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Até onde amar? Até quando entregar-se?

@DR

Carlos Padilla Esteban - publicado em 23/12/13

Submeter-nos ao que os outros querem sem perder a identidade, amar com um coração que descansa porque se sabe amado

Existe uma tensão entre duas possíveis atitudes na vida: dar tudo e esvaziar-nos, ou não dar nada e guardar tudo de maneira egoísta.

Queremos dar, queremos ajudar, porque dar nos faz sentir-nos úteis e porque somos capazes de amar. Mas, ao mesmo tempo, tendemos a reservar-nos, a buscar nosso espaço, a dar resposta aos nossos gostos, a pensar só em nós. E vivemos nesta tensão.

Sempre há algo a mais que podemos fazer, algo a mais que podemos dar. Então, quem coloca os limites? Onde devemos parar e dizer “Chega!”? Deus pede a cada um de nós segundo nossas capacidades, levando em consideração nosso caminho, aquela vocação que Ele nos deu. O tempo é limitado e só podemos estabelecer prioridades, para saber quando é preciso frear. Mas é verdade que sempre podemos dar mais.

Surge então a pergunta na alma: é possível dar tudo sem perder a vida? Sim, é possível, é um milagre, um dom, uma graça. Maria e José deram tudo. Muitos santos fizeram isso, e continuam fazendo hoje, em silencio, com humildade – porque, afinal de contas, a vida nos foi dada para que nos doemos. E nós queremos nos doar.

O coração humano foi feito para o infinito. Nós sabemos disso e não podemos nos conformar com “sobreviver”, com dar pouco, nem cansar-nos logo depois de não receber nada em troca.

Mas às vezes nos sentimos culpados porque guardamos algo para nós, porque nos reservamos e não damos tudo. Às vezes, chegamos a pensar que somos egoístas, quando fazemos algumas coisas pensando em nós mesmos, e não nos outros.

Os hobbies podem nos parecer uma perda de tempo. Dedicar tempo ao ócio parece desperdício. Mas não é assim, porque o tempo livre bem utilizado nos ajuda e nos capacita para dar mais. Porém, ainda assim, podemos nos sentir culpados: é isso que Deus quer? É o mais santo? Queremos entregar tudo e, ao mesmo tempo, desejamos manter o equilíbrio.

Podemos viver a tensão de achar que estamos nos doando demais. Damos, nos esvaziamos e ficamos doentes, porque não colocamos limites. Temos um instinto de sobrevivência. O coração não quer morrer. Podemos nos imolar, mas não deixamos de ser pessoas, com desejos e sonhos. Prestamos atenção neles?

Nós nos entregamos porque a vida só vale a pena se for entregue. Mas não queremos perder o centro, pois, se fizermos isso, no final, por algum lado acaba saindo a tensão e o sentimento de culpa.

Diante da tentação de dar em excesso, surge o atrativo de não dar. E, assim, podemos nos tornar egoístas. O egoísmo e o egocentrismo são males da nossa época. Cuidamos tanto dos nossos espaços próprios, dos nossos gostos, que todo o resto se perde. Descuidamos a missão, o que Deus nos pede. E então a alma murcha e ficamos tristes.

Hoje, contemplamos Maria que caminha rumo a Belém. Nela se dá a perfeita harmonia, um equilíbrio saudável. Peçamos a Ela que nos ajude a alcançar a harmonia entre o que sentimos, pensamos e dizemos, entre a nossa vida de fé e a vida cotidiana, entre o que somos e o que fazemos, entre nossos ideais e essa vontade rebelde.

Todos nós temos alguma ruptura em nosso coração, alguma divisão e falta de harmonia. Carregamos preocupações, medos, perguntas sem resposta.

Nosso coração é como o estábulo de Belém. É aí que Deus quer nascer: em meio à nossa ruptura interior, que muitas vezes nos afasta do seu amor. Aí, ainda que nos envergonhemos com pudor. Aí, onde nos custa estar tranquilos, porque nos dirigimos muitas vezes ao mundo, descuidando do nosso interior.

Sim, é aí que Deus vai nascer. Maria e José caminham nesta direção, buscando pousada. Em nós. A história se faz carne aqui e agora.

Tags:
Deus
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