os lugares em que é possível encontrar tesouros cuja natureza própria é uma perdurável inalterabilidade: isso é simbolizado pelo ouro e pelos diamantes, pelas pedras preciosas cujo brilho não se apaga.

As promessas mostram essa inalterabilidade do ser humano. As promessas feitas e as preservadas são a forma mais humana do tesouro e, portanto, do presente. O poder de presentear se esconde no adorável, que nos arrebata em promessas para sempre, enquanto este tempo durar. Se o ser humano é um animal que promete, é porque é o único capaz de atesourar e presentear, de dar, dar de si mesmo.

Mas entre nós, e precisamente nesta nossa época, às vezes parece ter se desvanecido o poder de presentear.

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