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Estilo de vida

O quadro de São Francisco e o menino de 9 anos que não está mais no meio de nós

@Rodolfo Papa

La Perfetta Letizia - publicado em 18/12/13

Uma conversa com Krzysztof Bramorski, o advogado polonês que cuida de crianças com câncer

Era despojado aquele apartamento que víamos nas tomadas televisivas antes da eleição. O estilo de Francisco, tão essencial e marcado pela singeleza, não nos induz a pensar em decoração suntuosa, em pinturas para colecionadores, feitas com técnicas sofisticadas e com alto valor de mercado.

Mas é numa daquelas paredes simples que pode estar pendurado um quadro muito especial, que retrata São Francisco de Assis. Seu valor é inestimável porque aquele quadro é o testamento de uma criança de 9 anos, que brigou bravamente contra uma forma grave de câncer, mas não conseguiu vencer a guerra.

Para reviver as emoções daquele presente e do encontro com o papa Francisco, nós conversamos com Krzysztof Bramorski, um jovem advogado polonês, ativo no trabalho voluntário em uma fundação que cuida de crianças com câncer.

Krzysztof, como nasceu essa ligação com a Fundação?

Eu herdei essa ligação do meu pai, que, faz mais de vinte anos, foi convidado pela diretora da clínica, a professora Jaworska, para trabalhar nesta obra do bem. O meu pai foi o primeiro presidente do conselho diretor e depois foi presidente do conselho da Fundação. Em 1994, eu também comecei a me envolver na busca de fundos para comprar os aparelhos necessários para os tratamentos. Desde 2006, com o meu escritório de advocacia, também organizamos todos os anos um grande leilão de caridade, que serve justamente para comprar os equipamentos para combater os tumores.

Como é que surgiu essa ideia da visita ao Santo Padre? Quais eram as expectativas?

Em 2004, eu organizei a primeira visita das crianças ao papa João Paulo II no Vaticano. E durante a viagem de Bento XVI à Polônia, eu organizei um encontro com o papa Ratzinger, em Cracóvia, na Basílica da Misericórdia Divina. Depois da eleição do papa Francisco, eu tentei pedir um encontro para as crianças e, com a ajuda de dom Celestino Migliore, que é o núncio em Varsóvia, nós acabamos conseguindo. Um dia, dom Migliore me ligou e disse que o papa ia nos receber em audiência especial dali a duas semanas. Era um prazo bem apertado, mas nós não íamos perder aquela oportunidade única para as crianças de jeito nenhum! Organizamos a viagem rapidamente, com a participação de vinte e uma crianças e adolescentes de 2 a 18 anos, que sofrem das formas mais graves de câncer e de leucemia. Todos foram acompanhados por médicos e familiares.

E foram para Roma encontrar o papa Francisco! O que esse encontro com o papa significou para as crianças que estão vivendo essa experiência tão amarga da doença?

Para todas as nossas crianças e adolescentes, essa visita representou mais ou menos uma "viagem rumo ao milagre"… Elas esperavam ansiosamente, e com alegria, a hora de rezar no túmulo de João Paulo II, de encontrar Francisco, de encontrar as orações e a bênção dele. Quando fiz a apresentação para o Santo Padre, eu destaquei, pegando as palavras do papa João Paulo II, que aquelas crianças tinham vindo da Polônia, de um país distante, mas sempre próximo na fé e na tradição cristã; falei que nós trazíamos conosco as orações de tantas crianças doentes, o sofrimento delas, o medo e a esperança delas de recuperar a saúde e de levar uma vida longa e cheia de alegria. Viver com crianças que não têm futuro é uma experiência que nos toca fundo. Eu me lembro de uma história, que aconteceu em 2004, quando nós estávamos esperando a audiência com o papa João Paulo II no Palácio Apostólico. Um menino de 14, 15 anos, viu que eu estava conversando com um guarda suíço e me perguntou se dava para aprender uma língua estrangeira em um ano. Eu falei que sim, que ele era jovem e podia aprender rápido, e prometi dar um livro para ele começar a estudar já na viagem de volta. Eu fiquei me perguntando por que ele insistia tanto em aprender em um ano, e quem me deu a resposta foi um médico. Aquele garoto sabia que ia viver só aquele tempo. Mas o extraordinário dessa história é que esse menino está vivo até hoje e pode aprender os idiomas que quiser!

Qual foi a impressão das crianças no encontro com este papa?

Francisco é um homem muito direto, franco, verdadeiro, e nós sentimos isso com clareza. Ele não está lá interpretando um papel. Ele é ele mesmo e as crianças notam isso. O papa entendeu na hora as expectativas das crianças, que queriam sentir profundamente a presença dele, a proximidade, a oração dele. Eu fiquei o tempo ao lado do papa e vi muito bem como ele orava por cada criança, o amor com que ele abençoava cada uma. Havia um silêncio irreal, uma “espera dos corações”, comovente mesmo. As crianças também foram elas mesmas, muito espontâneas diante daquela força de amor.

Vamos falar do quadro de São Francisco, que vocês deram de presente para o papa, e especialmente da história que existe por trás dessa obra…

É uma colagem que mostra São Francisco sorrindo, cercado de ovelhas, cabras, do lobo, de borboletas e pássaros coloridos, numa natureza perfeitamente harmoniosa. Esse quadro foi feito especialmente para o papa por um menino de 9 anos de idade, o Pedro, que, infelizmente, morreu poucas semanas antes do encontro com o papa Francisco. Quando eu entreguei o presente, eu não podia deixar de contar a história do Pedro para o Santo Padre. Ele recebeu o quadro e ficou visivelmente comovido com a história, e pediu para um dos assessores levar o quadro para o apartamento dele. Foi mais uma demonstração da sensibilidade do papa Francisco, que se deixa tocar no fundo do coração.

De advogado a promotor de iniciativas solidárias. Para você, o que significa viver essa experiência do sofrimento e, às vezes, infelizmente, também a experiência da morte?

Quem já visitou um hospital para crianças com câncer e leucemia não tem como ir embora de lá sem pensar: "Eu preciso fazer alguma coisa". Tem momentos bem difíceis, quando você volta para a clínica e não encontra mais algum daqueles rostos… Mas é uma experiência em que as crianças fazem o adulto entender o significado da vida e da morte. Elas enxergam as coisas de uma forma simples, imediata, do jeito que elas são, sem complicar tudo, como nós, adultos. As crianças que sabem que vão morrer perguntam “como” é lá no outro lado, e não "por quê". Isso é um sinal de que temos muito a aprender com elas sobre a vida, sobre a morte e sobre o sentido mais verdadeiro da fé.

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