Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Quarta-feira 03 Março |
Santa Cunegundes
home iconAtualidade
line break icon

De Reagan a Ratzinger: um diagnóstico das raízes do sub-humanismo

Michael Salisbury

Aleteia Vaticano - publicado em 12/12/13

O movimento feminista, que no seu início tinha visto uma Susan B. Anthony chamar o aborto de “crime monstruoso que os homens impunham às mulheres”, passou a adotar a “ética” que Simone de Beauvoir plagiara do amante, Jean-Paul Sartre: a busca da autolibertação de qualquer vínculo social ou de qualquer influência externa, coisa que levaria as mulheres a reengenhar a sua sexualidade para torná-la igual à dos "playboys". O aborto, que antes era uma conveniência ilegal apoiada principalmente por homens solteiros e promíscuos, acabou virando um “direito humano fundamental” exigido pelas ativistas feministas, favorecido pela silenciosa filantropia dos controladores da população, tais como a Fundação Rockefeller, cujos relatórios alarmistas, com intensos matizes de eugenia, influenciariam o juiz Harry Blackmun no caso Roe versus Wade.

Assim como os proprietários de escravos encontravam “justificativas científicas” durante o Iluminismo para a prática imoral em que a sua própria “liberdade” se baseava, também os libertários sexuais procuram embasamento nos princípios do sub-humanismo moderno. O então cardeal Joseph Ratzinger explicou essa dinâmica no seu famoso ensaio "O Problema das Ameaças à Vida Humana", que traça o papel da liberdade mal interpretada na criação da nossa cultura da morte:

"Se olharmos rapidamente para a época moderna, veremos uma dialética que permanece vigente até hoje. Por um lado, a modernidade se orgulha de ter descoberto a ideia dos direitos humanos como inerentes a todo ser humano e com antecedência a qualquer lei positiva, além de ter proclamado esses direitos em solenes declarações. Por outro lado, esses mesmos direitos, reconhecidos como tais na teoria, nunca foram tão profunda e radicalmente negados na prática.

O dogma fundamental do Iluminismo afirma que o homem deve superar os preconceitos herdados da tradição: ele deve ter a ousadia de se libertar de todas as autoridades, a fim de pensar por conta própria usando nada além da própria razão.

A ideia do bem em si mesmo é retirada do alcance do homem. O único ponto de referência para cada pessoa é o que ela pode conceber por conta própria como sendo bom. Por conseguinte, a liberdade não é mais vista positivamente como um esforço pelo bem que a razão descobre com a ajuda da comunidade e da tradição; ela passa a ser definida como uma emancipação de todas as condições que impedem cada um de seguir a própria razão. Isso é chamado de ‘liberdade de indiferença’.

Um tipo individualista de antropologia, como vimos, nos leva a considerar a verdade objetiva como inacessível, a liberdade como arbitrária, a consciência como um tribunal fechado em si mesmo. Tal antropologia leva a mulher não somente a odiar o homem, mas também a odiar a si mesma e a sua feminilidade; acima de tudo, porém, a leva a odiar a própria maternidade.

Em termos mais gerais, esse tipo de antropologia leva os seres humanos a odiarem a si mesmos. O ser humano despreza o ser humano. Ele não é mais um ser conforme Deus, que olhou para a sua criação humana e achou-a "muito boa" (Gn 1,31). Pelo contrário, o homem de hoje se vê como o destruidor do mundo, como um produto infeliz da evolução. O homem que não tem mais acesso ao infinito, a Deus, é um ser contraditório, um produto que falhou. Vemos nisto a lógica do pecado: querendo ser como Deus, o homem procura a independência absoluta. Para ser autossuficiente, ele precisa se tornar independente, emancipar-se até mesmo do amor, que é sempre um dom da graça e não algo que pode ser produzido ou fabricado. Ao se proclamar independente do amor, no entanto, o homem se separa da verdadeira riqueza do seu ser e se torna vazio. A oposição ao seu próprio ser é inevitável. ‘Não é bom ser um ser humano’: a lógica da morte faz parte da lógica do pecado. O caminho para o aborto, para a eutanásia e para a exploração dos mais fracos passa então a ficar aberto".

Essa qualidade solipsista da moralidade do sub-humanismo, que consiste no “crie-seu-próprio-mundo-ex-nihilo", teria uma clara manifestação, um ano depois de Ratzinger escrever essas palavras, na lógica utilizada pela Suprema Corte dos Estados Unidos para ditar a sua decisão no caso Planned Parenthood versus Casey (1992), cuja passagem-chave diz: "No coração da liberdade encontra-se o direito de definir o próprio conceito de existência, de significação, de universo e do mistério da vida humana".

Vamos pensar durante um instante nesta afirmação. Será que esse "coração da liberdade" incluiria também o meu "direito" de definir "o meu próprio conceito" de liberdade? E se o meu conceito não corresponder ao seu? Qual deles merece prevalecer? E se cada um de nós definir o próprio conceito de significação, como é que vamos saber o que a decisão da Suprema Corte significa na hora em que a lermos? Se o meu conceito de "universo" é diferente do seu, conforme é “meu direito”, isso quer dizer que eu posso negar a existência da lei da gravidade e jogar você janela abaixo? De acordo com a Suprema Corte dos Estados Unidos, sim; desde que você ainda não tenha nascido.

O que a Suprema Corte apresenta como a nobre lógica da liberdade americana é, na verdade, pura tagarelice incoerente, revestida com a linguagem dos “direitos”: se fosse levada a sério, tornaria impossível não apenas governar, mas também comunicar-se e até mesmo pensar. É um engano plantado no voluntarismo. É a loucura que deriva da birra. É o que acontece quando o seu único axioma é "Não servirei".

  • 1
  • 2
Tags:
AbortoVidaVirtudes
Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • Aleteia é publicada diariamente em sete idiomas: inglês, francês,  italiano, espanhol, português, polonês e esloveno
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
1
KOMUNIA NA RĘKĘ
Claudio de Castro
Padre chora copiosamente diante da falta de respeito com a Eucari...
2
missionárias mártires iêmen
Reportagem local
A corajosa última oração destas 4 freiras antes de serem mortas p...
3
SAINT JOSEPH
Philip Kosloski
10 coisas sobre São José que você precisa saber
4
Kathleen N. Hattrup
O homem que beijou a testa do Papa diz que se curou em Lourdes
5
HOLY FAMILY
Philip Kosloski
A antiga oração a São José que é “conhecida por nunca ter falhado...
6
READING
Gelsomino Del Guercio
3 regras fundamentais para os leitores da missa
7
PRAYER
Desde la Fe
Coisas que você não deve fazer na Missa e talvez não saiba
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia